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Fui ao Cinema... E não comi pipocas!

As aventuras e desventuras de uma miúda que se alimenta de histórias cinematográficas.

Fui ao Cinema... E não comi pipocas!

O melhor de 2017 no Cinema

2017 foi um bom ano. Foi daqueles anos que vai deixar saudades, mas também que nos deixa entusiasmados por tudo de bom que pode vir a chegar em 2018.

 

No mundo do Cinema, foi um ano de viragem.

 

Se em anos anteriores foi sempre a questão da raça a prevalecer (porque a representação negra não existe como deveria), desta vez foi o género que foi discutido. Os casos de assédio sexual que vieram a lume vieram fazer-nos questionar que tipo de indústria é esta de Hollywood, que trata as mulheres como se fossem objetos que podem usar e descartar.

 

Socialmente, foi um ano repleto de questões e polémicas. Há muito tempo que não me recordo de ter tantas notícias terriveis e asquerosas sobre este mundo. E apesar de ainda muito precisar de ser feito, estamos a caminhar para a igualmente a pouco e pouco.

 

Os filmes, esses, continuam a alegrar os nossos dias. 2017 foi recheado também de obras que nos encheram o olho, e que nos despertaram todas as emoções. Desde comédia a terror, a clássicos e novidades, houve de tudo um pouco – e ainda bem.

 

Não vi nem metade daqueles que gostava de ter visto. Muitos dos filmes elogiados pela crítica ou ainda não chegaram cá, ou simplesmente não os consegui ver ainda – o caso de Corra! Mais do que esses, vi poucos daqueles que me deixaram mesmo entusiasmada, e deparei-me com outros que me surpreenderam.

 

Como acho que os convencionais tops não conseguem demonstrar verdadeiramente aquilo que acho que cada filme (que vive individualmente), deixo-vos os meus preferidos de 2017 na categoria que me fez adorá-los e elogiá-los.

 

Encontram os vossos preferidos?

 

O melhor momento WTF – mother!

 

 

mother! foi um daqueles filmes que amamos ou odiamos; não existe um meio termo. É complexo, é estranho de se ver, é duro como o raio e pode até parecer estranho. Mas uma coisa é certa: está extraordinariamente bem feito!

 

Dareen Aronofsky conseguiu criar uma fábula que não o é, e filmar uma realidade que não existe. Tenta pegar naquilo que conhecemos como Mãe Natureza e mostrar tudo aquilo que lhe fizemos de mal, sem sequer a mencionar diretamente.

 

É incrível como às vezes os filmes mais estranhos são os mais fáceis de falar sobre. Foi com verdadeira facilidade que consegui passar cá para fora tudo o que mother! me fez sentir, e o mais estranho é que nem eu sei bem o que isso foi.

 

Mas vale sempre a pena ver.

 

 

O melhor momento de lágrima no olho – Logan

 

 

Se já viram Logan acho que conseguem perceber porque é que o coloquei nesta categoria. Ele partiu-me o coração, deixou-me de rastos e fez-me perder a esperança num futuro alegre.

 

Algumas destas afirmações podem ter mudado assim que saí da sala, mas isso são pormenores.

 

O importante é que Logan foi mais do que um novo filme de Wolverine –e foi O filme de Wolverine.

 

Nenhum dos outros filmes sobre o mutante imortal me chamaram tanto a atenção como este. Ao contrário dos X-Men, estes sempre me pareceram estranhos, pouco conexos entre si e com qualquer coisa a faltar.

 

Logan, pelo contrário, é um filme muito completo e que faz todo o jus à personagem. É muito cru e altamente real, o que parece estranho quando falamos de um mutante com garras a sair pelos dedos. Mas conseguiu, e conseguiu criar uma empatia que vai além da nostalgia de esta ser uma personagem que nos acompanha há imensos anos.

 

 

O melhor sobre rodas – Baby Driver

 

 

Que me perdoem aqueles que achavam que nesta categoria só podem figurar as Velocidades Furiosas desta vida. Temos um novo Jason Statham na estrada, e chama-se Baby!

 

A referência a Correio de Risco foi meramente humorística, mas não sem o seu quê de verdade. Baby Driver pode não ter nada a ver com os filmes protagonizados por Statham, mas partilha a sua velocidade, as regras do motorista e carros a abrir.

 

Gostei de Baby Driver desde o momento em que vi o trailer. Pareceu-me ter tudo o que um filme de Edgar Wright merece, e que nós merecemos vindo dele também.

 

 

A melhor mulher badass – Mulher Maravilha

 

 

Não me parece que aqui hajam grandes surpresas: Mulher Maravilha foi mesmo um momento cheio de estrogénio e muita ação!

 

Pode até nem ter sido o melhor papel a mostrar todo o valor e potencial do Cinema no feminino, mas claramente mostrou-nos que ter maminhas não significa que não tenhamos tomates (perdoem-me a piada fácil).

 

Mulehr Maravilha não só é protagonizado por uma mulher cheia de força, como é dirigido por uma que sabe perfeitamente onde ir. Além de ser um filme muito bem equilibrado e construído, tem um argumento bem conseguido e interpretações à altura.

