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Fui ao Cinema... E não comi pipocas!

As aventuras e desventuras de uma miúda que se alimenta de histórias cinematográficas.

Fui ao Cinema... E não comi pipocas!

A bela história de A Rapariga Dinamarquesa (2015)

Sinopse: A história verídica de A Rapariga Dinamarquesa traz-nos a vida de Einar Wegener (Eddie Redmayne), um popular paisagista dinamarquês nos anos 1920, com um casamento feliz com a também pintora Gerda Wegener (Alicia Vikander). Quando Gerda sugere que Einar vista uma das suas meias para substituir uma modelo que não pôde posar, o pintor sente-se demasiado confortável na pele, e descobre algo em si que até ali tentou esconder.

 

A Rapariga Dinamarquesa não nos traz uma história fácil de compreender, nem socialmente aceitável. Einar Wegener existiu mesmo, bem como Lili Elbe, a mulher em que se transformou em 1930. Elbe terá sido uma das primeiras pessoas em todo o mundo a passar por uma cirurgia para se tornar a mulher biológica que já sentia ser no seu interior.

 

Nesse aspeto, o filme chega na altura certeira. Mais do que nunca são discutidos os direitos e facilidades das pessoas transgénero, e a sociedade mostra-se mais aberta para aceitar a diferença. Casos como os da atriz Laverne Cox ou de Caitlyn Jenner permitiram que Tom Hooper conseguisse financiamento para contar a história que há vários anos tentava levar ao cinema. E ainda bem.

 

Primeiro, porque é de facto um tema que, 100 anos depois do primeiro caso registado de uma operação de transição, ainda pouco se sabe e aceita sobre o assunto. Segundo, porque Tom Hooper tem um dom de contar histórias com o condão e atmosfera certas para nos conceder um belo filme, e para fazer o tema chegar ao público.

Mas não sem perder algo pelo caminho. A verdade é que a vida de Elbe é complexa, e não é fácil mostrar as suas frustrações, motivações e emoções no momento do seu nascimento (digamos, a altura da operação) num filme que não pode ser demasiado longo. A questão é que Hooper deixa-se perder entre as paisagens da Dinamarca e os vários acontecimentos que surgem nas vidas do casal Wegener, o que significa que não só achamos que o tempo passa muito devagar, como perdemos noção da continuidade desses acontecimentos.

 

Do momento em que Elbe fez a primeira operação para retirar os órgãos sexuais masculinos, às restantes três operações para terminar a transição e ao seu falecimento, levou mais de um ano. Antes disso, conseguiu viver enquanto mulher (ainda sem a operação) durante vários anos, juntamente com Gerda.

 

É aqui que o filme se perde entre os eventos reais e deixa-nos sem um rumo certo. Parte do que torna a história de Lili e Gerda tão interessante é que foi de facto Gerda uma das principais apoiantes de Lili, tendo ficado ao seu lado durante vários anos. O que o filme nos mostra, maioritariamente, não é a transição de Lili, mas a forma como finalmente se descobre e como ambas, enquanto casal, conseguem ultrapassar a situação - tudo isto de uma forma longa e repleta de alguma ficção (o filme baseia-se, não necessariamente nos diários mantidos por Elbe, mas sim num romance ficcionado lançado em 2000).

 

Alicia Vikander abraça com afinco o processo de adatação de Gerda à sua nova situação, e há quem diga que roubou o protagonismo de Redmayne (com alguma razão). Sou uma grande fã da atriz desde os tempos de Um Caso Real, e acho que está a conseguir cada vez mais papéis onde mostra as suas capacidades. Se a verdadeira Gerda de facto viveu momentos destes, pouco sabemos, mas tudo o que esperamos está na pele da atriz que lhe dá vida.

 

Eddie Redmayne não lhe fica nada atrás. Muito pelo contrário: consegue mostrar relativamente bem o conflito interior pelo qual Einar deverá ter passado. São pequenos pormenores: os trejeitos na face quando sente o tecido do vestido pela primeira vez, a expressão corporal quando se imagina no corpo de mulher… Perfeitamente dirigido por Hooper, é sem dúvida uma interpretação que merece elogios e que nos mostra as diferenças entre Einar e Elbe, e como a segunda parecia estar na pele correta, mas desconfortável por se saber diferente das restantes pessoas.

Ou seja, A Rapariga Dinamarquesa é um belo testemunho social, e um abre olhos cada vez mais necessário nos dias de hoje. Aquilo porque que passam as pessoas transgénero não é compreendido, e talvez o argumento escrito por Lucinda Coxon pudesse passar um pouco mais pelas motivações de Elbe.

 

No entanto, não deixa de ser um belo filme, com uma cinematografia e interpretações de cortar a respiração. Hooper carrega os seus filmes de dramatismo, e sabe que o faz bem. Tinha tudo para ser um filme a ser relembrado nos tempos. Mas uma coisa é certa: a história de Lili Elbe não foi esquecida.

 

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