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Fui ao Cinema... E não comi pipocas!

As aventuras e desventuras de uma miúda que se alimenta de histórias cinematográficas.

Fui ao Cinema... E não comi pipocas!

Good Time (2017), e porque é que o Cinema não é para todos

Sinopse: Connie (Robert Pattinson) arrasta o irmão, vítima de uma doença mental (Benny Safdie), para um assalto que corre mal. Numa noite, tem de corrigir o seu erro e tirar o irmão da prisão, numa série de acontecimentos improváveis e alucinantes.

 

 

Há muito que queria escrever sobre o Cinema enquanto arte. E como toda a arte, algumas das suas formas podem não ser bem interpretadas por todos.

 

É como a literatura com As Cinquenta Sombras de Grey: enquanto livro, na minha humilde opinião, está mal escrito e a história mal conduzida. Porém, agradou e continua a agradar a uma série de pessoas – como uma comédia fatela no cinema. E não há nada de mal com isso (bem... discutível).

 

Da mesma forma que existem livros e pinturas ou esculturas que nem todos conseguem gostar, também existem filmes dessa forma. E apesar de ser uma grande fã de filmes pipoca, já adorei filmes que simplesmente todos os outros detestaram. Há espaço para tudo.  

 

Quando fui assistir a Good Time, foi com essa perspetiva – de que, de vez em quando, temos de dar oportunidade a filmes que podemos não gostar à partida.

 

Não sabia nada sobre este filme à exceção de que era protagonizado por Robert Pattinson. Fui sem qualquer expectativa, e sem sequer uma sinopse na cabeça para me guiar.

 

Por um lado, foi bom. Assistir a Good Time é quase uma experiência sensorial, em que somos levados por eventos caóticos e improváveis à boleia de uma banda sonora que se entrenha nos ouvidos. Visualmente, sem cores e com tantos close-ups, somos arrastados numa montanha-russa cuja sensação piora com o trilho de música.

 

Logo aí, pode ser complicado digerir aquilo que Good Time para mim representou: a aleatoriedade e caos. Porque é difícil aguentar os pontos visuais e auditivos que vamos tendo.

 

O facto da história ser também tão pouco frontal ajuda a que seja uma experiência e tanto. Na maioria dos filmes, estamos habituados a ter uma introdução, desenvolvimento e conclusão que nos fazem chegar a algum lado. São filmes que facilmente percebemos onde o autor queria chegar, e aquilo que nos queria transmitir – vejam o caso de mother!, que com toda a sua confusão foi certeiro em mostrar-nos o bottom line da coisa.

 

Good Time deixa-nos com uma série de questões. Seria isto uma crítica à sociedade, à carga policial norte-americana, ao white privilege? Seria apenas uma história de como o mundo do crime pode engolir até as pessoas mais improváveis, e levá-las numa viagem sem retorno? Ou apenas a história de dois irmãos.

 

Apesar de existir um argumento muito certeiro no caminho que quer seguir, não cheguei a nenhuma conclusão. Connie vai desempenhando o papel do improviso, e bem. Ele deixa-se levar pelos acontecimentos, e leva-nos de uma forma que quase parecem que fazem sentido.

 

Mas a mim não fizeram. E acho mesmo que, talvez, o grande objetivo de Benny e Josh Safdie (os realizadores) e de Ronald Bronstein (que co-escreveu o argumento com Josh) era só espetar com um grande dedo do meio a toda a sociedade.

 

O filme foi muito elogiado pela crítica, e foi ovacionado em Cannes. Por um lado, consigo perceber: está de facto bem construído, e Pattinson faz-me acreditar perfeitamente que é um delinquente criminoso numa viagem sem retorno. E de certa forma, a ideia do caos em que vivemos e nos vemos envolvidos está mais do que bem passada.

 

Porém, fico sempre com aquela sensação de que me está a escapar qualquer coisa. Escapa-me aquela sensação de arrebatamento e aproximação que muitos dos filmes deste género não me conseguem passar.

 

Acho que parte do Cinema não é para todos (como não o é a literatura e a pintura) porque nem sempre nos toca. Nem sempre somos arrebatados; nem sempre saímos da sala a pedir mais; nem sempre choramos porque um filme acabou e gostámos tanto daquilo que vimos.

 

Como toda a arte, o Cinema é subjetivo. Podemos falar da parte técnica, do porquê de uma realizador conseguir transmitir mais do que outro, ou porque é que uma cinematografia é mais importante do que a outra. Mas no final, aquilo que nos vai ajudar a perceber o que é um bom filme, para nós, é aquilo que nos faz sentir – seja repulsa ou um desejo incrível de assistir a mais.

 

Não tiro mérito a Good Time, mas talvez não seja para mim. Até posso ter gostado qb, ou achado que vale a pena a experiência só pela experiência. Só que não é a minha genialidade. #sorrynotsorry