 

É tudo aquilo que esperamos de um filme de super-heróis dos bons – mesmo quando vem do lado da DC.

 

 

O melhor momento pipoca – Homem-Aranha: Regresso a Casa

 

 

O que não faltam nesta vida são filmes pipoca, daqueles que vemos só porque sim e que levamos para casa apenas como sendo mais um filme a que assistimos. Há sempre carradas deles durante um ano, uns melhores do que outros.

 

Em 2017, era impossível não destacar o regresso do aranhiço preferido de toda a gente.

 

Os filmes de Homem-Aranha, se bem que sempre com um estilo e espírito muito próprios, sempre pareceram distanciados da epicness dos filmes de super-heróis. E ainda bem, porque o Homem-Aranha é um herói diferente, jovem e com muito a aprender.

 

As primeiras tentativas, com Tobey McGuire no papel, foram um sucesso. O reboot com Andrew Garfield nem tanto, por isso fazia sentido que a Marvel quisesse dar também o seu toque no mais falado e adorado herói.

 

O resultado (mais jovem) foi um filme muito bem conseguido, repleto dos momentos de humor característicos do aranhiço, mas também com a tensão que lhe é exigida. Foi arriscado tirar alguns anos de vida a Peter Parker, mas valeu a pena para que pudesse ser mais inocente, deslumbrável e atento.

 

 

O melhor OMG ADORO! – Dunkirk

 

 

Não sei se foi o melhor filme do ano. Até pode não ter sido, mas isso torna-se irrelevante quando assistimos ao mais recente filme de Christopher Nolan.

 

 Não é surpresa para ninguém que Nolan tem o hábito de criar os seus filmes sem esquecer nenhum pormenore. Tudo está ligado e pensado, desde o argumento às interpretações, à banda sonora e forma como o filme é filmado e montado. Não há nada que o realizador e argumentista deixe ao acaso.

 

Isso torna-se ainda mais importante neste Dunkirk, repleto de tensão e momentos de ficar bem agarrado a cadeira. É eloquente e descentrado na ação, sem com isso perder o rumo e a congruência.

 

É um momento de cinema ímpar, ao qual todos deviamos assistir pelo menos uma vez.

 

 

Muitos dos filmes que estrearam em 2017 ainda não chegaram a esta lista, mas de certeza que vamos voltar a ouvir falar deles assim que chegar a award season. Por isso fiquem atentos, porque 2017 ainda vai dar que falar!

80 anos de Branca de Neve e amor pelos filmes de animação

Hoje, 21 de dezembro de 2017, a Branca de Neve faz 80 anos. 80 anos, senhores! Faz hoje 80 anos que o mundo ficou a conhecer a sua imagem, e dos seus amigos Sete Anões.

 

São 80 anos de magia, de desenhos animados a cores e da importância dos filmes de animação no mundo do Cinema – e nas nossas vidas.

 

Quando somos crianças, mais do que em adultos, todos gostamos de filmes e desenhos animados. Não existe criança que não tenha o seu filme preferido, que não delire com as suas personagens, ou até que não cante as suas canções.

 

Mas mais do que encantadores de bebés, são filmes que nos tocam ao coração mesmo quando somos adultos.

 

 

A 21 de dezembro de 1937, o mundo conheceu a primeira longa-metragem de animação de sempre, e a cores. Bem, uma das primeiras. A verdade é que outras tinham aparecido, da Disney e de outros estúdios, desde o início dos anos 1930. Porém, a Disney foi a primeira que conseguiu criar um filme interior apenas utilizando desenhos à mão, e não silhuetas ou recortes 3D.

 

Para a altura foi um feito. O público já tinha ficado rendido às suas histórias, que surgiram mais afincadamente a partir de 1928 com o lançamento de Steamboat Willie. Já outros estúdios produziam histórias do género, já outras personagens tinham surgido, já outros filmes tinham sido divulgados.

 

Mas Branca de Neve era diferente. Era a prova de que havia a capacidade para animar desenhos, que as pessoas queriam vê-los animados, e que estavam dispostas a estar tanto tempo dentro de uma sala para ver criaturas desenhadas num papel.

 

E era a primeira princesa da Disney.

 

Em 80 anos é inegável ver que muita coisa mudou. O Cinema já não é visto tanto como uma curiosidade ou novidade, mas como uma arte que precisa ser constantemente avaliada e evoluída. Hoje vemos o Cinema como lazer e entretenimento, mas também como verdadeira paixão e amor por aquilo que vemos.

 

Já não se trata apenas da novidade de vermos desenhos a dançar e a cantar a cores.

 

Queremos histórias com pés e cabeças, filmes que pensem fora da caixa (“WHAT’S IN THE BOOOOOOX?” Desculpem, não resisti), e algo que nos maravilhe. Queremos cores garridas, queremos cinematografia extraordinária, queremos elevar a fasquia.

 

Há 80 anos atrás, Branca de Neve conseguiu ultrapassar qualquer fasquia que existisse. E foi um ótimo prenúncio para a Disney, que percebeu que isto de animar bonecos podia dar dinheiro.

