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Fui ao Cinema... E não comi pipocas!

As aventuras e desventuras de uma miúda que se alimenta de histórias cinematográficas.

Fui ao Cinema... E não comi pipocas!

As aventuras e desventuras de uma miúda que se alimenta de histórias cinematográficas.

Os Globos de Ouro vistos por um olhar a preto e branco

13.01.16 | Maria Juana

Os Globos de Ouro já foram e vieram; os prémios foram entregues, os vestidos desfilaram na passadeira vermelha, os discursos foram proferidos. Mais do que uma noite de glamour, é momento para celebrar o Cinema e a Televisão, em todas as suas vertentes e campos.

 

(In)felizmente, sem resultados inesperados. Todos esperavam que as categorias principais de cinema fossem entregues a Leonardo DiCaprio (podemos ter esperança?) e Jennifer Lawrence, assim como a Matt Damon e Brie Larson. Talvez uma das maiores surpresas tenha sido a vitória de Kate Winslet (Melhor Atriz Secundária de Comédia) e Lady Gaga (Melhor Melhor Atriz numa mini série).

 

Os Globos de Ouro deram início a uma das épocas mais aguardadas do ano hollywoodesco: as entregas de prémios. Além do Cinema em geral, são premiadas pessoas e profissionais, a sua dedicação e genialidade. São as outras facetas do Cinema, que foram crua e lindamente captadas pela câmara deInez van Lamsweerde and Vinoodh Matadin.

 

Pelo segundo ano, a dupla (conhecida por Inez & Vinoodh) montou um pequeno estúdio no final da cerimónia, e mostrou-nos o seu olhar sobre os seus convidados. Mais do que isso, a dupla mostrou-nos que, por vezes, uma das coisas mais bonitas no Cinema é a sua fotografia, que quando elevada por quem pega na câmara, nos traz as persptivas mais verdadeiras sobre a realidade.

 

A preto e branco, de olhar para a câmara, este é um olhar diferente sobre a cerimónia. As pessoas estão no centro. São as únicas que importam.

Sylvester Stallone

Lady Gaga

Oscar Isaac

Brie Larson

Mark Whalberg e Will Ferrell

 Jennifer Lawrence

Kate Winslet

O elenco da série Mr. Robot

 Ken Jeong e Kevin Hart

 Taraji P. Henson

Alejandro Iñarritu e Leonardo DiCaprio

Gael Garcia Bernal

Amy Adams e Matt Damon

 Sam Smith e Jimmy Napes

Maura Tierney

Trailer da semana IV - Quando o Elvis encontrou Nixon

11.01.16 | Maria Juana

Não leram mal: vai mesmo existir um filme sobre um encontro entre o Rei do Rock'n'Roll, Elvis Presley, e o presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon. Chama-se Elvis & Nixon, e a verdade é que parece ter tudo para correr bem.

 

A premissa é simples: Elvis & Nixon quer contar a história por detrás de uma das mais conhecidas e requisitadas fotografias no Arquivo Nacional norte-americano. E tudo começou com uma carta entregue pelo próprio Elvis na Casa Branca, em 1970, a afirmar que gostava de conhecer o presidente. 

 

Quando vi que este trailer tinha sido divulgado nos últimos dias, o seu título e história pareceram-me, vá, minimamente interessantes - mas aquilo que me fez mesmo, mas mesmo pensar que vou ter de assistir a este filme, foi a hipótese de ver Michael Shannon a fazer de Elvis.

 

O senhor já foi Lex Luthor (e Kevin Spacey, no papel de Nixon, também, o que torna a coisa curiosa) e é mais conhecido pelos seus papéis de durão. Vê-lo neste quase cómico Elvis Presley vai ser delicioso!

 

Dentro da ridicularidade que parece estar por detrás de Elvis & Nixon, e do próprio ambiente de comédia dramática que prevemos existir a partir do trailer, confesso que fiquei mais curiosa do que seria esperado. Tem tudo para dar certo: uma história polémica, ótimos atores, personagens fortes e uma certa sillyness que por vezes é boa de encontrar no cinema.

 

Eu gosto de filmes assim, repletos de qualidade mas leves o suficiente para poder ver em qualquer altura, e quiçá elevar-me os espíritos enquanto o vejo. Dentro desse género, este é definitivamente um para ter em atenção.

Afinal, fui ao cinema e... comi pipocas!

