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Fui ao Cinema... E não comi pipocas!

As aventuras e desventuras de uma miúda que se alimenta de histórias cinematográficas.

Fui ao Cinema... E não comi pipocas!

Os críticos de Cinema disseram adeus à Disney. Ainda bem

A Disney tem sido uma menina muito marota. Daquelas que repudiamos, e comparamos até com monstros e vilões como Donald Trump.

 

Segundo o IndieWire, a Walt Disney Company impediu que os jornalistas do Los Angeles Times assistissem aos visionamentos de imprensa de Thor:Ragnarok. Estes visionamentos são comuns, e servem para que os jornalistas possam ver o filme e publicar as suas críticas antes ou no dia em que o filme estreia, gerando mais visitas na estreia ou nos dias seguintes.  

 

Além de não estarem presentes neste visionamento, os jornalistas foram também banidos de outros lançamentos da empresa.

 

Mas porquê?

 

Porque o Los Angeles Times publicou em setembro uma reportagem sobre a forma como a Disney ganha dinheiro num dos seus parques temáticos. A reportagem, que tem o título de Is Disney Paying its Share in Anaheim conta a relação comercial e financeira entre a empresa e a cidade de Anaheim, na Califórnia, onde se situa a sede dos seus parques temáticos e o original Disneyland.

 

Ou seja, o que a Disney fez foi um pouco como o Trump há uns tempos: disseram mal de mim? Então já não somos amigos e não podem entrar.

 

E irem dar banho ao Mickey, não está nos vossos planos?

 

Este tipo de atitudes mexe comigo e enoja-me. Se há coisa que prezo nesta vida é a liberdade. Os meus pais e avós viveram sem ela durante muito tempo. Viram-na ser recuperada, e acho que sempre me incutiram que devemos aproveitá-la bem (a típica história tuga que vai sempre dar ao 25 de abril).

 

Além disso, ainda guardo em mim uma veia jornalística. Ser jornalista era a minha profissão de sonho, e ainda lhe tomei o gosto durante uns tempos. Apesar de ter seguido um caminho profissional diferente, ainda guardo com muito carinho e respeito (sobretudo respeito) o bom trabalho jornalístico, que admiro e solicito.

 

Impedir bons jornalistas de fazerem o seu trabalho é, não só ir contra a sua liberdade de expressão, como ir contra os direitos (e deveres) de uma imprensa que se quer livre.

 

Eu sei que isto de falar sobre filmes não é o mesmo que poder fazer perguntas ao Trump. O Trump precisa ser questionado, forçado a ver a realidade e a responder às preocupações do seu povo – tudo verdade. Uma crítica de cinema é, e sempre será, apenas mais uma crítica de cinema.

 

Só que abrir este tipo de precedente é grave e perigoso. Quando não deixamos que jornalistas assistam a um filme só porque podem dizer mal dele é pôr em causa todo um sistema baseado numa das mais importantes liberdades: eu tenho direito à minha opinião, e a manifestá-la se corretamente argumentada.

 

Nem todos s críticos são consensuais. Basta vermos a caixa de comentários de um link partilhado de uma crítica do Público – o que é consensual é que provavelmente não vamos concordar com a sua opinião. Mas se são as produtoras que nos impedem sequer de ver, de incluir o nosso trabalho e saber, é porque são também elas que moldam o tipo de opiniões que sai cá para fora. E se todas forem controladas, é a produtora que ganha o dinheiro.

 

As repercussões deste tipo de atitudes num mundo já desconfiado e sem fé deviam ser suficientes para que empresas como a Disney abrissem os olhos. Mas em vez disso, parece que se veem mais no direito de fazerem o que querem.

 

Mas não podem. Não podem influenciar o que vão escrever sobre vós na internet. Não podem escolher os vossos amigos para dizer bem. Não podem chegar e dizer “hoje eu decido que a liberdade de expressão não é assim tão importante.” Porque com esta atitude é isso mesmo que estão a dizer: não queremos, a nossa vontade é lei.

 

Não é. Prova disso é que vários críticos e publicações norte-americanas disseram deixar de cobrir eventos Disney até que o boicote ao LA Times continue. Mais: quatro grupos de críticos norte-americanos até afirmaram que deixariam de considerar filmes da Disney nas suas entregas de prémios. A Forbes afirma até que a realizadora Ava DuVernay é uma das que apoia a decisão – o que a coloca numa posição delicada, já que dirigiu A Wrinkle in Time, o filme que deve estrear no próximo ano. 

 

Entretanto, a Disney voltou atrás e já deixa os jornalistas do LA Times assistir aos seus filmes. Puseram a mão na consciência? Finalmente perceberam que o que fizeram está errado.

 

Num mundo perfeito, até diria que sim. Neste mundo, em que podemos mandar calar quem não gosta de nós, eu diria que não teve nada a ver com isso. Teve a ver com as inúmeras críticas, e com a vontade que muitos demonstraram em não falar de próximos filmes importantes, como Star Wars ou Coco.

 

Afinal, a opinião da imprensa é ou não é importante?

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