 

 

Os filmes de animação têm hoje uma dimensão e importância muito próprias, seja no que toca às suas histórias e como são contadas, mas também tecnica e tecnologicamente.

 

Foram 80 anos de evoluções, em que vimos que os filmes podem ser para toda a família. Em que choramos, rimos e encontramos piadas que funcionam para todos. Em que os a forma como os filmes são feitos é tão complexa (ou mais ainda) do que se tivessem pessoas. A sua importância, e o nosso amor por eles, é o mesmo. Até ainda hoje considero que O Rei Leão é dos filmes mais bem feitos de sempre.

 

A Branca de Neve pode até nem ser o nosso filme de animação preferido. Pode até nem ter sido mesmo o primeiro primeiríssimo, mas é símbolo de um modelo que tem sabido crescer, e com o qual temos crescido mesmo depois de adultos.

 

Os nossos parabéns mais sentidos!

 

E vocês, qual é o vosso filme de animação preferido?

NOVO TRAILER - Ocean’s 8, e o poderio das mulheres

É oficial: já saiu o primeiro trailer de Ocean’s 8, a recriação de trilogia Oceans mas completamente no feminino.

 

E pessoas, isto promete!

 

 

Quando falamos em recriação, não estamos a dizer só porque sim. Ocean’s 8 é suposto ser uma nova versão do filme Ocean’s Eleven, de 2001, protagonizado por George Clooney, Brad Pitt, Julia Roberts, Bernie Mac, e tantos outros. O filme, realizado por Steven Soderberg, foi um sucesso tal que deu origem a duas sequelas, igualmente surpreendentes.

 

Numa Hollywood desesperada por reinventar sucessos, e que quer dar papéis mais importantes às mulheres, dar este passo não parece assim tão estranho.

 

Apesar de, para mim, me ter soado forçado ao início. Vivemos num mundo um quanto politicamente correto, em que temos de ter mil cuidados quando falamos de alguém porque pode ter um dedo mindinho considerado uma minoria dos dedos mindinhos. Por norma, simpatizo com tudo isso e até concordo que tenhamos de ter mais cuidado.

 

Porém, fazer um filme só com mulheres apenas porque temos de ter mais mulheres no cinema em papéis importantes não me parece bem. Elas têm de se destacar por terem papéis fortes e pensados para isso mesmo, não só porque sim.

 

Mas quando vi o trailer as minhas dúvidas e medos dissiparam-se.

 

O paralelismo entre este Ocean’s e o original é evidente: Debbie Ocean (Sandra Bullock) tem uma ideia. Uma ideia que a vai deixar riquíssima, mas que precisa de ajuda para concretizar. Então, com a ajuda de uma amiga (Cate Blanchett), reúne um grupo de profissionais e mestres do crime.

 

O alvo? A Met Gala, um evento anual e dos mais noticiados do mundo, em Nova Iorque.

 

Sarah Paulson, Helena Bonham Carter, Rihanna, Mindy Kaling e Awkwafina completam a trupe, que promete alguma ação, aventura e, se seguir mesmo as pisadas originais, muitos plot twists.

 

O trailer deixou-me segura que temos uma argumento estável e bem pensado. Parece respirar muito do que foi a trilogia original, o que pode ser bom, se bem feito. Eu adoro todos os filmes da trilogia Ocean, por isso as minhas expectativas estão muito elevadas.

 

E ao contrário do que pensava, não me parece forçado. Parece fazer sentido, e acho que o elenco não podia ter sido melhor escolhido. Todas estas mulheres têm uma força incrível e vendem bilhetes só por aparecerem. Ao longa da sua carreira têm conseguido quebrar barreiras, e mostrar todo o seu poder no feminino.

 

Acho que recriar um filme com papéis esteriotipados para o masculino (o mauzão crimonoso estratega que consegue ser genial) é importante. Mas é importante porque consegue mostrar que uma mulher tem tanta capacidade para o fazer tal como um homem, não porque tem mesmo de ser.

 

Sabemos que as mulheres têm as mesmas capacidades dos homens. Conseguir mostrar isso num filme, sem voltar a cair em esteriótipos e ideias socialmente concebidas é que é o verdadeiro desafio.

 

Espero que este Ocean’s 8 o supere. Eu já estou desejosa para que chegue o verão!

Star Wars: Os Últimos Jedi (2017) – A esperança não morreu

Sinopse: A República caiu, e agora o Império está no poder, governado por Snoke (Andy Serkis). Snoke está decidido a acabar com a Resistência. Sobre a liderança de Leia Organa (Carrie Fisher), a Resistência continua a lutar e espera Luke Skywalker (Mark Hamill), a única esperança para conseguir um mundo melhor.

 

 

Em 2015, eu fui daquelas que teceu todos os elogios do mundo a O Despertar da Força. Apesar de ter medo desta nova trilogia, e do que poderia fazer ao mundo de Star Wars, a verdade é que o filme de J.J.Abrams tinha tudo aquilo que um fã precisava para voltar a sentir por Star Wars um amor desmedido.

 

Com um novo realizador e argumentista, o medo regressou. Mas todas as incertezas foram esquecidas depois e assistir a este Os Últimos Jedi.