09.01.16 | Maria Juana
Quando iniciei este espaço escrevi aqui com toda a clareza que há um grande motivo para não comer pipocas no cinema: distraem-me. Seja o som de quem as come, ou o simples ato de comer, a verdade é que parece que me concentro mais nas pipocas do que no filme - principalmente naquelas alturas tensas, em que o silêncio deve reinar na sala para o drama assentar, a banda sonora criar ambiente, as lágrimas ameaçarem cair... Até que alguém decide quebrar o feitiço e mastigar com a boca aberta, ou atirar a mão para dentro do balde de pipocas como se a sua vida dependesse disso.
 
Não depende. É feio. Aliás, distrai quem de facto está a ver o filme. É irritante. E não gosto quando o fazem ao meu lado.
 

Até que este fim de semana algo acontece. Estou a meio do filme quando, subitamente, só consigo pensar numa coisa: na fome que tenho! Vamos esquecer o Rocky e os seus problemas, o que quero mesmo é comida! Solução? Ao intervalo só me resta como opção... Comprar pipocas.

 

Vacilei. Dei por mim com o pacote na mão, comendo com avidez a única coisa que tinha para tapar o buraco no meu estômago. Com muito cuidado, uma a uma, senti os olhares postos em mim, por estar a fazer aquilo que critico tanto nos outros.

 

Portanto, optei pela estratégia mais acertada, de comer com cuidado e de forma controlada. Tenho um passo a passo muito bem testado, onde pelo menos faço os possíveis para não perturbar ninguém. Até é relativamente simples: 
 
Passo 1: escolher o momento certo. Vamos evitar os silêncios, os momentos mais dramáticos ou que tais para fazermos barulho. Suponho que seja senso comum. Em todos os filmes há alturas em que a música sobrepõe tudo, e os mais barulhentos podem aproveitar. 
 
Passo 2: não chafurdar no balde. Podemos pegar numa mão cheia de pipocas sem fazer um barulhão. Basta pegar aos poucos, e juntá-las na mão. 
 
Passo 3: BOCA FECHADA! Não é difícil comer de boca fechada, e é facilitado quando não se põe a comer todas as pipocas de uma vez. Mastigar é um processo individual, não precisamos estar a partilhar. 
 
Passo 4: amolecer as pipocas. Isto pode parecer estranho, mas amolecer um pouco na boca as pipocas para não fazer um barulhao enquanto mastigamos é uma das melhores formas de o evitar. É talvez para os mais esquisitos, como eu, o que não lhe tira algum mérito. Se optarem pelo passo 1 pode não ser tão necessário, mas nada a esquecer. 
 
Não parece complicado, pois não? Obriguei o meu namorado a segui-lo e pareceu funcionar. Aos poucos, quem sabe não podemos voltar a comer pipocas no cinema? 

Drive In #I - Hannah Montana

07.01.16 | Maria Juana

(Esta é a inauguração da rubrica Drive In. Todas as semanas podem contar com os tesouros deprimentes a que todos nós já assistimos, mas temos vergonha de admitir. A autoria é da grande DeLorean).

 

Não mintam: apesar de só contarmos aos amigos acerca daqueles filmes fantásticos que vemos, com os atores do momento, a verdade é que, de vez em quando, os que gostamos mesmo são aqueles pedaços de lixo cinematográfico, que têm menos de 5,0 no IMDB e que asseguramos a toda a gente que seria a última coisa na nossa lista.

 

Mas aqui no blog estão entre amigos e iguais, e ninguém vos gritará SHAME! a plenos pulmões. Pelo contrário: a ideia do Drive In é fazer-vos sentir que está tudo bem em adorar esses tesourinhos deprimentes.

 

E por que não começar com um personal favourite dos meus? Estrelado pela pop star mais irreverente no momento, numa altura em que a vida dela ainda era mais “the best of both worlds” do que lamber martelos, e tendo como cenário a sua terra natal do Tenessee (yeeaww!)...estou a falar, é claro, do enorme blockbuster de Hannah Montana - The Movie.

 

Nunca vi a série assiduamente, mas lembro-me que, em Portugal, passava no Disney Channel. De qualquer forma, só uma pessoa verdadeiramente info-excluída é que não saberia que, antes de fumar maconha e mostrar as maminhas em palco, a Miley (que nasceu a chamar-se Destiny Hope, o que torna tudo ainda melhor) foi um super sucesso mundial com a série que retratava a sua vida e os problemas de manter a identidade de cantora pop em segredo. Eventualmente, a nossa Miley cresceu e a série terminou, mas não sem antes esta pérola agraciar salas de cinema por todo o planeta.

