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Fui ao Cinema... E não comi pipocas!

As aventuras e desventuras de uma miúda que se alimenta de histórias cinematográficas.

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Aos Olhos da Justiça - Um abre-olhos obrigatório e um murro no estômago

13.07.19 | Maria Juana

Sabem aquelas séries ou filmes que ficam convosco? Que se prendem no vosso subconsciente e vos deixam sem saber bem o que pensar ou dizer? Aos Olhos da Justiça é um desses casos. A minisérie de 4 episódios escrita e realizada por Ava Duvernay para a Netflix tem causado sensação - já foi visto por mais de 23 milhões de contas. E há um motivo para isso. 

 

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O principal é a sua história: o enredo segue a história verídica de 5 adolescentes que em 1990 foram considerados culpados de violação e tentativa de homicidio de uma mulher no Central Park, em Nova Iorque. Com idades entre os 14 e os 16 anos, negros e hispânicos, os cinco foram coagidos pela polícia a confessar o crime que não comentaram e só em 2002 foram absolvidos depois do verdadeiro culpado ter confessado.

Era uma história importante o suficiente para chamar a atenção. Mas para descrever bem o tipo de efeito que está a ter, o comentário que oiço mais frequentemente entre amigos e conhecidos é “eu não sei como é que não parei no primeiro episódio, estava mesmo chateado. Mas vê!” 

À hora que publico este texto, ainda só assisti a 3 e estou a ganhar coragem para ver o último. O meu namorado disse-me logo que não conseguia ir além do primeiro sem querer partir a televisão. Não faço binge, porque custa levar um murro no estômago a cada 2 minutos. 

 

A história por detrás da série

Em abril de 1989, um grupo de 30 jovens, na sua maioria afro-americanos, entrou no Central Park, em Nova Iorque, nem todos com as melhores intenções. Alguns dos jovens agrediram e incomodaram quem quer que cruzasse o seu caminho. Os restantes apenas seguiam. 

Nessa mesma noite, o corpo de uma mulher foi encontrado não muito longe de onde o grupo passou. Foi vítima de violação e hospitalizada com vários ferimentos graves. 

Entre os tumultos e os jovens que foram levados pela polícia nessa noite pelos distúrbios que causaram, as autoridades acreditaram que se encontrava o violador. Calhou a rifa da suspeita a cinco desses detidos: Korey Wise, Yusef Salaam, Kevin Richardson, Raymond Santana e Anton McCray. Foram interrogados durante várias horas, sem a presença dos pais ou de um representante maior de idade. No final, considerados culpados, foram levados a assinar uma confissão, mesmo não existindo ADN, impressões digitais, sangue ou sémen que os incriminasse.  

Tudo isto é mostrado na série de Ava DuVernay de uma forma crua e muito direta: todos eles foram levados a confessar pela polícia através de violência psicológica e física. Assustados, foram vítimas de um sistema que precisava acusar alguém de um crime hediondo. E quem iria questionar que cinco negros no meio de um grupo de vândalos eram culpados? 

Numa América ainda racista e altamente viciada, ninguém.

Enquanto assistimos a Aos Olhos da Justiça, vemos discursos a serem editados e provas a serem interpretadas de forma a criar uma narrativa que dava jeito. Vemos como um crime hediondo se torna ainda pior ao tornar a raça e a má companhia num motivo mais do que plausível para cometer um crime. 

DuVernay quer-nos de olhos bem abertos e não tem meias medidas. 

Os Cinco de Central Park no presente, em cima. Em baixo, os atores que os interpretam no momento da acusação. Jharrel Jerome (em baixo, no centro) é o único a repetir o papel, na pele de Korey Wise, nos dois momentos da história. 

 

A realidade e a ficção no presente

12 anos depois do julgamento que sentenciou os cinco a penas de prisão, Matias Reyes confessou ter sido ele o perpetrador do crime. Depois de ser feita uma nova investigação, os cinco foram libertados e receberam uma indemnização do Estado de Nova Iorque. 

Foram, e continuam a ser aos dias de hoje, uma prova viva de como temos de abrir os olhos a qualquer manipulação de que sejamos alvo - seja de provas, por parte de media menos bem intencionados, das próprias instituições. 

Não era o objetivo de DuVernay nem daqueles que participam perpetuar uma ideia de teorias de conspiração, em que não podemos confiar em nada do que nos dizem. Torna-se claro que o seu objetivo era mostrar como tantas vezes tomamos decisões e nos precipitamos a tirar conclusões só porque alguém tem uma certa cor de pele ou se comporta de certa forma. 

A série, escrita e realizada por DuVernay, tem muito poder na sua história. Não era preciso ter um grande poder criativo para a tornar interessante ou alvo de atenção. O que faz diferença é o cuidado que DuVernay teve. Por muitas liberdades criativas que possa ter tido, a mensagem é clara: estes 5 jovens foram acusados pela sua cor da pele. 

É de louvar o trabalho que a realizado aqui tem, bem como toda a sua equipa. Desde a fotografia a toda a escolha de planos, à própria forma como a ação está organizada, é notório que queriam revolta do lado do espectador; queriam que cada um de nós sentisse que aquilo que aconteceu não é normal, não é aceitável, não pode nunca voltar a acontecer. 

Já por mais do que uma vez que a realizadora dá props a plataformas como o Netflix, que permitem aos criadores arriscar no seu conteúdo, contá-lo como querem, no formato que querem. Aos Olhos da Justiça, como a própria referenciou ao New York Times, podia ser um filme e contar exatamente a mesma história. Mas não merece mais do que apenas uma hora e meia da nossa atenção? 

Ava DuVernay usou uma nova plataforma para contar esta história da forma que achava que merecia ser contada. Mais, da forma que sabia que o público ia consumir e apropriar. 

Digo-vos, há poucos filmes que mexem com as nossas emoções como estes episódios de uma hora. Já vi a minha quota parte de filmes verídicos, alguns que contam histórias tão revoltantes quanto estas - todo o testemunho da Segunda Guerra Mundial nos faz querer fechar os olhos. 

Ainda assim, Aos Olhos da Justiça tem uma força muito sua, um poder muito próprio. É recente. Ainda está a acontecer. Todos os dias existem relatos de mais uma vítima de racismo, de mais uma mulher desprezada, de mais uma lei que de alguma forma limita a nossa individualmente (mais do que a nossa liberdade). 

Abrimos os olhos a uma forma de arte que chega até nós e nos conta como nada disto deve ser aceitável. Nada disto deve ser visto ao de leve, numa sala de cinema, como se não tivesse mais consequências. Nós, as pessoas normais que gostam de ir ao cinema e de ver séries, queremos ver conteúdo que nos interessa. Aos Olhos da Justiça não só interessa, como tem a sua quota de incentivo à mudança. 

Vamos abrir os olhos.