 

Seguindo o exemplo do anterior, Os Últimos Jedi continua a seguir a história da trilogia original. Há um Império, há uma Resistência, e lá pelo meio existem Sith e Jedi que lutam entre si para tentar rular a galáxia.

 

Isso não é mau. Sempre parti da premissa que os filmes do Star Wars nunca foram os melhores do mundo; os diálogos nem sempre fazem sentido, os acontecimentos até podem parecer um pouco descabidos, mas é o seu espírito que nos atrai. São os seus momentos de humor, de ação, de puro deleite visual que continuam a atrair-nos.

 

 

Nesse sentido, Rian Johnson acertou na mouche. Tal como Abrams antes de si, criou uma história cheia de momentos-chave, muito à semelhança de O Império Contra-Ataca, sem nunca perder a mística que reina em Star Wars. Ele dá-nos a amizade, o amor fraterno, a esperança, mas também a luta, as trevas e o conflito que pode deitar tudo a perder. E ainda eleva a fasquia com batalhas intergaláticas que nos deixam de boca aberta.

 

Há quem diga que o filme está uma seca. Que tem mais explosões que ação, que os diálogos são básicos, e que as conversas entre as personagens não fazem sentido. Dizem que é mais do mesmo, que se cria um elogio a algo que nada tem de novo, e que segue as mesmas pisadas do passado sem nada que o distinga.

 

Não acho. Para mim, o que Johnson consegue fazer é exatamente beber do passado, sem deixar de pensar no presente. Hoje, os Jedi não precisam ser a última esperança; não são a última bolacha do pacote, e antes uma parte integral da luta. Hoje, fazem parte de um mundo mudado, em que as mulheres são líderes, em que a opressão deve ser reprimida, em que a Resistência luta por si e por um mundo melhor, não por uma religião quase morta.

 

E tudo isto é contado de uma forma muito descentrada, como se a descoberta do passado de Rey fosse tão importante quanto o que está a acontecer na base da Resistência.

 

 

Ao contrário de Abrams, que foi buscar muito da visão de George Lucas à forma como o filme é dirigido, Johnson segue um caminho seu, mais direto e sem floreados. E mesmo assim, não perdeu os pequenos pormenores que nos fazem acreditar que este é, sem dúvida, um filme de Star Wras.

 

A atmosfera tensa e de novos acontecimentos ao virar da esquina está bem conseguido, o ambiente, a forma como o som é misturado com a ação para nos fazer sentir tudo e nada... Não foi nada deixado ao acaso.

 

Nem a forma como Luke e Leia se relacionam, ou como a memória de Carie Fisher é passada.

 

Leia sempre foi um símbolo de força feminina, de determinação e conquista. Vê-la ali, debilitada e diferente, mas com o mesmo espírito, lembra-nos sem dúvida a memória da atriz que nos deixou o ano passado. Há amor nas imagens, nas palavras e nos olhares. É quase como um adeus, sem o ser na verdade (até porque nada indica que não regresse para o próximo filme, para o qual já tinha gravado algumas cenas). É quase uma homenagem, sem ser esse o seu intento.

 

É apenas emoção.

 

Saí da sala mais do que satisfeita. Saí da sala sabendo que vi um filme de Star Wars, puro e duro, em que mesmo a presença de Chewie e Luke nos fazem acreditar que não são indispensáveis para que o espírito continue.

 

O espírito está vivo, mesmo que para isso tenham de mudar as personagens. Não temos Vader nem Han, mas temos Kylo e Finn. Temos Rey, que mesmo com todos eles a seguir pisadas semelhantes aos seus antecessores, conseguem mesmo assim trilhar um caminho seu.

 

Estou desejosa de conhecer os seus próximos passos.

 

O que eu sei é que opiniões são como os chapéus: há muitas. Às vezes temos de desligar-nos delas e dizer apenas que um filme é brutal quando o achamos assim – mesmo que o Público lhe dê apenas uma estrela.

 

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O que vamos ver no Cinema até ao final do ano

Dezembro está a chegar ao fim. Daqui a pouco tempo, vamos ser inundados por tops dos melhores de 2017, repleto dos favoritos entre os favoritos, e previsões para as entregas de prémios do próximo ano.

 

Mas até chegarem esses tops, ainda há muito Cinema para ver. Prova disso mesmo são os filmes que ainda estão por estrear, e que não tarda chegam às salas portuguesas.

 

Tenho pena que muitos dos filmes mais esperados de 2017 ainda não cheguem este ano até nós. Filmes como The Disaster Artist, The Post e Lady Bug (que têm arrancado críticas muito positivas lá fora) só têm estreia marcada para 2018.

 

Até lá, resta-nos aproveitar o Cinema de outra forma. E penso que não haja melhor do que assistir a alguns dos (ou todos) filmes que se seguem.

 

Star Wars: Os Últimos Jedi

 

 

É, sem dúvida, o filme mais aguardado deste frio dezembro.

 

Desde 2015, quando estreou O Despertar da Força, que os fãs da saga de ficção científica mais conhecida do mundo aguardam esta sequela. Esta nova trilogia tem arrancado belas críticas aos fãs e não-fãs da saga, e quem já viu este Últimos Jedi diz que Rian Johnson realizou um filme á altura dos anteriores.