 

A premissa é simples: o sucesso de Hannah Montana começa a afetar a vida real de Miley, a sua família e amigos. Portanto, o estimado Robby Ray (Billy Ray, na verdade), pai de Miley, leva-a de volta para Crowley Corners, Tenessee, para que volte a ter os pés bem assentes na terra e entenda o que é verdadeiramente importante.

 

Vamos por partes: está bem filmado? Safa-se. Cenários, guarda roupa? Tudo okay, e coerente com a série, o que é importante, dado que a dita só acabou dois anos depois. Em termos de representação, como é? É fantasioso e irrealista, como tem de ser. E é por isso que é tão fantástico.

 

Entre pseudo-comédia, um moço de cabelos dourados como interesse amoroso (quem é ele, já agora!? Aparentemente, é Havok, da série X-Men) e alguma música, este filme é o que eu defino como feel good. É digno de Oscar? É claro que não, a Academia tinha ser infinitamente pior do que já é para nomear e premiar isto, mas entretém; faz-nos não pensar em nada a não ser nos problemas da Miley e, no final da hora, deitar uma lágrima e ficar contente por ver que acabou tudo bem para ela, como só podia ser. E admitamos: a The Climb, single da verdadeira Miley, saiu deste filme e é uma boa canção - até chegou ao número 1 da Billboard. E sabem em que categoria?

 

Adult Contemporary. Pois é.

 

Sincerely yours,

DeLorean

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Sobre Creed: O Legado de Rocky (2015)

06.01.16 | Maria Juana

Sinopse: Don Johnson (Michael B. Jordan), ou Adonis Creed, é um problemático orfão fruto de uma relação extraconjugal de Apollo Creed. Depois da morte da mãe, é acolhido pela mulher do pai, que o cria como seu. Anos mais tarde, abandona o emprego promissor para iniciar uma carreira no boxe, tal como o pai. E é em Rocky Balboa (Sylvester Stallone) que encontra um mentor.

É o regresso do Italian Stallion! Stallone precisa sempre de voltar ao trabalho, seja como Rocky, Rambo ou o mais recente Barney Ross em Os Mercenários. Depois de ter regressado a Philadelphia em Rocky IV, onde ficámos a conhecer a sua vida depois do estrelato, parecia que havia ainda algo a contar; algo que o filme Rocky Balboa deixava a desejar. Eis que chega Creed.

Neste filme, Rocky é deixado de lado, mas sem nunca desaparecer de vista. Se formos a ver, se O Despertar da Força é um renascer da saga Star Wars - criando um paralelismo com o Episódio IV - Creed funciona da mesma forma: os fãs reconhecem tudo o que os faz gostar dos originais; os novatos, ficam a conhecer a força e energia de Rocky.

Não deixa de ser um argumento rebuscado, quase como uma desculpa para criar um novo filme. Mas quem se ia lembrar de que Apollo Creed tinha tido um filho fora do casamento que, por acaso, também queria ser boxer e ser treinado por Balboa?


Se bem que tem o seu mérito: à parte da história meio forçada, não podemos negar que está bem construída e filmada, com pequenos pormenores que, podendo passar despercebidos, fazem a diferença - muito graças à direção de Ryan Coogler.  Os próprios atores têm um desempenho melhor do que o esperado: Jordan é um boxer motivado e atormentado pela sombra do pai, e Stallone é uma lenda com uma vida pacata que, afinal, ainda tem muito para dar. Aliás, o eterno Rocky já foi nomeado para um Globo de Ouro de Melhor Ator Secundário graças a este papel.


Não tem pretensões de ser nada mais do que um filme sobre a luta pelos objetivos, como alcançar o sucesso e alguma porrada. E não tem de ter, os filmes de Rocky eram bons por isso mesmo: eram verdadeiros a eles próprios, e sempre nos fizeram passar um bom tempo enquanto alguém era esmurrado. De vez em quando, sabe bem ver um filme assim. Mas Creed: O Legado de Rocky consegue ir um pouco mais além por toda a produção e direção a que foi sujeito.


