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Fui ao Cinema... E não comi pipocas!

As aventuras e desventuras de uma miúda que se alimenta de histórias cinematográficas.

Fui ao Cinema... E não comi pipocas!

Animais Noturnos (2016): quando a Moda vira Cinema

Sinopse: Susan (Amy Adams) é dona de uma galeria de arte, e sente que não vive uma vida feliz. Um dia, recebe do ex-marido Edward (Jake Gyllenhaal) o seu novo romance, que a atormenta quando percebe que pode ser uma vingança simbólica ao fim da sua relação. 

 

 

Não seria de esperar que um designer de moda pudesse tornar-se um realizador e cinéfilo de excelência. Mas se Tom Ford conseguiu provar alguma coisa em 2009, quando apresentou o seu primeiro filme Um Homem Singular, foi que é possível. Com a estreia de Animais Noturnos ficou provado que o senhor faz filmes como faz fatos: de forma clássica, e totalmente única. 

 

Animais Noturnos não é uma história fácil - nem o é a forma como Ford costuma realizar os seus filmes. Os seus filmes têm uma estética muito própria, em que o cenário, as cores, as posturas dos atores e as suas expressões têm um papel tão importante quanto as palavras. Desta vez, ao adaptar para cinema o romance de Austin Wright, Tony & Susan, pegou numa história de violência, vingança e, sobretudo, de regresso ao passado, que nos faz questionar as nossas ações, e nos mostra como estas influenciam o nosso futuro. 

 

Não é um filme para todos, não por não ser acessível a todos, mas porque o seu estilo foge muitas vezes ao que muitos procuram no Cinema. Em conversa com a minha melhor amiga, percebi exatamente isso: Animais Noturnos não é um filme com o qual nos entretemos, mas que nos faz pensar, e nos obriga a ligar as peças do puzzle. 

 

Eu gosto disso, e foi uma das coisas que mais adorei neste filme. Ao longo da ação temos três linhas narrativas que se cruzam e nos fazem perceber a história de Susan: temos o seu presente, envolvido no luxo e superficialidade da vida de Los Angeles, e extremamente infeliz; temos o seu passado, de romance, traição e decisões das quais se arrepende; e temos o romance de Edward, um livro chamado Nocturnal Animals sobre a violenta história de um homem que perde a mulher e a filha, e começa uma viagem de procura de justiça. 

 

 

O melhor é que cada uma das linhas se completa, e nunca se sobrepõe estética e conceptualmente. Ford consegue passar de uma para a outra sem causar confusão ou ilusão, e existem sempre pormenores que nos mostram exatamente em que dimensão estamos. Além disso, é este paralelismo tão bem montado que nos faz perceber a história de Susan.

 

Revela-se uma história pesada, e também ela muito violenta. É interessante perceber como é que a arte, que faz parte da sua vida, se torna a antítese daquilo que tanto gosta e anseia. Da mesma forma, ao ver a sua viagem pelas suas ações, vamos também questionando como é que as suas decisões a fizeram chegar a um ponto tão infeliz. 

 

Tudo para acabar a confrontar-se com tudo isto, todas as decisões e questões. Edward, que escreve Nocturnal Animals e, na cabeça de Susan, também o protagoniza (não é ele que, a dada altura, lhe explica que os escritores escrevem sempre sobre eles próprios?), apresenta-lhe um espelho, ou uma vingança, da forma tão subtil que é quase poética. As palavras que lê confrontam-na, e é atormentada, não só pela ação do livro, mas pelo seu próprio passado.

 

E o melhor é que vemos tudo a acontecer à nossa frente. Não há um único ator que não desempenhe o seu papel com uma força e expressão extraordinárias. Não só Amy Adams, com uma postura irrepreensível, mas Gyllenhaal, que desempenha dois papéis tão diferentes, e tão completos. 

 

Mesmo com tão boas prestações (acho que Michael Shannon, com o seu sotaque texano, faz qualquer coisa bem), há uma que me surpreendeu imenso: Aaron Taylor-Johnson. Taylor-Johnson interpreta Ray, o cabecilha do crime do romance de Edward, de uma forma tão sádica e penetrante que quase acreditamos na sua maldade. Há mais do que interpretação de palavras; há uma expressão corporal, uma face, pormenores e olhares que fazem a diferença e nos fazem pensar que sim, estamos perante um violento criminoso. 

 

 

Quando estamos a ver um filme tão bem construído como este, é bom ver que as próprias personagens têm esse “tratamento”. 

 

Ford, de facto, não deixa nada ao acaso. Cada cena está pensada, cada pormenor tem um significado. Desde a primeira à última cena, tudo faz sentido, e tudo tem uma razão de ser. Não existem pontas soltas, nem uma cena que existe só porque sim. Foi o que gostámos tanto em Um Homem Singular, e o que faz deste Animais Noturnos um dos melhores filmes do ano. 

 

Porque eu não tenho dúvidas que assim o seja. Há poucas obras-primas que mexem connosco desta forma, e de uma maneira muito estranha e subtil, este mexeu comigo. Talvez seja a sua violência, as suas interpretações ou apenas a poesia com que foi criado. Mas este vai marcar 2016, não pelas suas mortes, mas pela sua forma única de ter sido dirigido. 

 

É bom que o Tom Ford não se dedique muito aos fatos, porque ficar mais sete anos sem um filme dele vai ser complicado de lidar…

 

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