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Fui ao Cinema... E não comi pipocas!

As aventuras e desventuras de uma miúda que se alimenta de histórias cinematográficas.

Fui ao Cinema... E não comi pipocas!

It (2017) - um susto de filme

Sinopse: em Derry, nos Estados Unidos, uma série de desaparecimentos de crianças deixa a cidade assustada - mas os únicos que parecem reparar são 7 adolescentes, vítimas e bullying e todos com os seus problemas. É quando se juntam que se apercebem que alguma coisa de errada existe na cidade, e essa coisa tem a forma de um palhaço que regressa a cada 27 anos… Serão os únicos a conseguir derrotá-lo?

 

 

Começo com uma confissão: escrever sobre este It não é fácil. A expectativa era imensa, depois de um trailer intenso e de uma maratona de leitura de mais de 1300 páginas. Ler o It de Stephen King foi mesmo uma maratona daquelas complicadas, mas o livro tornou-se um dos meus favoritos do ano. O filme seria um complemento visual dessa obra. 

 

Esperava eu.

 

O filme, realizado por Andy Muschietti, é levemente inspirado pelos eventos do livro. E vamos dizer “levemente inspirado” para que nos consigamos abstrair de que, de facto, que poucos são os eventos de um que vemos no outro. 

 

É que fora isso, It é um filme de terror daqueles que vale a pena ver, e que quer tocar num ponto interessante.

 

Porque não é um filme de terror convencional. Fugindo das cores escuras e dos momentos de suspense demasiado dramáticos, It leva-nos numa viagem a Derry com tudo aquilo que isso implica: um cidade em pleno verão, luminosa e quente, com miúdos que andam de bicicleta, riem e divertem-se com os seus amigos.

 

Podia ser mais um filme sobre crianças a crescer numa cidade. Mas não é, porque estas crianças veem um palhaço assustador a cada esquina. E quando digo que é em cada esquina, é quem cada esquina. Além disso, mais do que um palhaço ou um monstro assustador, veem personificações dos seus traumas de infância, daquilo que realmente os assusta no seu âmago.

 

Muschietti brinca com a câmara com uma leveza extraordinária para nos assustar. É aquilo que nos mostra, e como nos mostra, que nos mete medo. É o crescendo de música que nos avisa que, muito provavelmente, daqui a pouco tempo vamos dar um salto da cadeira. É o ângulo que nos faz sentir pequenos quando It decide dar um ar de sua graça. É o apagar e acender de luzes que nos mostra um monstro terrível no ecrã.

 

 

De facto, é da responsabilidade de Muschietti o facto de It ser um filme visualmente assustador. No fundo, o que nos assusta na história de King é a invulnerabilidade das crianças, a imprevisibilidade, e o conhecimento de que existe um mostro que sabe perfeitamente como nos assustar.

 

Porém, aqui conseguimos que essa imprevisibilidade nos atinja como um bom filme de terror consegue: com olhos em sítios escuros - parafraseando. 

 

It consegue ser um filme excelente porque não existe dúvida que tem um equilíbrio perfeito entre o humor, a relação de amizade e o medo que Pennywise nos transmite. 

 

Além disso, tem um Pennywise que deixaria Tim Curry (que interpretou o palhaço na mini-série de 1990) mais do que orgulhoso. Bill Skarsgård foi uma escolha incrível para o papel. O seu olhar e o sorriso atravessado tornam-o mais assustador do que qualquer maquilhagem, e toda a interpretação está próxima daquilo que imaginava. Rouba totalmente o show. 

 

O mesmo acontece com o Losers’ Club. Apesar de personalidades ligeiramente distintas do que tinha na minha cabeça, conseguiram desempenhar o seu papel e dar-nos momentos de humor mais do que interessantes. 

 

 

Saí da sala com uma certeza: adorei o filme. Todas as peças se juntavam e faziam sentido, e não há dúvida de que Muschietti sabe bem o que faz. É a sua direção e visão, em conjunto com a interpretação de Skarsgård, que para mim tornam It tão icónico.

 

Tenho pena que a adaptação do livro de King não tenha sido mais fiel. É verdade que adaptar um livro com mais de 1300 páginas não é tarefa fácil - sobretudo um filme como It, cheio de pormenores, contexto e muita informação. 

 

Mesmo assim, existem eventos e momentos que podiam ser muito mais fiéis ao livro do que aquilo que são na verdade. 

 

Porém, as diferentes fases de produção, e a visão de Muschietti, trouxeram uma perspetiva diferente à história, não necessariamente má. A verdade é que Pennywise vai além da figura do palhaço que ficou tão celebrizada - ele é a representação dos nossos medos. Se King utilizou figuras polémicas da época para assustar as crianças (lobisomens, pássaros gigantes, monstros), o novo argumento opta por ir mais longe, à alma e verdadeiros receios de cada um. Nesse aspeto, é uma história mais negra, mais assustadora, porque mostra perfeitamente que Pennywise conhece demasiado bem os miúdos que quer assustar. 

 

São duas obras diferentes, com a mesma base. O espírito continua bem presente, e fico muito curiosa por saber o que vão fazer no capítulo 2 - sim, vai haver uma “sequela”.

 

Isto tudo para dizer: vão ver. Vão ver, assustem-se e tenham pesadelos com palhaços durante semanas. Vai valer a pena.

 

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