Stallone sabe o que o seu público quer, e entrega-o numa bandeja de prata (ou estamos a esquecer-nos que este é o sétimo filme sobre Rocky, e que Mercenários já vai para o quarto?). As suas fórmulas são certeiras, e é por isso que Creed vai conseguir ser bem sucedido tanto entre aqueles que conhecem a história de Balboa, como os que só agora estão a saber do que se trata. Curioso é saber que este é o primeiro filme da saga cujo argumento não teve mão de Stallone, mas que continua a manter a sua visão e dedicação (não fosse o ator ser também um dos produtores).

Se Creed é o legado de Rocky ou não, ainda é difícil saber. Creed tem sido um sucesso de bilheteira e a crítica também elogia, por isso é normal que existam ideias para a sequela. O que nos deixa curiosos é descobrir o rumo que a história vai tomar a partir daqui. Será que teremos uma repetição de Rocky, com a chegada de um lutador russo à trama (pode parecer parvo, mas é uma das hipóteses)? Ou Donnie vai seguir um caminho diferente?


Seja como for, se esta for a última vez que vemos o Italian Stallion e a sua subida escadaria acima, Mickey e Apollo estariam orgulhosos. E nós também estamos.

Baseado em factos verídicos, a nova tendência

04.01.16 | Maria Juana

“Inspirado em factos verídicos.” Nos trailers mais recentes, nos pósteres que têm feito sensação ultimamente, esta uma das frases mais usadas. Logo ali, depois do nome do filme, chega-nos a motivação de que precisávamos para ver.

 

A verdade é que a tendência não é nova. Desde os primórdios do Cinema que os estúdios em Hollywood descobriram que o público gosta de ver na tela a sua versão de histórias que todos conhecemos. E se não conhecemos, o facto de sabermos que já aconteceu a alguém parece que nos deixa com uma vontade acrescida de a conhecer.

 

É um bom marketing. No fundo, os filmes dão-nos aquilo que Correio da Manhã os dá todos os dias: uma perspetiva aquilo que acontece na vida dos outros. E não é o Correio da Manhã o jornal diário com maior tiragem?

 

O princípio é o mesmo, e tem feito sucesso nos últimos tempos. Entre o final de 2015 e o início de 2016, vários são os filmes que os seguem. A Rapariga Dinamarquesa e The Revenant: O Renascido são dois deles. A Queda de Wall Street e O Caso Spotlight, com estreia também para janeiro, outros. Lá para fevereiro vamos também ter Os 33, baseado nos eventos de 2010 em que 33 mineiros chilenos ficaram soterrados durante 70 dias.

 

O cinema português não escapa: Amor Impossível, o mais recente de António-Pedro Vasconcelos, também é baseado em factos verídicos.

 

Não me espanta que a tendência esteja a crescer. Se formos a ver, nos últimos anos os grandes nomeados e vencedores de prémios no mundo do Cinema tinham factos reais como base das suas histórias. As guerras, lutas pessoais que se tornaram movimentos sociais, vitórias de pessoas e grupos sempre foram um meio fácil de encontrar uma história que inspire, emocione e nos ponha a querer mais.

 

Não condeno quem o faz, até porque não resisto a uma boa história. Se há coisa que a Humanidade nos traz são pessoas com histórias de vida fenomenais e dignas de serem contadas. Se a inspiração está tão próxima, porque não aproveitar?

 

O Cinema é um meio privilegiado para nos contar esses poderosos testemunhos. Mais do que ler, ou ouvir falar, é como olhar para as aulas de História com os nossos próprios olhos. Quando os filmes são bem conseguidos, somos levados a viajar no tempo e no espaço, e quase que testemunhamos na primeira pessoa aquilo que foi sentido.

 

Isto quando são bem conseguidos… Só tenho medo quando, pelo contrário, parece que pegam numa história só pela conveniência de estar ali à mão.

 

Espero que a tendência seja seguida pelo melhor. Aguardo com expectativa alguns destes filmes, e acredito que possamos estar novamente perante bons testemunhos. Tenho fé em quem tem o poder. Por agora…

A bela história de A Rapariga Dinamarquesa (2015)

02.01.16 | Maria Juana

Sinopse: A história verídica de A Rapariga Dinamarquesa traz-nos a vida de Einar Wegener (Eddie Redmayne), um popular paisagista dinamarquês nos anos 1920, com um casamento feliz com a também pintora Gerda Wegener (Alicia Vikander). Quando Gerda sugere que Einar vista uma das suas meias para substituir uma modelo que não pôde posar, o pintor sente-se demasiado confortável na pele, e descobre algo em si que até ali tentou esconder.