 

Neste novo filme, finalmente vamos conhecer o que aconteceu com Luke Skywalker (Mark Hammil) e perceber o papel de Rey (Daisy Ridley) em tudo isto. Vamos também voltar a encontrar Kylo Ren (Adam Driver), e perceber de que forma é que os rebeldes estão a defender a galáxia.

 

Mas não esperem grandes respostas...

 

Estreia: 14 de dezembro

 

 

O Homem que inventou o Natal

 

 

Nesta lista não podia faltar o típico filme de Natal da época. E apesar de ter um pouco mais de História do que o habitual, não foge à regra.

 

O Homem que Inventouo Natal mistura realidade e ficção ao contar-nos como Charles Dickens (Dan Stevens) começou a escrever um dos seus romances mais natalícios, Um Conto de Natal. Entre personagens reais e outras inventadas por Dickens, caminhamos por uma Londres antiga, mas muito calorosa.

 

É daqueles filmes que podemos levar as crianças para aprenderem um pouco mais sobre o espírito de Natal – e para apreciarem o bom que é assitir a uma prestação do Christopher Plummer, no papel do icónico Scrooge.

 

Estreia: 14 de dezembro.

 

 

Roda Gigante

 

 

Roda Gigante é mais do que o regresso de Woody Allen ao cinema. É também a prova que os grandes gigantes tecnológicos e serviços de streaming são cada vez mais uma produtora de relevo nos Estados Unidos. Neste caso, falamos da Amazon Studios.

 

Mas naturalmente que o grande destaque vai para Allen, que escreve e realiza o seu primeiro filme desde Café Society, o ano passado. Está a manter um bom ritmo de um filme por ano, ao que parece...

 

Desta vez, Allen vem acompanhado por Kate Winslet, Justin Timberlake, Juno Temple e um muito inesperado e querido Jim Belushi (por quem tenho um carinho especial, vai-se lá saber porquê).

 

A história está também repleta de casos muito queridos ao autor: o filme conta a história de quatro pessoas que trabalham num parque temático em Coney Island, nos anos 1950. Histórias cheias de desafios, surpresas e casos de amor.

 

Estreia: 14 de dezembro.

 

 

Tempo de recomeçar

 

 

É uma comédia, é um drama, é um daqueles filmes sobre famílias e amigos que crescem em conjunto. Perde-se a conta aos filmes que querem contar histórias de famílias e coming of age stories. Isso não significa que não se possa continuar a ver.

 

Neste caso, Tempo de Recomeçar é tudo isso um pouco, e chama a atenção por isso mesmo.

 

A história é a de Bill Pallet (J.K. Simmons), um viúvo que se muda com o seu filho para o outro lado do país enquanto tenta lidar com a perda. Graças ao seu filho e a duas mulheres que entram nas suas vidas, tenta seguir em frente e voltar a encontrar a paz.

 

Lá está, simples e bonito. E conta ainda com Juçie Delphy, por isso só pode ser bonito.

 

Estreia: 21 de dezembro.

 

 

Pitch Perfect 3

 

 

O regresso das Bellas e das suas vozes acapella é um dos mais aguardados de dezembro. Desde o primeiro filme que a histórias destas jovens que gostam de cantar encantou o mundo. Houve já uma sequela interessante, realizada por Elizabeth Banks, e agora as Bellas regressam para ma tour internacional.

 

Pitch Perfect é um dos meus grandes guilty pleasures. Naqueles dias de sofá, manta e chá, o que me apetece mesmo é ver um grupo de miúdas a cantar como se não houvesse amanhã. Por isso, estou muito entusiasmada com esta terceira parte.

 

Anna Kendrick, Rebel Wilson, Hailee Steinfeld, Britanny Snow e Anna Camp regressam, juntamente com todos os nomes que temos conhecido. E mais aventuras acaawesome nos esperam!

 

 

Estreia: 21 de dezembro.

 

 

Jumanji – Bem-vindos à Selva

 

 

Não é novidade para ninguém que não estou nada contente com este Jumanji. Sou uma fã gigante do original, com Robin Williams, e ver esta nova versão não me augura nada de bom.

 

Para mim, Jumanji é daqueles filmes que me ensinou a ter imaginação nisto de ver Cinema. Que um filme não tem de ser um espelho da realidade, e pode ser antes aquilo que gostavamos que fosse.

 

Apesar desta nova versão partir da mesma premissa (um grupo de jogadores de um uma versão eletrónica vê-se dentro do jogo e tem de o terminar), isso não significa que a veja com o mesmo espírito. Mas vou tentar.

 

Desta vez não temos Robin Williams, mas temos The Rock, Jack Black, Kevin Hart e Karen Gillian. Todos eles vão tentar sobreviver à selva, e tentar voltas às suas vidas. Conseguirão?

 

E eu, conseguirei sobreviver a este filme?

 

Estreia: 21 de dezembro.

 

 

Os Meninos que Enganavam Nazis

 

 

Preparem a lágrima no canto do olho, e o coração apertado. O Menino que Engava Nazis é daqueles filmes sobre a Segunda Guerra com crianças que nos vão fazer tudo isso.

