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Fui ao Cinema... E não comi pipocas!

As aventuras e desventuras de uma miúda que se alimenta de histórias cinematográficas.

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Becoming, o documentário para um mundo a precisar de esperança

12.05.20 | Maria Juana

Disclaimer: apesar deste ser um blog de Cinema, há muito que me apaixona e sobre o qual gosto de escrever. Sociedade, saúde mental, beleza feminina são alguns dos temas incluídos nessas paixões. Portanto, esta não é tanto uma review tradicional sobre um documentário, antes uma reflexão sobre uma mulher, os seus ideais, as suas forças e fraquezas; uma reflexão sobre uma inspiração e, sobretudo, sobre mim.

Porque quando li Becoming pela primeira vez - a autobiografia de Michelle Obama lançada em 2018 - houve uma certa perspetiva de que, entre o nosso privilégio e oportunidades, muito do que conseguimos alcançar estará sempre nas nossas mãos. Na altura, em que estava a passar por um fase de alguma incerteza pessoal sobre a minha carreira e percurso, Foi testemunho que me tocou de sobremaneira e me fez questionar (ainda mais) algumas suposições que fui fazendo ao longo dos anos. Quer queiramos, quer não, os nossos percursos são muito ditados pelo que nos rodeia e por vezes precisamos apenas de um abre olhos para nos apercebermos que há algo mais a fazer, algo mais importante.

Este livro foi importante para isso.

O documentário, que ficou disponível na Netflix na passada semana, leva-nos numa viagem pelo livro que, ao mesmo tempo, é a vida de Michelle. Passa-se sobretudo nas tour de lançamento de Becoming, que contou com palestras um pouco por todos os Estados Unidos, enquanto nos conta em retrospectiva as experiências de Michelle desde a sua infância em Chicago, até à vida que hoje leva como antiga Primeira Dama dos EUA.

Enquanto documentário baseado numa autobiografia, torna-se interessante a forma como adaptação é feita. Para quem leu o livro tem vários paralelismos e, claro, momentos “repetidos” porque fazem parte da vida da protagonista. Ainda assim, conseguimos ter uma perspetiva nova e novas reflexões, o que torna esta uma peça biográfica que traz surpresas par quem leu ou não o livro; não é dos testemunhos que perdem algum ponto, antes uma adição, uma nova forma de ver a sua história, mais visual, mais rápida, mais próxima, também.

Acima de tudo, é o retrato de uma mulher que sabe que nem todos têm as suas oportunidades, mas que também lutou por chegar onde chegou. Vinda de uma família sem grandes posses de Chicago, não nasceu no seio do privilégio, mas as circunstâncias da vida e a sua luta levaram-na a ele. Ela não é, nem tem de ser, humilde ao ponto de agradecer todas as bênçãos sem pensar “Hey, eu também sou responsável por isso!”, mantendo os pés na terra e a noção dessa felicidade.

Nem tão pouco é uma mulher perfeita. Apesar do endeusamento que vem da inspiração em que se tornou, Michelle (e o marido, se quisermos entrar por aí) não é perfeita e tem noção disso. No entanto, é inevitável comparar as suas virtudes com os defeitos de outros, sobretudo quando o papel de destaque que teve na Casa Branca foi substituído pelo total oposto - e não falo apenas na Primeira Dama, mas em tudo o que a Casa Branca se tornou, um símbolo de extremismo, intolerância e de limitação à liberdade de expressão e livre jornalismo, entre outras coisas. Mesmo que Michelle não seja perfeita, e que Becoming seja um veículo para percebermos isso mesmo, a forma como nos ensinou e continua a ensinar que a nossa voz importa e tem poder ganha toda uma nova dimensão.

Entre trabalho humanitário inerente à sua antiga posição e a intervenção em causas sociais vindas do seu trabalho anterior, Michelle conta-nos um percurso que já demonstrava desde cedo que viria a fazer a diferença no mundo. Se a Casa Branca lhe deu a oportunidade de ficar conhecida do público e de usar a sua influência sobre as causas que já julgava importantes, foi um bónus.

Becoming, tanto em livro como em documentário, tornam-se portanto um veículo de esperança - não apenas no mundo e na presença de pessoas que o podem mudar, mas naquilo que podemos ser. Numa viagem pela América, pela sua sociedade e as lutas que enfrenta, é um documentário sobre um país que ainda se debate com a desigualdade social e política, a pobreza e a necessidade de investimento no ensino para quem não pode pagá-lo e a ele tem direito. E traz-nos todo o tipo de questões individuais, também: o que queremos do mundo? O que queremos de nós? O que podemos fazer para mudar alguma coisa? E como podemos mudar um mundo que não nos quer ouvir?

É certo e sabido que este não é um mundo fácil de viver e há ainda um trilho gigante a percorrer, daqueles com socalcos, obstáculos, subidas e descidas. Becoming torna-se assim, não apenas numa biografia, mas no testemunho de uma era de esperança e mudança, da necessidade de também nós contribuirmos de alguma forma para esta mudança de forma ativa. A nossa voz, mesmo que muito pequena, entre muitas ganha peso e densidade.

Se a esperança é a possibilidade de mudança, depositamos nela a nossa fé. E não pode nunca morrer.

 

Realizado por Nadia Hallgren e composto por uma equipa formada maioritariamente por mulheres, Becoming: A Minha História está disponível para streaming no Netflix.

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