 

A Rapariga Dinamarquesa não nos traz uma história fácil de compreender, nem socialmente aceitável. Einar Wegener existiu mesmo, bem como Lili Elbe, a mulher em que se transformou em 1930. Elbe terá sido uma das primeiras pessoas em todo o mundo a passar por uma cirurgia para se tornar a mulher biológica que já sentia ser no seu interior.

 

Nesse aspeto, o filme chega na altura certeira. Mais do que nunca são discutidos os direitos e facilidades das pessoas transgénero, e a sociedade mostra-se mais aberta para aceitar a diferença. Casos como os da atriz Laverne Cox ou de Caitlyn Jenner permitiram que Tom Hooper conseguisse financiamento para contar a história que há vários anos tentava levar ao cinema. E ainda bem.

 

Primeiro, porque é de facto um tema que, 100 anos depois do primeiro caso registado de uma operação de transição, ainda pouco se sabe e aceita sobre o assunto. Segundo, porque Tom Hooper tem um dom de contar histórias com o condão e atmosfera certas para nos conceder um belo filme, e para fazer o tema chegar ao público.

Mas não sem perder algo pelo caminho. A verdade é que a vida de Elbe é complexa, e não é fácil mostrar as suas frustrações, motivações e emoções no momento do seu nascimento (digamos, a altura da operação) num filme que não pode ser demasiado longo. A questão é que Hooper deixa-se perder entre as paisagens da Dinamarca e os vários acontecimentos que surgem nas vidas do casal Wegener, o que significa que não só achamos que o tempo passa muito devagar, como perdemos noção da continuidade desses acontecimentos.

 

Do momento em que Elbe fez a primeira operação para retirar os órgãos sexuais masculinos, às restantes três operações para terminar a transição e ao seu falecimento, levou mais de um ano. Antes disso, conseguiu viver enquanto mulher (ainda sem a operação) durante vários anos, juntamente com Gerda.

 

É aqui que o filme se perde entre os eventos reais e deixa-nos sem um rumo certo. Parte do que torna a história de Lili e Gerda tão interessante é que foi de facto Gerda uma das principais apoiantes de Lili, tendo ficado ao seu lado durante vários anos. O que o filme nos mostra, maioritariamente, não é a transição de Lili, mas a forma como finalmente se descobre e como ambas, enquanto casal, conseguem ultrapassar a situação - tudo isto de uma forma longa e repleta de alguma ficção (o filme baseia-se, não necessariamente nos diários mantidos por Elbe, mas sim num romance ficcionado lançado em 2000).

 

Alicia Vikander abraça com afinco o processo de adatação de Gerda à sua nova situação, e há quem diga que roubou o protagonismo de Redmayne (com alguma razão). Sou uma grande fã da atriz desde os tempos de Um Caso Real, e acho que está a conseguir cada vez mais papéis onde mostra as suas capacidades. Se a verdadeira Gerda de facto viveu momentos destes, pouco sabemos, mas tudo o que esperamos está na pele da atriz que lhe dá vida.

 

Eddie Redmayne não lhe fica nada atrás. Muito pelo contrário: consegue mostrar relativamente bem o conflito interior pelo qual Einar deverá ter passado. São pequenos pormenores: os trejeitos na face quando sente o tecido do vestido pela primeira vez, a expressão corporal quando se imagina no corpo de mulher… Perfeitamente dirigido por Hooper, é sem dúvida uma interpretação que merece elogios e que nos mostra as diferenças entre Einar e Elbe, e como a segunda parecia estar na pele correta, mas desconfortável por se saber diferente das restantes pessoas.

Ou seja, A Rapariga Dinamarquesa é um belo testemunho social, e um abre olhos cada vez mais necessário nos dias de hoje. Aquilo porque que passam as pessoas transgénero não é compreendido, e talvez o argumento escrito por Lucinda Coxon pudesse passar um pouco mais pelas motivações de Elbe.

 

No entanto, não deixa de ser um belo filme, com uma cinematografia e interpretações de cortar a respiração. Hooper carrega os seus filmes de dramatismo, e sabe que o faz bem. Tinha tudo para ser um filme a ser relembrado nos tempos. Mas uma coisa é certa: a história de Lili Elbe não foi esquecida.

 

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