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Fui ao Cinema... E não comi pipocas!

As aventuras e desventuras de uma miúda que se alimenta de histórias cinematográficas.

Fui ao Cinema... E não comi pipocas!

#RoadToThOscars: Manchester by the Sea (2016), ou bolas, como é que não vi isto antes!

Sinopse: Lee Chandler (Casey Affleck) é um homem solitário que vive como faz-tudo num conjunto de apartamentos em Boston. Uma chamada inesperada obriga-o a regressar à sua terra natal, quando lhe revelam a morte do irmão. Em Manchester by the Sea, Lee é obrigado a confrontar os seus fantasmas, e a lidar com o facto de ser o novo guardião do seu sobreinho de 16 anos.

 

 

No dia em que este texto for publicado, eu já assisti a Manchester by the Sea há uma semana. Numa semana, faltaram-se as palavras e expressões para conseguir mostrar em texto tudo, ou muito, daquilo que este filme me fez sentir. Uma parte de mim acredita que não é possível, porque é difícil explicar por palavras quando algo nos toca profundamente; a outra está desejosa de falar sobre isto, de contar tudo, e de elogiar cada pedaço desta obra.

 

Sim, a uma semana dos Oscares, com ainda uns quantos filmes para ver, Manchester by the Sea tornou-se um dos meus preferidos na corrida. Bolas, tornou-se um dos meus preferidos do ano! Se o tivesse escrito antes de escrever o artigo Os Melhores de 2016... descontruídos, tinha levado o prémio de Melhor Filme de Todos os Dias. Estão a perceber como me sinto.

 

Acho que há duas razões principais para que Manchester by the Sea me tenha tocado desta forma: uma foi a forma como Kenneth Lonergan (argumentista e realizador do filme) decide contar a história. A outra foi a interpretação de Casey Affleck, que me levou às lágrimas. Literalmente.

 

Nada começa com uma história do caraças. O filme tem mesmo uma história dramática e pesada, que requer  todas as emoções que o elenco tem para dar. Entre o passado e o presente, passam momentos à nossa frente que nos cortam a respiração.

 

 

A mestria de Lonergan está na forma como escolheu contá-la. O que vemos a passar no ecrã são os acontecimentos do presente, explicados e contextualizados com as memórias que Lee tem do passado. No momento certo, no diálogo certo, no contexto certo, vamos conhecendo mais o que o levou a ser aquele homem amargo, infeliz e violento que vemos. Lonergan não deixa nenhuma memória ao acaso: ele planta-nos a dúvida, e continua a contar a história até chegar ao momento em que tudo faz sentido, e que nos deixa de cabelos em pé.

 

Há um equilibrio do caraças entre as duas partes do filme; quando chega o momento da revelação, é impossível ver o filme da mesma forma. E só é possível por Lonergan escreveu um argumento tão claro e equilibrado, que o permite.

 

O facto de Casey Affleck ser um ator do caraças também ajudou – e muito, se me permitem. Eu não sei se ele é mesmo o irmão talentoso da casa Affleck; o que sei é que merece todos os elogios que se lhe façam.

 

 

É que Lee não deve ser uma personagem fácil de interpretar. Ele é taciturno, apático, e muito solitário. No seu olhar, vemos um vazio que Affleck consegue transmitir na perfeição. Mas o melhor é que, quando olhamos para o seu passado, vemos exatamente o oposto: um homem alegre, realizado, feliz. A transição que o ator consegue fazer é tal, que nos faz acreditar piamente que aquela é a sua vida. O mesmo com Michelle Williams, se bem que de uma forma diferente, e não tão vincada.

 

Neste momento, vejo que já escrevi mais de uma página de processador de texto, e mesmo assim acho que não transmiti o que é que faz de Manchester by the Sea o melhor filme de 2016. Peguei superficialmente nas duas características que chamam a atenção, mas mesmo assim é pouco.

 

É que apesar dos momentos ais humorísticos ou leves permitidos pela personagem de Lucas Hedges (Patrick, o sobrinho de Lee), com as suas descobertas adolescentes, Manchester by the Sea é um filme cru e verdadeiro. Sentimos emoções verdadeiras, o vazio e o amor, a ausência e a presença constante. É como se cada pessoa que está presente, cada momento na história, pudesse ser passado na vida real.

 

Acredito que as palavras têm uma força inigualável. Elas permitem-nos transmitir para um papel, para o mundo, para um ecrã, para todo o lado, tudo o que nos vai na alma – menos a ausência. Isso, o vazio de emoções, só um olhar consegue demostrar.

 

E que olhar...

 

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