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Fui ao Cinema... E não comi pipocas!

As aventuras e desventuras de uma miúda que se alimenta de histórias cinematográficas.

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As aventuras e desventuras de uma miúda que se alimenta de histórias cinematográficas.

ZOOM-IN: Era uma vez uma Hollywood imaginada por Quentin Tarantino

08.08.19 | Maria Juana

“Sente-se um conforto imediato quando começamos um diálogo do Quentin Tarantino. É por isso que os atores querem trabalhar com ele - devias ver a fila de gente que queria entrar neste filme.” As palavras são de Brad Pitt, ditas numa entrevista à Esquire.  O tema? O novo filme de Quentin Tarantino, Once Upon a Time… in Hollywood. A pergunta? Primeiro, porque é que o ator aceitou entrar no filme e rapidamente evoluiu para um elogio ao cineasta.

É uma constante no que toca a Tarantino. Como os seus filmes, as conversas começam por tentar perceber o que raio têm de especial os seus argumentos, para terminar no lugar oposto - o que raio há para não gostar. Ainda hoje recebemos cada um com um misto de expectativa e medo porque nunca sabemos o que vai sair dali. Por um lado pode ser a melhor coisa que já vimos, por outro podemos sair da sala de cinema de boca aberta sem perceber bem o que acabou de acontecer.

Mas sermos surpreendidos faz parte do encanto, não é? Tarantino tem uma forma muito sua e específica de dirigir as suas histórias e criar as suas personagens, do qual faz parte esta surpresa em percebermos como é que tudo se liga. De um fio condutor muito expansível (um tema genérico, um período da história, um mero acontecimento), ele cria ramificações para todos os lados que de alguma forma começam a fazer sentido. Para ele, e para nós.

 

Once Upon a Time… in Hollywood não parece exceção. Por um lado, temos os anos dourados de Hollywood a terminar, em pleno ano de 1969, um ano em que as estrelas do passado estão em decadência e o público procura novas temáticas e personagens. Por outro, temos um dos grupos criminosos mais conhecidos e falados desde a altura: o bando de Charles Manson.

No centro parecem estar Rick (Leonardo DiCaprio) e Cliff (Brad Pitt). Rick é uma antiga estrela de televisão dos anos 50 que parece apenas conseguir papéis secundários de mauzão. A sua carreira, antes gloriosa, está em decadência e o seu agente (Al Pacino) está sempre a tentar convencê-lo a participar em spaguetti westerns… em Itália. A acompanhá-lo está o seu amigo e duplo de longa data que nunca teve um lugar ao sol; manteve-se na sombra da estrela, numa Hollywood que nunca lhe ofereceu mais do que isso.

Mas Rick chega a uma conclusão simples: o seu futuro pode estar a uma festa de distância em casa dos seus vizinhos, Roman Polanski e Sharon Tate (Margot Robbie).

Robbie torna-se a terceira perna deste enredo, e não apenas como vítima de Charles Mason. Os três fazem parte de uma Hollywood em mudança, que vai da estrela em decadência, à estrela em ascensão e ao duplo apaixonado pelo cinema que nunca vai ter sucesso.

São quase personagens-tipo que fazem parte de qualquer fase da história da Meca do Cinema. Sempre que o público pede mais, aqueles que não se sabem reinventar ficam de fora e os que nunca conseguem o seu lugar ao Sol, na Lua ficarão.

Mas isto não seria um filme de Tarantino se a ligação entre os 3 fosse meramente temática e idealista. Lá no fundo, no fundo, de alguma forma Manson vai mudar também o curso da história, a forma como Rick e Cliff olham para as suas vidas (é fácil perceber como é que a de Tate mudou… certo?). Agora como?

Isso é o que temos para descobrir.

Sharon Tate (Margot Robbie) não chegou a ser a estrela que prometia ser. Em 1969 foi assassinada por Charles Manson e o seu grupo, na sua própria casa.

Na mesma entrevista, Tarantino afirma que este é capaz de ser o seu filme mais parecido com Pulp Fiction, e também o mais autobiográfico. Esta é uma história de amor a Los Angeles, à cidade que o viu crescer e que o fez apaixonar-se por Cinema. Independentemente do significado que podemos retirar ao enredo e às personagens, este é um retrato de um a época em que Tarantino viveu, em que assistiu às estrelas a sair e entrar em cena e a um público que começou a querer mais e mais.

Em alguma fase das suas carreiras, os próprios atores que protagonizam Once Upon a Time já questionaram o que procuravam na indústria, já questionaram o que queriam fazer e aquilo que lhes era oferecido. O próprio Tarantino esteve vários anos a trabalhar na história, que passou de um livro para o argumento de um filme.

Porquê? Porque pedia para ser filmada.

O cinema de Tarantino é feito, sobretudo, por um amor à arte que está a criar; à arte de escrever, de criar personagens, de encontrar cenários e gravar tudo para conseguirmos encontrar a sua visão. O Cinema move as suas histórias, mesmo quando estamos a falar sobre Hitler ou escravidão - aliás, sabiam que, em Django Libertado, Django e Hildi são o começo da linhagem de John Shaft? Bem, pelo menos na cabeça de Quentin, são (para os distraídos, John Shaft é uma personagem criada nos anos 1970 que conta com vários filmes de detetives e 3 gerações. A mais célebre foi protagonizado por Samuel L. Jackson em 2000; a mais recente foi publicada no Netflix em julho).

Once Upon a Time… in Hollywood é uma história de amor entre Tarantino e a sua cidade, mas também entre nós e o Cinema. Entre os atores que lhe dão vida, aos profissionais atrás das câmaras que dão vida aos argumentos. Rick e Cliff são os profissionais que entram em decadência, Sharon Tate é a estrela que nunca chegou a sê-lo. Só que aqui o objetivo não é serem nada disso - são pessoas apaixonadas pelo que fazem.

Não existem dúvidas de que Tarantino é apaixonado pelo que faz, e quem trabalha com ele é apanhado nesta paixão. E nós, enquanto público, somos apanhados lá pelo meio e ficamos vidrados.

Era uma vez um filme de Tarantino. O que raio é que vem para ai?

 

Once Upon a Time… in Hollywood estreia em Portugal a 15 de agosto.

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