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Fui ao Cinema... E não comi pipocas!

As aventuras e desventuras de uma miúda que se alimenta de histórias cinematográficas.

Fui ao Cinema... E não comi pipocas!

A Hora Mais Negra (2017): Poesia, humanismo e política

Sinopse: Hitler está no poder. A Europa está em perigo. Em Inglaterra discutem-se os próximos passos e um novo Primeiro-Ministro é eleito: Winston Churchill (Gary Oldman). Esta é a história de como um homem teve a coragem de ir para a batalha, e como conseguiu mover uma nação para acompanhá-lo.

 

 

 

As três palavras no título deste texto são uma descrição muito sucinta e prática do que podemos esperar de A Hora Mais Negra. É sem dúvida um filme altamente político, preenchido por um grande lado humano, e colado com a poesia da imagem e som.

 

A ação está concentrada nos primeiros momentos do governo de Churchill, uma altura de tensão e incerteza em Inglaterra, sobretudo quando começou a parecer que Hitler estava preparado para tomar a Europa.

 

Foi mesmo uma hora negra. É sempre uma hora negra quando um país está prestes a perceber que vai entrar em guerra, e que muito pode perder com isso. E ainda é mais para aquele que tem de tomar a decisão.

 

Churchill foi um homem controverso. Dividiu opiniões, e é claro logo de início que poucos eram aqueles que apoiaram a sua subida ao poder. Até o Rei teve dúvidas! De uma forma muito subtil e inteligente, Joe Wright vai-nos dando pistas para estes desfavorecimento, e um puzzle se forma na nossa cabeça.

 

Mas subtileza e inteligência são imagens de marca do realizador, tal como a sua poesia. Sempre vi o trabalho de Wright como um exercício ao nosso poder de concentração. Não porque ele dirige filmes de uma forma complexa, mas porque cada ângulo, cada movimento da câmara ou close-up, cada ausência de som ou subtileza na banda sonora podem ter significado.

 

Por norma têm. Dizem-nos tanto da história como as palavras, como a dinâmica entre as personagens e os seus diálogos. O movimento dirige-nos o olhar, para que estejamos atentos ao que vai acontecer. Já a tensão é sentida no ar sempre que a cãmara engole o personagem, ou o silêncio enche a sala.

 

São técnicas, claro. Técnicas de realização e imagens de marca que conferem a Wright um poder muito interessante. E para nós, espectadores, permite-nos perceber a história de uma forma diferente.

 

No caso de A Hora Mais Negra, sendo esta uma história de tensões e expectativas, essas imagens de marca estão muito presentes. Foi interessante ver como é que Wright consegue colar as partes mais políticas com as mais mundanas, tentando mostrar um lado de Churchill mais descontraído ou vulnerável.

 

Uma vulnerabilidade que todos queremos ver em grandes figuras de poder. É inevitável que argumentistas e realizadores, ao contar a história de importantes nomes da História, não nos queiram mostrar o seu lado humano. Os filmes servem para nos aproximarmos, para conhecermos as suas motivações e emoções.

 

 

 

Winston Churchill, sendo uma figura tão controversa, tinha de sofrer esse  tratamento. Mas pela forma como o filme está organizado, de uma forma tão cronologicamente política, centrada nos grandes eventos e decisões políticas, não sabemos se o importante é o homem se a situação que vive.

 

É claro que tudo faz parte da história: quem é Winston (vamos passar para o primeiro nome), e as dificuldades políticas por que passou. Tudo é importante para conseguirmos perceber este complicado momento na História de Inglaterra. Ele é o centro de toda a trama, e isso deixa-nos perder um pouco a ideia de quem foi realmente determinante para a forma como decidiu agir.

 

Talvez foram todos os personagens secundários que apareceram. Talvez não foi nenhum.

 

Um coisa é certa: Winston Churchill foi senhor de si. Se Jow Wright nos transportou pela sua poesia, conseguiu-o também porque teve um protagonista à altura. É incrível a forma como Gary Oldman se perde dentro da pele de Churchill, e como nos esquecemos que estamos a olhar para um ator.

 

Não apenas devido à quantidade de maquilhagem que Oldman usa; antes porque toda a sua linguagem corporal, a forma como coloca a voz ou se comporta parecem uma viagem no tempo, e um pleno exercício de interpretação. Oldman faz-nos ver como o ator certo para o papel certo faz toda a diferença para conseguirmos percecionar uma história - sobretudo quando se trata de alguém tão preponderante como Churchill foi.

 

É Oldman quem nos chama a atenção, mas está rodeado de pessoas que o ajudam nesta tarefa árdua. Porque se ele é o centro, Kristen Scott Thomas é a perfeita mulher negligenciada mas que está preparada para apoiar o marido em todas a ocasiões. A forma como a sua personagem surge, a sua postura enquanto fala, são viagens no tempo.

 

 

 

 

Todo A Hora Mais Negra é uma viagem no tempo. Mas uma viagem no tempo com o seu toque de magia e poesia.

 

Wright é mesmo um mestre naquilo que faz, sobretudo quando falamos de filmes de época. Ainda por cima sabe rodear-se das pessoas certas para os papéis certos, o que lhe confere uma inteligência ainda maior.

 

Não há dúvida de que estamos perante um filme poderoso e muito interessante, do ponto de vista histórico e cinematográfico. É uma amostra em que a História pode ser contada de uma forma não documental, e ainda assim muito forte.

E é a prova de que o bom cinema está bem vivo.

 

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