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Fui ao Cinema... E não comi pipocas!

As aventuras e desventuras de uma miúda que se alimenta de histórias cinematográficas.

Fui ao Cinema... E não comi pipocas!

O Fim da inocência (2017): serão estes adolescentes portugueses?

Sinopse: Inês (Oksana Tkach) é uma jovem de 15 anos que vive uma vida aparentemente perfeita. Vem de uma família abastada, estuda num colégio particular de estatuto, e os seus amigos são todos do seu estrato social. Mas são também quem a acompanha numa vida dupla. Sem os pais se aperceberem, Inês e os seus amigos são ávidos consumidores de drogas na noite lisboeta, e descobrem o sexo de risco ainda antes de chegarem à maturidade. Até ao dia em que acordam...

 

 

A história de Inês parece saída de um filme americano. Ela tem 15 anos mas consome drogas como gente grande, participa em orgias e faz sexo sem pensar na segurança. Ela sai à noite, bebe, fuma e chega a casa sem que os pais desconfiem de nada. E durante o dia, vive a vida perfeita da menina rica.

 

Só que Inês, apesar do nome fictício, é real. E não só como a metáfora de representar a juventude (portuguesa ou não): ela é real, a sua vida foi assim, e Francisco Salgueiro (autor do livro com o mesmo nome do filme) decidiu contar a sua história.

 

O Fim da Inocência é baseado na história que Francisco decidiu contar. Uma história verídica, repleta de momentos chocantes e polémicos, e que nos fazem questionar se é possível um jovem ter uma vida dupla destas.

 

Pelos vistos, é. Apesar de vivermos num mundo repleto de informação sobre comportamentos de risco e as suas consequências, jovens são jovens. A ideia de que os priveligiados são os santos do país só vai ajudar-nos a perpetuar uma ideia errada de que devem ser mais protegidos, mais escudados, mais escondidos. Eles conhecem a realidade tal quanto todos os outros, e acabam por crescer para fora da bolha da perfeição em que são incluídos por todos os outros.

 

O que Joaquim Leitão fez foi pegar nesta história e mostrar-nos essa realidade. Sem filtros, sem qualquer pudor ou preocupação com as opiniões dos velhos do restelo que possam dizer que devia ter vergonha de mostrar jovens nestas andanças.

 

 

Não há mesmo pudor em O Fim da Inocência, e ainda bem. Vemos as linhas de coca a serem snifadas, vemos os charros a serem acesos, vemos os corpos nus dos miúdos de 15 anos a ondularem e os seus gemidos de prazer. Vemos amigas a beijarem, vemos amigos a envolverem-se, vemos relações de uma noite que acontecem em carros, em casas de banho, onde calhar.

 

Dito desta forma parece que vos estou a contar o filme todo. Não se preocupem: o melhor de O Fim da Inocência é a forma como percebemos como é que Inês chega a este mundo, o que a motiva e o que finalmente a acorda para outra realidade. É a sua viagem, e a forma como Joaquim Leitão a conta, que nos fazem perceber também a mente da jovem, e da adolescência portuguesa.

 

Claro que não podemos fazer de Inês, ou dos seus amigos, um exemplo. Eles são um espelho de uma parte da realidade, mas não significa que todos os jovens de 15 anos se comportem assim.

 

Essa, na minha opinião, foi a grande mensagem de Joaquim Leitão e Francisco Salgueiro.

 

Tiveram uma ajuda imensa de jovens atores com maturidade suficiente para aceitarem o desafio de encararem de frente as câmaras, e temas chocantes. Tal como a produção, disseram adeus aos pudores e mostram o que há para mostrar – desde a cumplicidade e amizade entre os jovens, aos seus momentos mais íntimos.

 

Ver esta realidade no grande ecrã não me choca. Não fecho os olhos e acredito que é ficção, ou que não acontece. Até parece que nós não tivemos 15 anos, que não vimos ou ouvimos algo tão semelhante a isto.

 

O que pode ter acontecido é que, ao contrário desta história, nós não entrámos numa espiral de decadência que nos fez chegar a este ponto. Não por uma questão de juízo, não apenas por uma questão de valores, educação ou personalidade, mas também porque não calhou.

 

O Fim da Inocência pode parecer uma produção estranha aqueles de nós habituados à forma anglo-saxónica de fazer filmes. Por norma, na minha opinião, os filmes portugueses têm tendência a ser mais crus e menos poéticos, mais realistas na forma como as cenas são filmadas. Abordamos o cinema de forma diferente, mas não inferior.

 

É talvez por isso que assistir a O Fim da Inocência possa parecer de início uma experiência diferente, e um quanto fora. Mas o melhor desta vida é que devemos ter a mentalidade aberta para as coisas certas, e o cinema português é uma dessas coisas.

 

Vão ao cinema. Conheçam a história, reflitam sobre ela, e acima de tudo percebam que o cinema é tão bom falado em português quanto noutra língua qualquer.

 

***,5 

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