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Fui ao Cinema... E não comi pipocas!

As aventuras e desventuras de uma miúda que se alimenta de histórias cinematográficas.

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As aventuras e desventuras de uma miúda que se alimenta de histórias cinematográficas.

The Laundromat (2019) - Os Panana Papers explicados em filme

20.10.19 | Maria Juana

Sinopse: Em 2016, milhares e milhares de documentos da firma Mossack Fonseca foram expostos na imprensa internacional com provas de que figuras proeminentes da sociedade usavam contas offshore e empresas fantasma para fugir aos impostos. Esta é a história de como é que isso foi possível, contada pelos próprios Mossack (Gary Oldman) e Fonseca (Antonio Banderas) e por Elle Martin (Meryl Streep), uma vítima colateral.

A produção Netflix estreou esta sexta-feira na plataforma e já estava envolta em polémica: depois de algumas semanas em salas de cinema selecionadas, Jürgen Mossack e Ramón Fonseca (os verdadeiros) processaram a Netflix por mancharem o seu bom nome. O caso, como podem ter calculado, não deu em nada e o filme ficou disponível para todos assistirmos e compreendermos melhor esta polémica.

Não é fácil compreender. A polémica pode ter disparado apenas em 2016, mas foram anos e anos e anos de papelada e evasões, com nomes estranhos e complicados e curvas e contracurvas de formas de tentar fugir ao que poderia ser considerado legal - mas que na verdade estava totalmente dentro da lei.

A história de Laundromat é verdadeira. Mossack e Fonseca existem - são dois advogados que criaram uma empresa para dar privacidade a pessoas com dinheiro (privacidade essa que tanto podia funcionar para os mais honestos e com bom coração, como para os criminosos e que tinham mesmo muito a esconder). Aqui, são eles os narradores, quem não só explica o que aconteceu como nos levam numa viagem ao negócio que construíram, explicando e fazendo compreender as suas miudezas e estranhezas.

Já Elle é um bode expiatório, a parte fictícia do argumento que nos ajuda a perceber como é que as maquinações de empresas como as de Mossack Fonseca afetam o povinho. Elle luta para compreender como é que a seguradora da empresa de cruzeiros no qual o marido morreu não se responsabiliza pela sua morte e a de mais 20 pessoas. Ela segue os papéis e investiga o que há por trás, levando-nos consigo.

Steven Soderbergh está ao leme de um filme que tem um quê de documentário. Com um argumento baseado no livro de Jake Bernstein, criou um puzzle de planos, cenários e personagens que quando encaixados, mesmo que pareçam de mundos completamente diferentes, ajudam-nos a criar uma imagem do que aconteceu em 2016. Sempre com a narração e o acompanhamento de Oldman e Banderas (na pele dos dois advogados), há uma narrativa linear que tenta utilizar o máximo de recursos visuais para que o filme funcione quase como um Panama Papers para totós.

No fundo, é quase uma crítica ao sistema financeiro e bancário criado no mundo capitalista e que continua a ter repercussões na vida dos cidadãos dos Estados Unidos da América. Apesar deste ser um flagelo mundial, fica muito patente que um dos objetivos de Laundromat é abrir os olhos da sociedade norte-americana, mostrando com clareza como é que negócios como este afetam o país e a sua economia.

Mas mais do que a crítica social, The Laaundromat é um exercício narrativo e argumentístico - sim, parece que estou a inventar palavras, mas é com essa ideia com que ficamos. Apesar de ser o estilo de Soderbergh a conferir um estilo à sequência da ação, é sobretudo o argumento de Scott Z. Burns que nos faz percorrer cada nome, crime e incompreensão que a história possa trazer de uma forma muito simples e automática.

É também um festim para os olhos, carregado de um elenco de topo com nomes e caras que todos conhecemos - mesmo, como o caso de Sharon Stone, que apareçam apenas 2 minutos. O trio de protagonistas ganha um claro destaque pelo seu cariz narrativo, mas existe quase a sensação de que não existem papéis secundários, antes uma importância própria dada a cada uma das personagens.

Não é um filme que quebre ou crie novas regras narrativas, mas antes que se sabe aproveitar de um argumento bem escrito e de uma história com potencial de arregalar a curiosidade. Ainda hoje estão a ser revelados documentos e nomes envolvidos no escândalo dos Panama Papers e a estreia de The Laundromat é com certeza mais uma farpa para que casos semelhantes continuem a ser tornados públicos.

Nesse aspeto, o filme comete a proeza de conseguir explicar as suas repercussões de forma clara. É natural que Mossack e Fonseca (que no decorrer do escândalo estiveram 3 meses presos e fecharam a firma no Panamá apenas no início deste ano) considerem que o filme os coloca numa posição de vilão que não têm. Mas também é claro que as ações criminosas não eram totalmente do seu conhecimento - mesmo que soubessem que era uma possibilidade.

Há ainda uma tinta a gastar no assunto. E muita fita, se outros seguirem o exemplo de Soderbergh.

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