 

É um filme francês que conta a história de dois irmãos judeus. Com coragem e determinação, vão tentar fugir de uma França ocupada e sobreviver aqueles que descriminam sem razão. E vão fazer de tudo para reencontrar a sua família.

 

Há 30 mil filmes que contam realidades da Segunda Guerra, e outros tantos que tentam ficcioná-la. Isso não significa que não seja importante continuar a falar sobre ela.

 

Por isso, vamos lá ao cinema, e chorar um pouco mais.

 

Estreia: 28 de dezembro.

 

 

O Grande Showman

 

 

E nada como uma musical mágico para terminar o ano! Daqueles cheios de brilho, espetáculo e muita luz, como se quer um inverno frio e escuro.

O Grande Showman promete isso mesmo, e talvez mais.

 

Primeiro, tem um elenco de luxo: Hugh Jackman, Michelle Williams, Zendayam Rebecca Ferguson e até um Zac Efron.

 

Depois, tem a história de uma homem que perde o trabalho e decide criar um espetáculo que chama a atenção de todo o mundo. Sempre com ambição, amor e muita música à mistura.

 

Há algum tempo que se ouve falar deste filme, e não posso deixar de estar algo curiosa. Os musicais são mesmo um fraquinho de tenho, e este parece-me ser daqueles perfeitos para um final de tarde de inverno.

 

Estreia: 28 de dezembro.

 

 

Já escolheram os filmes que vão ver antes de 2017 acabar?

O trailer de Jurassic World: Fallen Kingdom, e o ciclo da vida

Um título estranho, certo? É estranho falar do ciclo da vida como mote para dissecar o primeiro trailer de Jurassic World: Fallen Kingdom, a sequela de O Mundo Jurássico que nos fez acreditar novamente em dinossauros. Mas eu prometo que faz sentido.

 

Porque se já assistiram ao trailer, sabem que tudo o que vai importar neste novo filme é salvar os dinossauros. Claire Dearing (Bryce Dallas Howard) e Owen Grady (Chris Pratt) regressam ao parque temático quarto anos depois, com o objetivo de resgatar os dinossauros sobreviventes de uma eminente erupção do vulcão da Ilha Niblar.

 

 

Outra coisa estranha, não é? Se todos tiveram de sair da ilha porque os dinossauros andavam à solta e eram perigosos, agora vamos voltar para os salvar e começar tudo novamente?

 

Porque não?

 

Além da estranheza que dá mote ao filme, o bom deste trailer é que nos mostra já que podemos aguardar muita aventura, ação e animais em debandada. Além disso, tem o regresso de Jeff Goldblum no papel de Ian Malcolm, o que só pode augurar coisas boas.

 

Este tipo de comebacks, como aconteceu em Star Wars, é bem sucessido porque não esquece o que etá para trás. O Mundo Jurássico foi como uma celebração de tudo o que foi  criado anteriormente, desde o espírito à forma como  os atores se relacionam com os dinossauros.

 

Este Fallen Kingdom não parece ficar para trás. Novamente com o objetivo de salvar a memória do passado, regressamos à Ilha de Nublar, cheia de riscos e aventuras, porque acreditamos que estamos a fazer o mais correto.

 

O espírto de Parque Jurássico sempre foi muito esse: um filme cheio de aventuras, cujo objetivo, no fundo, era preservar a memórias dos dinossauros. Um espírito que tem sido muito bem desenvolvido nas novas sequelas.

 

É aí que entra o ciclo da vida.

 

Este vai ser o quinto filme sobre o Parque Jurássico. É o quinto filme sobre o conceito, e sobre até algumas das ideias e personagens que ficámos a conhecer nos primeiros filmes.

 

É natural que os acontecimentos se repitam, ou pelo menos que a linha de pensamento se mantenha.

 

Se virmos bem, Fallen Kingdom é quase  um pouco aquilo que aconteceu em Parque Jurássico II: uma ameaça externa está a pôr os dinossauros sobreviventes em risco. É formada uma equipa para tentar resgatar aqueles que conseguirem, e impedir que sejam novamente extintos.

 

Por um lado, parece que é apenas mais uma forma de fazer dinheiro, pegando num conceito que já foi feito. Por outro, segue naturalmente a linha de pensamento de um filme, e trata desta nova onda jurássica como um seguimento que não está diretamente relacionado com os primeiros.

 

O paralelismo que existe entre esta segunda saga e a primeira não me faz confusão. Aliás, acho que faz sentido.

 

Como disse em cima, o que de bom estes Mundo Jurássico e novo Stars Wars têm em comum é que bebem muito do original, sem perder a novidade. Não é um remake, nem um reboot; é um seguimento dos primeiros filmes, sem nos esquecermos que são um revitalizar daquilo que já existiu.

 

Gostei muito da forma como esta sequela foi apresentada, se bem que com algumas ressalvas (a sério que foram construir um parque temático numa ilha com um vulcão ativo?). Porém, tenho fé e esperança que nos continue a transportar para o mundo de fantasia que conhecemos, da mesma forma que o seu antecessor o conseguiu.

