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Fui ao Cinema... E não comi pipocas!

As aventuras e desventuras de uma miúda que se alimenta de histórias cinematográficas.

Fui ao Cinema... E não comi pipocas!

O Herói de Hacksaw Ridge (2016): um hino à não-violência

Sinopse: Desmond Doss (Andrew Garfield) é um jovem americano que todos os dias vê no pai as consequências da guerra. Mesmo assim, e apesar de ter jurado nunca matar ninguém nem pegar numa arma, voluntaria-se para ser socorrista na II Guerra Mundial. Apesar de toda a sua divisão ter duvidado das suas capacidades, é considerado um herói depois da Batalha de Okinawa.

 

 

Digam  o que disserem sobre Mel Gibson, uma coisa é certa: o senhor sabe fazer filmes! Já o tinha mostrado nos anos 90 (sendo Braveheart a sua grande obra), e voltou a fazê-lo em 2004 com A Paixão de Cristo - um filme que considero genial, mas que nunca mais vou rever na vida.

 

O Herói de Hacksaw Ridge é o regresso do Gibson realizador, com a crueza a que já nos habituou, o que faz deste um dos grandes filmes do final de 2016. E sobretudo num mundo em que a violência parece não ter fim, dar a conhecer um herói que foi para a guerra salvar vidas, é uma mensagem de grande valor.

 

A história de Doss, ainda por cima, é verídica. Foi o primeiro soldado norte-americano a receber a Medalha de Honra (a maior honra militar nos Estados Unidos) exatamente por não ter empunhado uma arma durante o serviço. Mais: durante e depois da batalha, salvou 75 soldados enquanto socorrista, mostrando-se mais corajoso do que aqueles que o questionaram, e se viam protegidos por detrás das armas.

 

Gibson tenta pôr uma “divisão” na história - existe um antes e um durante a batalha. À primeira vista, pode parecer deixar o filme desequilibrado, com cenários muito pacatos na primeira parte, e o caos, barulho e destruição na segunda. Porém, vejo essa diferença como propositada; ele quer mesmo mostrar-nos o contraste entre a vida que temos em casa, e os momentos intermináveis de medo, caos e morte que os soldados veem todos os dias; aquilo de abdicaram, e a sua nova vida. Sobretudo no caso de Doss, é um contraste necessário, já que ele se voluntariou para estar ali.

 

A noiva de Desmond, Dorothy

 

Mais do que o contraste, Gibson não tem medo de mostrar os horrores que Doss, ou qualquer soldado em tempo de guerra, viu. Há tripas no chão, corpos desmembrados, tiros que libertam litros e litros de sangue, carros que transportam mais corpos sem vida do que aqueles que conseguimos contar - sem máscaras, fumos ou efeitos especiais para disfarçar o que é desagradável. É, como já disse, cru, e uma das coisas que faz dos filmes de Gibson tão genuínos.

 

Nem todos têm coragem para mostrar um campo de batalha assim. Nem todos têm coragem para vivê-lo, e Doss foi um dos que a teve, com uma bela interpretação de Andrew Garfield. Apesar da sua cara de miúdo, Garfield só precisa de um olhar para mostrar toda a determinação, medo, paixão e agradecimento de Desmond. Ele conseguiu dar uma dimensão muito real a Doss, como se estivesse mesmo a viver tudo aquilo.

 

Aliás, todos os atores deram uma dimensão forte às suas personagens. Há um Vince Vaughn surpreendente enquanto Sargento, e um Hugo Weaving extraordinário. Weaving interpreta Thomas Doss, pai de Desmond, de uma forma intensa e quase animalesca.

 

 

Mas não há como negar o toque de Mel Gibson ao juntar estas interpretações, com uma história poderosíssima. Conseguiu criar um importante testemunho, a que todos deviam assistir. Até porque, mais do que ser importante mostrar a crueldade da guerra, e o heroísmo de Doss, nota-se uma preocupação da equipa em dar-nos a conhecer uma história o mais próxima da realidade possível.

 

Há um murro no estômago quando começamos a ver imagens reais de Desmond, e a ouvir a sua voz - como se até ali, não passasse mesmo de um filme. Afinal é mesmo verdade; ele ajudou mesmo todos aqueles soldados, viu tudo aquilo à sua volta, e sobreviveu para contar a história.

 

Ficamos frente a frente com a vida real, em que tirar uma vida se torna banal. Em que o ódio nasce sem percebermos como, e as armas mostram-se indispensáveis. Afinal, fazemos das ruas um campo de batalha.

 

“With the world so set on tearing itself apart, it don't seem such a bad thing to me to want to put a little bit of it back together.”

 

Ninguém diria que estas palavras têm 66 anos.