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Fui ao Cinema... E não comi pipocas!

As aventuras e desventuras de uma miúda que se alimenta de histórias cinematográficas.

Fui ao Cinema... E não comi pipocas!

O Primeiro Homem na Lua (2018) – Um grande passo para os biopics

Sinopse: Esta é a história da chegada do Homem à Lua pela perspetiva de Neil Armstrong (Ryan Gosling). Não é o relato normal, mas sim o caminho pessoal e profissional percorrido por Armstrong e pela sua família, incluindo a mulher, Janet (Clare Foy). É sobre o astronauta, as suas emoções e a sua conduta, de uma maneira que não é comum assistirmos.

 

 

A figura de Neil Armstrong é incontornável. Conhecemos o seu semblante, as suas derrotas e vitórias, mas a verdade é que além das suas palavras poéticas no momento de fazer História, pouco sabemos sobre ele – ou pelo menos, pouco sei sobre ele.

 

Se bem que O Primeiro Homem na Lua não é o típico biopic a que estamos acostumados. Aqui, ao invés de termos uma biografia, temos um relato intimista e muito cinematográfico de sete anos da vida de uma família. Sete anos, desde o momento em que Armstrong vê a sua vida mudar com a morte da filha de dois anos, vítima de cancro, até à sua consagração como herói mundial.   

 

E sobretudo, temos um retrato muito intimista de Armstrong.

 

Passo o disclaimer inicial de que sou uma fã já consagrada de Damien Chazelle, o realizador por detrás da história. Ele conseguiu a proeza de criar um dos 2 filmes que guardo no meu coração mas que nunca conseguirei rever: Whiplash. Whiplash é um filme carregado de tanta intensidade que receio nunca conseguir repetir a experiência do que senti ao assistir pela primeira vez – por isso deixo-a preciosamente guardada na memória.

 

Além disso, não deixa de ser impressionante como é que um realizador em início de carreira (esta é apenas a sua terceira longa metragem, depois de impressionar também com La La Land) conseguiu passar por três géneros tão diferentes de forma tão excelsa.

 

Porque não haja dúvidas: O Primeiro Homem na Lua é uma nova prova em como Chazelle não está aqui para brincadeiras.

 

Apesar de serem  géneros tão distintos (do drama ao musical ao biopic), em todos eles existe uma forte presença humana. Existe uma tensão muito própria em cada um deles, em que se explora a busca pela perfeição e pelo sonho, a curiosidade pelo desconhecido, a linha (que pode ser tão ténue) entre os lados emocional e racional de cada um de nós.

 

 

Já para não falar de um enorme respeito pelo público. Esta pode ter sido a primeira longa dirigida por Chazelle sem um argumento escrito pelo próprio (foi Josh Singer o responsável, baseado na biografia de Armstrong escrita por James R. Hansen), mas não deixa de ter uma história que nos transporta para o seu interior, que nos leva numa viagem pelo tempo e espaço.

 

Há uma atenção para com as cores menos saturadas para regressarmos aos Estados Unidos dos anos 1960. Existem close-ups intensos, em que é o olhar de Ryan Gosling e de Claire Foy que nos conta a história. Há uma banda sonora crescente, entre a balada emocional quando é pedida, à ausência de música, aos sons assustadores do metal a contrair do foguetão e às notas triunfais de um tema épico.

 

Damien Chazelle não é apenas um contador de histórias; ele quer ser o responsável por nos transportar dentro delas e de conseguir trazer até ao público todas as sensações realistas possíveis. Se sentimos a dor de Andrew em Whiplash, também sentimos o medo e a tristeza de Neil a bordo da Gemini 8.

 

É por isso que O Primeiro Homem na Lua está tão distante de um biopic como qualquer filme consegue estar. Para já, o foco está sobretudo naquilo que o protagonista teve de viver nos sete anos entre ter sido escolhido para o projeto Gemini, até ao momento em que atinge o grande objetivo. O que vem antes é passado muito ao de leve, servindo apenas como introdução ao futuro.

 

Da mesma forma, aquilo que conhecemos ao longo do span temporal do filme são as experiências que mais efeito tiveram sobre a sua família – porque não foi apenas Armstrong o herói; a sua mulher teve um papel tão determinante quanto o seu enquanto cuidadora de uma família que não sabia se o viria a regressar. E o melhor é que não passa nenhum dramatismo ou cliché na forma como Janet é retratada, antes dá-lhe a força e a determinação que merece.

 

 

O que percebemos com O Primeiro Homem da Lua e a perspetiva apresetada por Chazelle e Singer é que Armstrong era homem de poucas emoções, refugiado nos factos e que assistiu à morte de colegas e amigos por uma causa em que ele próprio acreditava. Aqui, pela pele de Gosling, não vemos o sorriso que por vezes aparece em fotografias e filmagens da altura; questionamo-nos quase qual será o verdadeiro Neil: se aquele que recordamos, se o homem fechado e pouco dado à emoção que Gosling nos mostra.

 

Calçar os sapatos de alguém que viveu entre nós não é fácil – se bem que o filme foi acompanhado pelos dois filhos do astronauta, que deram dicas se algo poderia não ir de encontro à realidade. Aqui, apesar do olhar penetrante de Gosling, parece que falta qualquer coisa... Mas será uma falha da sua interpretação ou da própria personagem?

 

Dentro da atmosfera do filme acaba por não ser desconcertante, porque aquilo que o envolve e como o envolve ganham uma dimensão muito maior.

 

No fundo, o Primeiro Homem na Lua é um ótimo exercício de reflexão. Tremendamente bem feito, é uma viagem à vida de um homem que ficámos a conhecer como o primeiro, sem na verdade sabermos aquilo por que passou. Mais do que contar uma história que todos conhecemos, este filme é uma experiência, em que as nossas emoções são transportadas para uma casa em Houston e um foguetão em direção ao desconhecido. E isso é sem dúvida conseguido pela mestria com que está dirigido.

 

Que é como quem diz: vejam o raio do filme!

 

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