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Fui ao Cinema... E não comi pipocas!

As aventuras e desventuras de uma miúda que se alimenta de histórias cinematográficas.

Fui ao Cinema... E não comi pipocas!

Era uma vez um John Hughes

Desde que me lembro que há um filme que marca as minhas férias de Natal. Pode não ser o melhor filme de sempre, o mais bem feito ou o mais engraçado, mas há um quê de nostalgia à sua volta. Falo, claro, de Sozinho em Casa.

 

Apesar de ter assitido pela primeira vez uns anos depois de ter saído, há magia nesta criação de John Hughes, bem como há em todo o seu legado. Na semana em que passam oito anos desde que perdemos um dos génios da comédia, é com um calor no coração que o recordo.

 

Atenção que não sou daquelas que viu todos os seus filmes, ou que vibrou com todos os seus argumentos. Na verdade, foram poucos aqueles a que assisti, e tenho a certeza de que foram os que assistiram em direto aos seus lançamentos que mais se ligaram a cada filme.

 

Principalmente porque alguns dos mais conhecidos filmes de Hughes passam-se na escola, com personagens que qualquer um de nós podia ser. E para todos os gostos.

 

Foram inúmeros os argumentos que sairam das suas mãos, e todos eles com um cunho especial que soube dar. Mas são dois deles que recordo com mais carinho.

 

 

O primeiro não podia ser outro que a minha recordação de Natal. Lembro-me de ver Sozinho em Casa com a minha irmã, sempre naquela quadra, e de pensar que devia ser mesmo fixe poder ter tanta liberdade dentro de casa. Comer pizza quando quisesse, ver televisão a toda a hora, não ter ninguém a chatear-me ou a dizer para ir para a cama... A liberdade de Kevin era aquela liberdade que todas as crianças queriam ter em dada altura da sua pequena existência.

 

Eu não fui diferente, e continuo a ver Sozinho em Casa com aquela pontada de nostalgia de como era bom ser criança, quando a única preocupação que tínhamos era querer não ir para a cama cedo.

 

O melhor de John Hughes, e o melhor que nos pôde dar, é esta sensação de que regressamos sempre a um lugar bom quando vemos os seus filmes. É um lugar familiar, querido e onde conseguimos, de alguma forma, encontrar um pouco de nós.

 

Aconteceu-me também a primeira vez que assisti a The Breakfast Club.

 

Não parecia nada de especial: miúdos na escola, presos numa sala porque estavam de castigo. Sem nada em comum uns com os outros além disso, sem nunca terem sequer pensado em tornar-se amigos. E eis que conseguem criar uma ligação tal que vai além das suas diferenças, das peculiaridades, dos indivíduos que cresceram para ser.

 

 

Não há nada mais simples. Não há nada mais cru. E mesmo assim, não há nada mais mágico.

 

Porque John Hughes era mestre em criar filmes de personagens. A trama vale por aquelas pessoas criadas na sua cabeça, e em que a câmara centra as suas atenções. São as personagens que falam connosco, não os ângulos de filmagem marados ou as cenas de ação muito bem filmadas.

 

Foi com as personagens que criou ao longo dos anos, e da forma como falavam connosco, que John Hughes conseguiu ser um dos poucos a criar filmes tão simples, mas tão marcantes. Foi também com essas personagens que nos fez olhar para nós, e para o nosso passado, com ar de quem está a regressar a um lugar seguro.

 

Eu encontrei-me entre aqueles jovens desarmados na sala do castigo. Encontrei-me nas suas diferenças, nas aspirações de cada um, e na forma como conseguiram juntar-se para criar algo bom. Não mudou a minha vida, mas pôs-me um sorriso na cara, e continua a pôr sempre que me lembro disso.

 

O Rei doz Gazeteiros (ou Ferris Bueller's Day Off) é outros dos clássicos acarinhados de Hughes. 

 

Às vezes, tenho saudades de um tempo em que um filme podia ter personagens tão fortes, e ser tão simples ao mesmo tempo. Sem artíficios, só bons diálogos e punchlines que nos fazem pensar, não em questões filosóficas, mas em nós.

 

O que John Hughes nos trazia era um pouco disso: personagens a quem olhar de frente, e com um quê de admiração. Seja porque decidiram não ir à escola, ou porque tiveram coragem de enfrentar os mauzões. São pessoas, como nós. São algo mais do que atores a interpretar numa tela gigante.

 

Somos nós.