 

Por agora, teremos de aguardar. Fallen Kingdom tem estreia marcada junho de 2018. Além do protagonistas e do regresso de Jeff Goldblum, B.D. Wong vai regressar ao papel de Henry Wu e outros atores se juntam ao filme.

A vida é demasiado curta para más legendas e traduções

Na vida, temos de dar espaço aquilo que nos dá prazer. Bons filmes, boa comida, bons momentos. É uma máxima que gosto de respeitar, sobretudo quando parte dos nossos dias são inundados de trabalho e repletos de minutos solitários, entre nós e um computador.

 

Um bom filme, em casa ou no cinema, é um prazer incalculável. São horas de lazer máximo, onde a única coisa importante é o bom que retiramos daquele calor... que tantas vezes é arruinado por legendas que metem dó ao menino Jesus.

 

Este fim de semana, tão gélido na rua, pediu-me chá quente, manta nos joelhos e Super 8, de JJ Abrams, na TV. Eu fiz-lhe a vontade. Qual é o meu espanto quando estou a assistir ao filme e, quando uma das personagens diz ‘What is going to happen to me?’, a tradução dizia ‘ O que me vai suceder?’

 

Fiz um escândalo. Gritei pela sala, empurrei móveis e despejei o chá a ferver por cima da TV para não ter mais de ver traduções assim. Tentei respirar fundo, mas no meu âmago só me apetecia esmurrar, partir, estragar tal como tinham estragado a minha experiência.

 

Bem, não foi assim tão dramático. Isto aconteceu tudo na minha cabeça, mas na verdade só levei uma mão à testa e pedi misericórdia pela pessoa que tinha ousado fazer a legendagem daquele filme.

 

Porque quanto mais assistia, mais casos via, e mais vontade tinha de esmurrar alguém.

 

Pode não parecer, mas tenho um grande respeito por quem faz tradução. Além de ser necessário conhecer as línguas de uma ponta à outra, ainda têm de conhecer cultura e hábitos que as possam influenciar. Mais do que passar para português uma coisa falada em inglês, precisam avaliar oque faz sentido tendo em conta o contexto e personagens, e época.

 

A esta última parte dou muita importância. Mais do que uma tradução literal de tudo o que é dito, eu quero uma tradução verdadeira. Quero que aquilo que estou a ouvir seja precisamente aquilo que estou a ler, mesmo que as palavras não estejam a ser traduzidas completamente.

 

É um trabalho difícil, mas é necessário. Ver uma criança de 13 anos a dizer ‘O que me vai suceder?’ não é natural – é só parvo.

 

É parvo que algumas personagens acabem por dizer coisas que não só é impossível que façam parte do seu vocabulário, como não faz sentido na ocasião. O puto vai ficar sozinho numa zona de guerra, vai mesmo lembrar-se da palavra suceder?

 

Não; vai pensar em algo mais simples, mais direto e muito mais adequada ao seu léxico e até idade.

 

Quando digo que a vida é demasiado curta par amás traduções, estou mesmo a falar a sério. Apesar de respeitar quem tem este trabalho, e de saber em primeira mão que não é fácil, não posso desculpar quem não me ajuda a percecionar uma mensagem da melhor forma.

 

É claro que a opção é ver filmes sem legendas, mas se elas existem, porque é que tenho de tomar essa escolha? Enquanto espectadora tenho o direito a usufruir de um trabalho imaculado por parte de todos os intervenientes. Se exijo um bom filme, que não me faça disperdiçar o meu tempo, tenho de ter a mesma atitude para com aqueles que o tentam aproximar da minha realidade linguística.

 

Há muitos anos que já me desabituei a ler livros traduzidos para português. Tenho dado preferência aos originais, mas tenho a facilidade de me ser tão fácil ler em inglês como em português (com as devidas limitações). Sobretudo depois de ver algumas atrozes traduções, como alguém que decidiu traduzir ‘cold feet’ (uma expressão que significa que alguém se arrependeu, ou deixou de ter vontade ou motivação para fazer algo) por ‘pés frios’. Vá lá, isso é só gozar com as pessoas.

 

Ao longo do tempo tenho visto traduções semelhantes nas legendas de filmes. É terrível, sobretudo porque nem sempre quem está a ler tem o domínio da outra língua para perceber que está errado, ou não tão correto.

 

Se me perguntarem, tenho plena consciência que o exemplo que me fez saltar a boneca não está errado, ou mal traduzido. Suceder é uma boa tradução, mas não neste contexto. E encontrar a palavra correta é tão importante como escolher aquela que se adequa melhor à situação.

 

Isso sim, faz a diferença entre uma boa tradução, e apenas uma legendagem que me deixa perceber de alguma forma aquilo que estão a dizer.

 

E não me faz perder tempo e esforço a ler, quando podia apenas ouvir e ter uma noção muito mais acertada do que está a acontecer.

