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Fui ao Cinema... E não comi pipocas!

As aventuras e desventuras de uma miúda que se alimenta de histórias cinematográficas.

Fui ao Cinema... E não comi pipocas!

REWIND: Estamos há 20 anos apaixonados por A Paixão de Shakespeare

“But, soft! What light through yonder widow brakes?

It is the east, and Juliet is the sun.”

 

É com estas palavras que Romeu descreve Julieta na peça que consagrou William Shakespeare como um dos maiores dramaturgos de sempre. São palavras apaixonadas, que fazem prever um destino cruzado entre duas almas que hoje sabemos estarem fatalmente ligadas.

 

Foi com Romeu e Julieta que Shakespeare ganhou o sucesso que hoje conhecemos, num século XVI que mais aprecisava cenas de ação e piadas fáceis com trocadilhos. Mas Shakespeare foi além da comédia, criando dramas e romances tais que ainda hoje são recitados e conhecidos.

 

Há 20 anos atrás, 2 argumentistas foram mais longe: escreveram o argumento de um filme que contava a origem desta peça. Levados pela ausência de informação que há sobre a vida do escritor nos anos antecessores ao seu lançamento, Marc Norman e Tom Stoppard quiseram contar como é a vida de Shakespeare inspirou a sua obra.

 

O resultado? A Paixão de Shakespeare, um dos filmes historicamente menos corretos mas que ainda assim continua a deixar-nos com o coração nas mãos sempre que o vemos.

 

Realizado por John Madden e protagonizado por Joseph Fiennes e Gwyneth Paltrow, o filme apresenta-nos ao próprio William com um forte bloqueio criativo. Fortemente pressionado pelo dono do Rose Theatre para que a sua próxima comédia fosse um sucesso, William vê-se sem inspiração para continuar a escrever – até conhecer Viola de Lesseps e redescobrir o amor e com ele aquilo que conhecemos hoje por Romeu e Julieta.

 

Foi há 20 anos que o filme estreou, não sem muita controvérsia e alguma curiosidade. Apesar de tudo isso, continua ainda hoje a ser um exemplo de arte e engenho, de romance e ação, mas também de uma Hollywood em mudança.

 

Da liberdade criativa à realidade

 

Apesar de A Paixão de Shakespeare querer contar uma parte da sua história de vida, a verdade é que o filme é totalmente ficcionado. Não existem registos de que de Viola tivesse existido e que William se tenha apaixonado por ela.

 

Na verdade, não existem registos da vida de Shakespeare entre vários anos da sua vida; é como se tivesse sido apagado da História. Foram esses anos em branco que os argumentistas usaram como tela para criar o enredo que aprendemos a conhecer.

 

O seu objetivo seria mostrar como é que tanto da sua vida terá influenciado as suas peças e não apenas Romeu e Julieta. É por isso que ao longo de todo o filme existem tantas referências a passagens ou personagens que mais tarde figuraram noutras histórias. Além disso, é quase dado como prova que este momento da vida de Shakespeare não só o permitiu escrever a peça que o deixaria tão famoso, como faria dele o escritor dramático que hoje tão bem conhecemos.

 

O filme, recorrendo a uma série de personagens e enredos tão distintos mas tão próximos da época, permitem que estes anos sejam verossímeis de ter acontecido. Não faz sentido tudo isto?

 

Tanto fez na cabeça de alguém que o filme acabou por ganhar sete Óscares da Academia, incluindo Melhor Atriz Secundária, Melhor Atriz e Melhor Filme. Se bem que os dois primeiros foram facilmente “aceitáveis” (mesmo com Judo Dench a aparecer um total de 7 minutos em todo o filme), a grande consagração foi surpreendente e algo questionada.

 

Tudo porque o romance corria em conjunto com O Resgate do Soldado Ryan, o épico de guerra de Steven Speilberg que tinha tudo o que a Academia gosta de premiar. Todos achavam que fosse este o grande vencedor, e ainda hoje muitos culpam a então mestria de Harvey Weinstein para não ter acontecido.

 

Weinstein, perguntam vocês? Aquele Weinstein? Sim, esse mesmo em que estão a pensar.  Anos antes de ser acusado de assédio sexual e de ter sido o primeiro a dar ao mote ao movimento #MeToo, Weinsten era um produtor de poder em Hollywood. O nome era reconhecido mas faltava-lhe a estatueta para o reconhecimento que queria.

 

Então fez o que qualquer produtor ambicioso faria: criou buzz em torno do filme com recurso a presenças na imprensa e programas de televisão, organizou festas, espalhou a palavra... tudo o que pudesse dizer que este era o filme de que todos estavam à procura.

 

Se foi por isso que resultou ou não, ainda hoje não podemos ter 100% de certeza. Weinstein não foi o primeiro a utilizar o espalha palavra como forma de criar mais atenção em torno de um filme, e certamente fez regressar uma tendência que há muito era praticada em Hollywood – só da fama é que não se livra.

 

O que sabemos é que 20 anos depois, A Paixão de Shakespere continua a fazer suspirar aqueles apaixonados pelas histórias simples mas cheias de significado, e pelo próprio Bardo. Ficionado ou não, a verdade é que quase que temos um pequeno vislumbre de como é que tudo poderia ter corrido. E isso é o mais precioso.