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Fui ao Cinema... E não comi pipocas!

As aventuras e desventuras de uma miúda que se alimenta de histórias cinematográficas.

Fui ao Cinema... E não comi pipocas!

#RoadToTheOscars: Foge! (2017) – porque é que é a surpresa do ano

Sinopse: Chris (Daniel Kaluuya) é um jovem afro-americano, fotógrafo de profissão, que namora com uma rapariga branca. Apesar das dúvidas se a família dela o aceitará, decidem passar um fim de semana em casas dos pais dela para se conhecerem. Mas o ambiente pacífico e amigável depressa se transforma numa ameaça à própria vida de Chris.

 

 

Foge! foi, sem dúvida, uma das grandes surpresas do ano. E não estamos só a falar do facto de, sendo considerado um filme de drama/terror, conseguiu ainda assim ser nomeado para os Óscares de Melhor Filme, Melhor Argumento e Melhor Ator.

 

Não, a surpresa não começa pela nomeação. Começa sim por Foge! parecer mais um daqueles filmes de terror manhosos em que existem membros a voar pelo ar, e afinal é-nos entregue um argumento do camandro, extremamente bem construído e um filme para lá de bem realizado.

 

Sim, podem já tirar a conclusão de que adorei Foge! Mas vamos por partes.

 

Foge! estreou em fevereiro e depressa se tornou um fenómeno de bilheteira. Publicitado como filme de terror, depressa o público percebeu que, na verdade, esta é uma sátira não só ao género de terror, mas a todo o panorama político e social em que a comunidade negra vive nos Estados Unidos.

 

Jordan Peele, o estreante realizador e argumentista do filme, parte da premissa de que Chris e Rose (Allison Williams) são um casal que foge às regras porque ele é preto e ela branca. E apesar dos pais dela se mostrarem muito liberais e confortáveis com a situação, o que Chris descobre é que afinal têm, tal como grande parte da América, um sentimento racista enraizado em si e nem se apercebem.

 

O que o trabalho de Peele tem de bom é que não nos mostra diretamente este racismo, nem menciona sequer a palavra. O que faz é mostrar-nos uma série de acontecimentos que aparentemente não têm nada a ver com a cor da pele (diretamente falando), e que quando juntos nos fazem pensar “Bolas, que inteligência de filme.”

 

 

É isso mesmo: Foge! é um filme inteligente. Inteligente na forma como foi escrito, na forma como foi dirigido e em todos os pequenos pormenores de interpretação que nos vão surgindo. É daqueles filmes em que tudo parece ter um segundo sentido, mas vez de termos de pensar muito para encontrá-lo, está muito explicíto.

 

Sim, é um filme com muita crítica social. A forma como a história é contada quase que nos leva numa viagem em que o racismo está escondido sobre a forma de simpatia e copos de chá gelado. Mas quando começamos a olhar com atenção, lá está, muito presente, muito ténue, muito “eu não sou racista mas não gosto de misturas.”

 

Ao mesmo tempo é altamente divertido. Não só porque é um filme de terror com conteúdo, mas porque tem mesmo cenas divertidas, muitas à pala da amizade de Chris e Rod (LilRel Howery), aquele amigo que o avisa que ir para uma casa cheia de brancos no meio do nada não é a melhor ideia de sempre.

 

No fundo, Foge! é quase uma mistura entre a realidade e a ficção, mas está tão bem contado e tão mascarado que tudo nos surpreende. E é essa sensação de surpresa, de que estamos perante um daqueles filmes totalmente inesperados, que nos faz ficar de boca aberta enquanto adoramos cada minuto. É uma sátira ao género do terror, mas também à realidade.

 

Além disso, Peele conseguiu rodear-se de profissionais na arte de interpretar e transmitir mensagens com o olhar. Desde Kaluuya (com trabalho reconhecido pela crítica e pela Academia, valendo o que vale) a Williams, mas também Catherine Keener e Bradley Whitford enquanto pais de Rose. E todos os “secundários” que nos fazem acreditar em cada ação e palavra.

 

 

Há quem diga que a nomeação de Foge! para Melhor Filme e de Jordan Peele para Melhor Argumento tenha sido um golpe político, para fugir às polémicas de representatitividade das minorias das nomeações. Eu sou daquelas que acredita nisso. Porém, fico tão feliz que tenha acontecido!

 

Foge! é dos meus filmes preferido de 2017 exatamente porque surpreende quando não estamos à espera de ser surpreendidos. Adorei como pensava que ia ver só mais um filme de terror, e me deparei com uma obra inteligente e para lá de bem feita. É ótimo ver como, talvez, Hollywood começa a dar voz aos pequenos, a mostrar a sua mestria, a compreender que o seu valor artistico é tão importante quanto o dos nomes consagrados.

 

Todos sabemos que estas nomeaçõe valem o que valem. Cada um de nós tem os seus preferidos, e cada um de nós retira de cada filme algo particular. Só que vermos filmes de 4.5 milhões de dólares ao lado de outros que custaram o dobro ou o triplo é bom. É ver que conseguimos que seja dado valor e reconhecimento aos pequenos e aos grandes, de igual modo.

 

Se todos forem como Foge! que venham. Estamos à vossa espera de braços abertos.

 

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