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Fui ao Cinema... E não comi pipocas!

As aventuras e desventuras de uma miúda que se alimenta de histórias cinematográficas.

Fui ao Cinema... E não comi pipocas!

Ben-Hur vs Ben-Hur: o que mudou em 57 anos

Com esta vontade de criar novas versões de filmes que antes eram clássicos, muitas vezes esquecemo-nos o que é que fazia dos primeiros filmes... bem, clássicos. Os epítetos ganham-se por um motivo, e no caso de Ben-Hur, de 1959, o motivo era certo: era épico!

 

Tudo isto sem tecnologia. Se era um exército com 100 pessoas, as 100 pessoas tinham de estar presentes – ou pelo menos, um número próximo para que os bonecos passassem despercebidos. Tudo parece maior, mais grandioso... É um pouco complicado medir, pelo menos para mim.

 

O que sei é que, 57 anos depois, alguém achou que podia fazer uma nova versão de um filme galardoado com 11 Óscares da Academia.

 

Por isso, se quiserem conhecer a história de Ben-Hur mas não sabem qual dos filmes escolher, comparamos alguns pontos entre ambos. Qual será a conclusão?

 

 

A história

Judah Ben-Hur é um príncipe judeu, nascido e criado em Jerusalém, numa altura em que a cidade era ocupada pelos romanos. Foi criado como irmão de Messala, um jovem romano que, já adulto, se vê ao comando de uma das legiões que controlam Jerusalém. Quando Ben-Hur é injustamente acusado de traição pelo irmão de criação e tornado escravo, jura vingança por si e pela sua família.

 

Esta é a história que dá o mote a ambos os filmes. Aqui, não há muito por onde fugir. Bem como a abordagem bíblica, já que é um filme que conta, em parte, como é que a história de Jesus Cristo influenciou os judeus naquele tempo.

 

Claro que com algumas diferenças. A verdade é que ambos os filmes contam-nos diferentes aspetos da relação entre Judah e Messala, mas nada que seja significativo quando optamos por um ou outro. São apenas diferentes.

 

O tempo

A forma como a história é abordada também é influenciada por uma coisa: a duração do filme. Se o primeiro tem cerca de quatro horas, o filme de 2016 nem chega a durar duas; já ninguém tem paciência para filmes de quatro horas nos dias que correm.

 

Isso vai forçosamente influenciar a forma como a história é abordada. Existe mais detalhe e atenção no clássico de 59, e mais tempo para assimilar tudo o que acontece. Muito mais tempo...

 

 

O visual

É natural que o sentido estético tenha mudado em 57 anos. Nos anos 50, tudo era mais grandioso. Sem tecnologia, os cenários eram pintados, quase próximos do teatro; as personagens são mais dramáticas, com vozes demasiado projetadas e movimentos exagerados. As músicas eram épicas, acompanhando os sentimentos e ações, e a forma de filmar muito característica.

 

A própria forma como os eventos eram relatados seguia uma linha muito correta, sem hipótese de desvios.

 

O que não acontece nos dias de hoje. Há inovações, diferentes formas de filmar e dirigir um filme. Adoro que assim seja, mas não neste caso. O realizador Timur Bekmambetov quis criar uma abordagem tão diferente que tornou o filme confuso, demasiado rápido, e quase a parecer uma telenovela de duas horas. Não são bonitos os ângulos, nem são bonitos os cortes e paralaxes que apenas retiram um seguimento à história. 

 

Os atores

Como já falámos, em epopeias antigas, os atores eram dramáticos, com movimentos exagerados e vozes muito elevadas. De lembrar que, na altura, ainda havia muita influência do cinema mudo, em que os movimentos nos permitiam perceber parte da história. Durante largos anos, muitos atores continuaram a manter certos hábitos anteriores.

 

Apesar de o Ben-Hur de 59 já se distanciar um pouco desses tempos, é impossível fazer um certo paralelismo. Mas deixamos passar, porque a história pede drama, pede força e muitas veias a saltar.

 

 

O mesmo não acontece atualmente. Os atores são mais contidos, e preferem utilizar a sua expressão facial e corporal para transmitir sentimentos. Bem, se aqui os houvesse. Os atores pareceram-me algo sensaborões, salvo raras exceções. Salve-se Morgan Freeman, que nunca faz nada errado.

 

A mensagem

Ben-Hur é uma história bíblica, sobre redenção e o ultrapassar a sede de vingança. É sobre fé, e sobre acreditar em algo mais para sermos superiores aos que nos rebaixam. É muito religioso, e mantem sempre o paralelismo com a Bíblia e a história de Cristo e a sua palavra.

 

Apesar de ser a vingança o principal mote de Judah, rapidamente percebemos que há algo mais. No filme de 59, isso está muito patente, e é a sua principal mensagem.

 

Não é que no filme de 2016 o mesmo não aconteça. No entanto, a ação é mais rápida, de tal forma que não percebemos bem o que faz Judah mudar de perspetiva. A mensagem parece não ter o mesmo o mesmo peso e importância.

 

Não é errado, ou pior por isso; é apenas diferente.

 

Conclusão:

Sim, é verdade que me custou suportar as três horas e meia do Ben-Hur original; é um clássico longo, repleto de cenas que não são assim tão importantes. Mas quando vemos o resultado final, tudo faz sentido - tanto que, ao ver a nova versão, algo faltava.

 

20 minutos depois de começar a ver a versão de 2016, já não o suportava. O efeito novelesco, os cortes na história (que lhe retiram força e a perceção da mensagem), os atores que querem parecer mais do que oferecem, a banda-sonora de filme de televisão... Não fazem justiça à versão original. Parece um daqueles filmes fraquinhos que passam na Páscoa e no Natal sobre a vida Cristo, que todos veem mas ninguém gosta.

 

 

Mas deixo ao vosso critério. Se querem conhecer a história de Ben-Hur, mas não querem estar tantas horas em frente à televisão, tudo bem, vejam o filme de 2016; ficam a conhecer o básico, e um pouco da história que apaixonou tanta gente.

 

Se por outro lado querem ter noção da verdadeira essência de Ben-Hur, e compreender porque foi tão adorado no seu tempo (e continua a ser um exemplo clássico), não façam planos e assistam ao original. Demora o seu tempo, mas a experiência vale a pena por ser tão intensa e diferente do que hoje temos.