Sobre Nina, e uma Hollywood mais branca do que preta

Em 2016, a polémica estalou em Hollywood: com o lançamento do primeiro trailer do filme Nina, sobre os últimos anos de vida da cantora Nina Simone, descobriu-se que a atriz Zoe Saldana teve de utilizar maquilhagem e prótese para interpretar a protagonista. A sua pele era demasiado clara comparada com a de Simone, e o seu nariz muito pequeno - o que não impediu os produtores do filme de a escolherem. 

 

Com o lançamento do filme, vários foram os nomes que vieram dizer que não aceitavam a escolha de Saldaña para o papel. Notícias foram escritas, e grupos de Facebook a pedir o boicote ao filme surgiram, sem nunca comprometer o lançamento do filme. Atores juntaram-se e apoiaram Saldana, outros ficaram no silêncio. 

 

Na altura, sem conhecer o trabalho e vida de Simone, e sem ver o filme, não percebi bem o porquê da polémica. Claro que percebia que a utilização de maquilhagem poderia ser dispensada se tivesse sido escolhida uma atriz com uma pele mais escura e mesmo com ascendência africana (Saldaña é latina). Porém, sempre pautei por preferir discutir um assunto só depois de conhecer todos os factos - e isso implicava ver o filme. 

 

Tive a oportunidade de o fazer recentemente, quando estreou nos canais TV Cine. Assiti a Nina pela primeira vez, e pela primeira vez descobri um pouco de quem era Nina Simone. 

 

Não posso dizer que não tenha percebido o porquê das críticas. 

 

 Zoe Saldana no papel de Nina Simone.

 

O filme, enquanto obra cinematográfica, deixa muito a desejar. O argumento tem várias falhas, daquelas que nos fazem pensar que os acontecimentos são como folhas que atiramos ao ar, e que não têm qualquer ligação entre eles. Os personagens são pouco desenvolvidos, e perdem a força por causa disso. É um filme fraco, que nos deixa a pedir muito mais, e que acredito que não faça o jus necessário à obra e vida de uma artista como Simone. A própria relação que a artista partilha com o seu secretário Clifton Henderson (David Oyelowo) não fica bem percecionada, o que é uma pena.

 

Até porque, supostamente, era aquela relação na qual o filme se devia focar. Mas está tão pobremente construído, e tão confuso, que nunca chegamos a saber a motivação de ninguém, nem a sua importância nos acontecimentos que se seguiram. 

 

Mas há uma coisa muito poderosa neste Nina: a ideia de que a mulher negra tem tanto direito a ser vista, adorada e venerada quanto o homem branco. 

 

Sobretudo nos últimos anos, têm-se multiplicado os discursos sobre a representação feminina no cinema, e ainda mais  das mulheres de cor. Às vezes acho que os discursos que vemos nas redes sociais são exagerados - não porque não têm razão, mas porque depois, quando existe um caso como o de Nina, as críticas são multiplicadas a maioria das vezes sem razão.

 

Só que depois vi Nina. 

 

Não há dúvida de que, sem conhecer a figura de Nina Simone, me parece que Zoe Saldana faz um papel do caraças. Ela entrega-se a esta representação, e percebo porque é que a produção achou que ela fosse ideal. Ela dá em personalidade de entrega aquilo que lhe falta no corpo, e o corpo é fácil de corrigir, não é?

 

Então, que mal faz um pouco de maquilhagem e uma prótese?

 

Faz mal porque Nina Simone era orgulhosa da sua cor, da sua ascendência e da luta dos seus direitos. Era fervorosa apoiante de Martin Luther King, e as suas canções eram reflexo das suas ideias de valores. 

 

Não escolher uma atriz negra para desempenhar o seu papel, quando tantas existem, é insultuoso para esses valores que transmitia. 

 

 Nina Simone, numa imagem de arquivo.

 

Não deixa de ser importante colocar uma questão: mas se Zoe Saldana desempenha o papel tão bem, porque é que não merece a oportunidade de o fazer? Se de entre tantas outras atrizes foi a que melhor interpretou Simone, não será isso mais importante do que o seu corpo?

 

Uma parte de mim diz que sim. Acho que, acima de tudo, os atores devem conseguir desempenhar um papel de acordo com a personalidade da personagem, e a mensagem que tem de transmitir. Não me importo que uma personagem loira vire morena, ou que um magro fique gordo. 

 

Em condições normais, a escolha de Zoe Saldana parceria-me mais o que adequada. 

 

Só que neste caso há que ter em conta a pessoa que Nina Simone era, e aquilo que pregava. Se havia orgulho na sua pele e na sua cor, no seu corpo e formas, faz-me sentido que essa escolha também tivesse refletida na pessoa que a interpretava. O seu corpo também faz parte da mensagem e da sua personalidade. 

 

Provavelmente, se o filme estivesse melhor produzido, a questão não se colocava. Até porque Nina não é tanto sobre a vida da cantora, mas sim sobre a relação que teve com o seu secretário. Só que tudo se mistura, e deixa de fazer sentido. 

 

Em Hollywood, como no resto do mundo, ainda há muito para evoluir. Mas também nos cabe a nós, enquanto espectadores, ter um olhar crítico sobre cada uma destas questões. E quando vemos um filme que possa ser polémico, nós temos também de perceber se a polémica faz sentido, ou se é apenas mais um exagero das redes sociais.