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Fui ao Cinema... E não comi pipocas!

As aventuras e desventuras de uma miúda que se alimenta de histórias cinematográficas.

Fui ao Cinema... E não comi pipocas!

A vida é demasiado curta para más legendas e traduções

Na vida, temos de dar espaço aquilo que nos dá prazer. Bons filmes, boa comida, bons momentos. É uma máxima que gosto de respeitar, sobretudo quando parte dos nossos dias são inundados de trabalho e repletos de minutos solitários, entre nós e um computador.

 

Um bom filme, em casa ou no cinema, é um prazer incalculável. São horas de lazer máximo, onde a única coisa importante é o bom que retiramos daquele calor... que tantas vezes é arruinado por legendas que metem dó ao menino Jesus.

 

Este fim de semana, tão gélido na rua, pediu-me chá quente, manta nos joelhos e Super 8, de JJ Abrams, na TV. Eu fiz-lhe a vontade. Qual é o meu espanto quando estou a assistir ao filme e, quando uma das personagens diz ‘What is going to happen to me?’, a tradução dizia ‘ O que me vai suceder?’

 

Fiz um escândalo. Gritei pela sala, empurrei móveis e despejei o chá a ferver por cima da TV para não ter mais de ver traduções assim. Tentei respirar fundo, mas no meu âmago só me apetecia esmurrar, partir, estragar tal como tinham estragado a minha experiência.

 

Bem, não foi assim tão dramático. Isto aconteceu tudo na minha cabeça, mas na verdade só levei uma mão à testa e pedi misericórdia pela pessoa que tinha ousado fazer a legendagem daquele filme.

 

Porque quanto mais assistia, mais casos via, e mais vontade tinha de esmurrar alguém.

 

Pode não parecer, mas tenho um grande respeito por quem faz tradução. Além de ser necessário conhecer as línguas de uma ponta à outra, ainda têm de conhecer cultura e hábitos que as possam influenciar. Mais do que passar para português uma coisa falada em inglês, precisam avaliar oque faz sentido tendo em conta o contexto e personagens, e época.

 

A esta última parte dou muita importância. Mais do que uma tradução literal de tudo o que é dito, eu quero uma tradução verdadeira. Quero que aquilo que estou a ouvir seja precisamente aquilo que estou a ler, mesmo que as palavras não estejam a ser traduzidas completamente.

 

É um trabalho difícil, mas é necessário. Ver uma criança de 13 anos a dizer ‘O que me vai suceder?’ não é natural – é só parvo.

 

É parvo que algumas personagens acabem por dizer coisas que não só é impossível que façam parte do seu vocabulário, como não faz sentido na ocasião. O puto vai ficar sozinho numa zona de guerra, vai mesmo lembrar-se da palavra suceder?

 

Não; vai pensar em algo mais simples, mais direto e muito mais adequada ao seu léxico e até idade.

 

Quando digo que a vida é demasiado curta par amás traduções, estou mesmo a falar a sério. Apesar de respeitar quem tem este trabalho, e de saber em primeira mão que não é fácil, não posso desculpar quem não me ajuda a percecionar uma mensagem da melhor forma.

 

É claro que a opção é ver filmes sem legendas, mas se elas existem, porque é que tenho de tomar essa escolha? Enquanto espectadora tenho o direito a usufruir de um trabalho imaculado por parte de todos os intervenientes. Se exijo um bom filme, que não me faça disperdiçar o meu tempo, tenho de ter a mesma atitude para com aqueles que o tentam aproximar da minha realidade linguística.

 

Há muitos anos que já me desabituei a ler livros traduzidos para português. Tenho dado preferência aos originais, mas tenho a facilidade de me ser tão fácil ler em inglês como em português (com as devidas limitações). Sobretudo depois de ver algumas atrozes traduções, como alguém que decidiu traduzir ‘cold feet’ (uma expressão que significa que alguém se arrependeu, ou deixou de ter vontade ou motivação para fazer algo) por ‘pés frios’. Vá lá, isso é só gozar com as pessoas.

 

Ao longo do tempo tenho visto traduções semelhantes nas legendas de filmes. É terrível, sobretudo porque nem sempre quem está a ler tem o domínio da outra língua para perceber que está errado, ou não tão correto.

 

Se me perguntarem, tenho plena consciência que o exemplo que me fez saltar a boneca não está errado, ou mal traduzido. Suceder é uma boa tradução, mas não neste contexto. E encontrar a palavra correta é tão importante como escolher aquela que se adequa melhor à situação.

 

Isso sim, faz a diferença entre uma boa tradução, e apenas uma legendagem que me deixa perceber de alguma forma aquilo que estão a dizer.

 

E não me faz perder tempo e esforço a ler, quando podia apenas ouvir e ter uma noção muito mais acertada do que está a acontecer.