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Fui ao Cinema... E não comi pipocas!

As aventuras e desventuras de uma miúda que se alimenta de histórias cinematográficas.

Fui ao Cinema... E não comi pipocas!

Finalmente vi Um Lugar Silencioso. Já só quero a sequela!

Dizem que mais vale tarde do que nunca. Nos últimos tempos, e ao que ao Cinema diz respeito, este é o meu lema de vida. Depois de estar tanto tempo sem ver um filme no cinema, estes dias têm sido para recuperar o tempo perdido. Um Lugar Silencioso não foi o primeiro nesta minha demanda – mas foi o primeiro a fazer-me ficar tão entusiasmada com um filme que mal consigo escrever sobre ele.

 

Vamos tentar.

 

 

 

Se estiveram atentos, Um Lugar Silencioso foi uma das grandes sensações de verão. O filme de terror marca a estreia de John Krasinski no papel de argumentista e realizador, e logo num registo ao qual não estamos acostumados a vê-lo. Ele é mais comédias, independentes fofinhos... Não propriamente filmes de terror com um pouco de ficção científica à mistura.

 

Acho que esse foi um dos principais motivos de tanta surpresa e tanto sururu em volta deste filme. Penso que ninguém estava à espera de ver Krasinski a estrear-se desta forma – eu pelo menos não estava. Junta-se a isto o facto de ser um filme mesmo muito, mas muito fixe.

 

Acompanhei a chegadas das críticas com alguma tristeza, porque não consegui assistir no cinema. É uma história que pede: num mundo pós-apocalíptico, uma família é obrigada a viver no completo silêncio para sobreviver. A existência de criaturas cegas e altamente sensíveis ao som obriga-as a falar utilizando linguagem gestual e com movimentos cuidados, sob o risco de serem assassinados ao mínimo ruído.

 

Um Lugar Silencioso é um eufemismo para o silêncio que efetivamente sentimos ao ver o filme.

 

John Krasinski foi realizador, co-argumentista e protagonista do filme.  

 

Mas é esse silêncio que nos acaba por prender. A premissa do filme, além de inteligente, é altamente assustadora. Viver num mundo em que não podemos fazer um único som? A ideia aterroriza-me, a mim que acredito na força das palavras e raros são os momentos em que estou em absoluto silêncio. Mais do que isso, aquilo que exige desta família e a forma como se comportam, os seus receios e desenvolvimentos, tornam este um filme de terror em pleno. O medo não vem apenas de uma boa realização de momentos de suspense – chega sobretudo graças aos próprios acontecimentos.

 

Acaba por ser um filme muito cru, porque os diálogos são parcos. Sendo este um argumento que não se pode encostar aos diálogos para dar contexto ou desenvolver história, Krasinski, Bryan Woods e Scott Beck (o trio de argumentistas) criaram uma storyline sem grandes artifícios, em que o contexto nos é dado de forma equilibrada é inteligente. Nem é esse o foco da história – não importa como é que apareceram estas criaturas, ou como está o resto do mundo. O que importa é como esta família sobrevive.

 

O que para mim torna tudo muito mais assustador. Quando todos pensamos que este é um filme sobre sobrevivência, descobrimos que o grande objetivo é ver como as personagens são construídas e aquilo que as faz continuar. Não era tão mais fácil sucumbir à realidade e viver livremente? Não quando se têm o seu passado e o seu presente. O seu passado somos nós que construímos.

 

Depois, é preciso mestria para conseguir juntar isto ao bom que temos no Cinema de terror, o que Krasinski conseguiu muito bem no papel de realizador. De uma forma inteligente sabe jogar com os momentos de maior suspense, criando não só tensão com os planos que escolhe, mas também com aquilo que opta por nos mostrar e como. Nota-se que há algum pensamento aqui, que não é deixado ao acaso.

 

Nem mesmo a edição som. Sendo este um filme com pouco ruído, esperava-se algo monótono ou pouco apelativo. Mas não: não só a tensão acumulada é facilmente criadora de expectativa, como a forma como o som (ou a sua ausência) nos acompanha dão algum ritmo à história. São subtis as flutuações, e ao início quase que passam despercebidas, mas ganham importância e peso ao longo da ação.

 

Emily Blunt é Evelyn Abbott, mãe de família em Um Lugar Silencioso. A jovem Millicent Simmonds não só interpreta a sua filha, como demonstra como a sua surdez não limita um trabalho irreprensível.

 

Vale mesmo tarde do que nunca, principalmente quando estamos a falar de bons filmes – o que este é. Nos dias que correm, são poucos os filmes de terror que mexem connosco. Não porque nos assustam ou têm espíritos, mas sim porque a sua história nos aterroriza.

 

O ano passado, It foi uma surpresa também interessante porque mexia com os nossos medos. Agora, Um Lugar Silencioso mexe com a nossa liberdade, com o nosso estilo de vida. São tão raros os momentos de absoluto silêncio que às vezes nem sabemos o que isso é – mas e se fossemos obrigados a estar sempre nesse estado?

 

Não, não me vejo num mundo assim. É por isso que gosto de histórias próximas da realidade, que me mostrem como por vezes nem pensamos quando temos de tomar a decisão de abdicar da nossa liberdade. À sua maneira, Um Lugar Silencioso é essa reflexão, com um toque de tensão aterrorizante.

 

Claro que não é o filme mais assustador que já vi, mas está tão inteligente na forma como foi gravado, como foi escrito, como foi interpretado que tem o seu lugar de destaque entre o género recente. E se Krasinski continuar a fazer filmes assim, vou ser das primeiras a estar na fila da frente.

 

Uma sequela já está confirmada para 2020. Ainda não se sabe em que moldes, ou se será uma sequela direta (coloca-se a hipótese de ser a história de outra família ou indivíduos), mas vai existir. Apesar da confirmação não ser acompanhada do nome de Krasinski na cadeira de realizador, continuo entusiasmada.

 

Há sítios em que fomos felizes que vale a pena voltar.

 

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