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Fui ao Cinema... E não comi pipocas!

As aventuras e desventuras de uma miúda que se alimenta de histórias cinematográficas.

Fui ao Cinema... E não comi pipocas!

Livros que deram filme – Sensibilidade e Bom Senso

A par do Cinema, sempre encontrei na Literatura uma outra paixão, se bem que esta mais recreativa. Através dos livros e das suas histórias, encontro um escape, um refúgio num mundo que crio na minha cabeça, e cujas criações fazem parte da minha imaginação. Não me imagino sem um livro na mala, e leio todos os dias nem que seja uma página.

 

É por isso inevitável que encontre nos filmes inspirados em livros um dos meus interesses. É a melhor forma de ver materializado o mundo que crio na minha mente, e de alguma forma sentir que talvez, num universo paralelo, até possa estar mais perto da realidade. Só que nem sempre a passagem da página para o grande ecrã corre bem, seja devido a pobres adaptações, atores que não captam a essência das personagens, ou cenários que deixam pouco a desejar.

 

Aqui no Fui Ao Cinema... E Não Comi Pipocas, achamos que as boas adaptações, ou aquelas que moram nos nossos corações (seja por bons ou maus motivos) devem ser celebradas. Por isso, aproveitamos o aniversário da vitória de Sensibilidade e Bom Senso do BAFTA para Melhor Filme, para dar início a uma rubrica que vai juntar o melhor de dois mundos: quando os livros também são filmes.


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“I wish, as well as everybody else, to be perfectly happy; but, like everybody else, it must be in my own way.”

 

Corria o ano de 1811 quando Jane Austen se iniciou nas lides do sucesso literário, com o lançamento de Sensibilidade e Bom Senso, uma história sobre duas irmãs que, depois de perder o pai, são obrigadas a viver numa casa de um parente afastado até encontrar sustento.

 

E o sustento, não tanto como corre nos dias de hoje, vinha mais pela virtude do casamento do que propriamente pelo trabalho duro.

 

Elinor e Marianne, as duas irmãs, não podiam então ser mais diferentes: a primeira, sensível, consciente dos problemas da família, está disposta a sacrificar-se pelo seu bem estar; a segunda, impetuosa, deixa-se levar pelas suas emoções e sensibilidade e renega o bom-senso. São duas caras da mesma moeda, que com o decorrer da história descobrem que o segredo está em encontrar um equilíbrio entre o racional e a emoção.

 

 

Não é difícil não pensar no semblante sério de Emma Thomson, nem na exuberante personalidade de Kate Winslet, quando pensamos nas duas irmãs. Foram estas as atrizes que, em 1995, interpretaram as personagens principais na adaptação do romance dirigida por Ang Lee (uma adaptação que valeu a Thompson também o Óscar para Melhor Argumento Adaptado, já que foi também a responsável pelo guião).

 

O bom nesta adaptação é que, ao contrário de tantas outras, tenta manter a sua simplicidade. Não existem artifícios ou dramas de mais; existem apenas aqueles que a obra exige, que não são muitos, e que, aliás, é quase regra em muitas das adaptações britânicas: com aquela sua classe, sotaque característico e semblante carregado, pouco falta para sermos de imediato transportados para a época vitoriana.

 

Ler Jane Austen pode não ser uma tarefa fácil; como qualquer boa autora vitoriana, Austen abusa das descrições e de um inglês clássico que se enrola na língua. Não há cá as facilidades da linguagem que hoje conhecemos, são frases ricas e cheias de informação.

 

 

 

 

Talvez o melhor deste Sensibilidade e Bom Senso é que, sem perder a alma do século XIX, conta-nos de forma simples as aventuras e desventuras das duas irmãs. As descrições são substituídas por cenários que em muito se lhes aproximam, as caracterizações das personagens por atores que retratam na perfeição a figura que imaginamos na nossa cabeça (que dizer de Alan Rickman, ou até de Hugh Grant?), e os diálogos ganham uma dimensão que só o Cinema consegue dar.

 

Sensibilidade e Bom Senso tem o melhor que a escrita de Austen nos dá: saber que, em assuntos do coração - e quiçá, da vida em geral -, nem o racionalismo exacerbado, nem as emoções fortes devem reinar. Mas vai mais além, ao oferecer-nos um filme riquíssimo, e um testemunho forte da história e sociedade britânicas.

 

Há 10 anos, Sensibilidade e Bom Senso saiu da cerimónia dos BAFTA com os galardões de Melhor Filme, Melhor Atriz Principal (para Thompson) e Melhor Atriz Secundária (entregue a Kate Winslet). Para trás ficaram outros tantos, bem como alguns Óscares que podiam ter sido entregues.

 

Mas quem conta os prémios? Importantes para mostrar o reconhecimento da indústria, a verdade é que hoje estamos aqui nós, fãs de Austen e dos seus romances, para afirmar que se há boa adaptação neste planeta de livro para filme, é esta feita por Thompson e Ang Lee.

 

O resto é conversa.

 

“I've come here with no expectations, only to profess, now that I am at liberty to do so, that my heart is, and always will be, yours.” E o nosso é vosso.