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Fui ao Cinema... E não comi pipocas!

As aventuras e desventuras de uma miúda que se alimenta de histórias cinematográficas.

Fui ao Cinema... E não comi pipocas!

O Caso Spotlight (2015): porque vale a pena

Sinopse: Em 2001, Marty Baron (Liev Schreiber) iniciou o seu primeiro dia como editor do Boston Globe com uma proposta: investigar um caso de abusos sexuais de menores por parte de um conhecido padre da cidade. Foi a equipa de investigação Spotlight, parte integrante do jornal, que ficou com o caso, descobrindo e revelando centenas de casos que a Igreja Católica sempre tentou esconder.

 

Quando entrei para a faculdade, em 2010, tinha um claro objetivo em mente: tornar-me jornalista. No meu imaginário tinha várias personagens e histórias que me faziam crer na nobreza da profissão, e da sua importância na sociedade - e ainda creio.

 

É por isso inevitável que O Caso Spotlight mexa comigo de forma pessoal. Foram pessoas e trabalhos como os retratados que deram rumo à minha vida, e se hoje trilho um caminho diferente, não foi por falta de inspiração.

 

Antes de tudo, é importante ter em mente que esta é uma história verídica. Os números que nos apresentam e os acontecimentos descritos são reais, e isso é meio caminho andado para sairmos da sala de cinema incrédulos e revoltados: como é possível que tenham deixado tantos crimes acontecerem sem terem feito nada para o evitar?

Em todos os momentos conseguimos sentir uma atmosfera à la Os Homens do Presidente (1976), mas que nos quer deixar mais revoltados e surpresos em relação às descobertas que foram feitas. Em muito, a responsabilidade é sem dúvida de Tom McCarthy, que tirou partido de uma realização simples e direta para nos contar aquilo que interessa: em Boston, as crianças eram abusadas pelos padres das suas paróquias, e toda a gente sabia.

 

O realismo de O Caso Spotlight pauta-se ainda pelo trabalho de bastidores, tão importante quanto aquele que é feito em frente às câmaras: além dos atores terem conhecido aqueles que interpretaram, os próprios jornalistas tiveram uma intervenção ativa durante a gravação do filme.

 

São esses os pormenores que fazem a diferença. Não há grande espaço para a ficção.

 

É difícil fugir da importância de transmitir esta mensagem, não só pela forma como o argumento está escrito, mas também pela marca que cada ator deixa nas suas personagens.

Em entrevista ao Expresso, o verdadeiro Mike Rezendes (interpretado por Mark Ruffalo e descendente de portugueses, um pormenor que “confessa” a meio do filme) diz que escolheu ser jornalista para “fazer um trabalho que ajudasse a tornar o mundo um lugar melhor.” Ruffalo é de tal forma intenso na sua interpretação, que essa motivação está mais do que vincada ao longo de todo o filme, notando-se a vontade de contar a história de Rezendes da melhor forma.

 

Não é o único: embora nenhuma personagem se destaque por si só - o filme é, afinal de contas, sobre uma equipa -, todas mostram a sua importância e razão de ser. Os típicos momentos hollywoodescos sobre as suas vidas pessoais, se bem que existentes, são utilizados apenas para mostrar a sua envolvência na história; de lado, ficam os momentos emocionais cliché, que mostram como esta é uma profissão difícil e desgastante – porque não é isso que é importante.

 

O Caso Spotlight é, acima de tudo, o testemunho de um marco importante na história do jornalismo e da justiça, e tem tudo o que precisamos num bom filme: é um relato bem feito, apoiado num argumento bem construído, com interpretações de topo e uma realização que sabe conjugar tudo isto da melhor forma.

 

A sua mensagem é um extra. Saber como tanta gente encobriu estes casos, e de como tantas crianças sofreram, deixa qualquer um de coração partido. É por isso que o jornalismo é importante, e é por isso que, quando bem feito, é indispensável; são eles que nos dão a conhecer a verdade que todos tentam esconder.

 

De 0 a Isto é qualquer coisa de genial, leva: isto é mesmo muita bom! (e até agora, um dos meus preferidos na corrida deste ano).