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Fui ao Cinema... E não comi pipocas!

As aventuras e desventuras de uma miúda que se alimenta de histórias cinematográficas.

Fui ao Cinema... E não comi pipocas!

EM DVD: Mulher Maravilha não é só um “bom filme”, James Cameron

Quando Mulher Maravilha chegou às salas de cinema, fiquei possessa por não ter conseguido assistir. Todas as críticas eram muito favoráveis, não só sobre o filme em si, mas sobre o que representa para a evolução do papel da mulher no cinema.

 

Agora que já está disponível em DVD, finalmente pus-lhe os olhos em cima. E que olhos, senhores!

 

 

Assistir a Mulher Maravilha é como dar uma nova vida aos filmes de super-heróis. Ela é nova, é diferente e preseverante. É uma amazona, que sempre viveu e treinou para proteger a sua ilha e a humanidade. Isolada, ela é a inocente guerreira obrigada a lidar com a realidade do mundo além das suas fronteiras quando assume a missão de proteger os humanos de um ser maligno e que se alimenta do caos.

 

Ela é um fôlego fresco e querido neste mundo da pipoca.

 

Além da sua história repleta de mitologia e ação, é um filme extremamente equilibrado e muito bem feito. Apesar de ser sobre uma super-heroína como tantos outros, não cai naqueles facilistismos e estereótipos de que uma mulher tem de se fingir ou muito forte, ou muito emocional, para conseguir chegar onde quer. Nem tenta que seja algo mais do que aquilo que verdadeiramente é: um ser humano, como Bruce Wayne ou Steve Rogers.

 

Diana é quase realista. Mesmo sendo figura mitológica, é humana. Não é mulher, é um ser humano, com tudo o que isso implica. Só que tem poderes especiais que usa para salvar o mundo.

 

Mulher Maravilha, enquanto filme, fez História. Foi o filme com mais sucesso de bilheteira realizado por uma mulher e com uma mulher como protagonista. E isso é um feito do caraças.

 

Menos para James Cameron. O senhor, que anda ocupado a filmar duas (porque o primeiro filme não bastava) sequelas de Avatar em simultâneo, desde o verão que não tem medo de dizer a sua opinião Mulher Maravilha: para ele, é apenas um bom filme.

 

Na altura em que o filme saiu, Cameron disse em entrevista que Mulher Maravilha era um “passo atrás” na forma como as mulheres são vistas em Hollywood. Para ele, ela continua a ser “um ícone objetificado, e é o que a Hollywood dos homens faz sempre.”

 

Esta semana, o senhor reitera as suas palavras, acrescentando que o facto de Gal Gadot ter sido Miss Israel e andar com um corpete é prova suficiente para as suas palavras. Que é como quem diz que ela é apenas bonita de mais.

 

Para já, e como Patty Jenkins (a realizadora de Mulher Maravilha) respondeu e muito bem, deve ser complicado para Cameron perceber as repercussões da presença de Diana no grande ecrã porque, simplesmente, ele não é uma mulher. Torna-se complicado assim pensar como uma.

 

Mas que ele defenda que as mulheres têm de ter papéis mais fortes no Cinema, tudo bem, eu concordo. Só não concordo quando ele diz que Sarah Connor era mais forte do que Diana, só porque andava de calças e pistola na mão.

 

 

O facto de Mulher Maravilha ter sido um sucesso tão grande foi porque recebeu o mesmo tratamento que o Super-Homem, Batman, Thor, Homem de Ferro e todos os super-heróis de que se lembrem. Independentemente de ser uma mulher, o que prevaleceu foi a sua personalidade determinada e forte, e a capacidade de utilizar as suas emoções para salvar o mundo.

 

Quando Henry Cavill apareceu como Super-Homem as mulheres suspiraram. Muitas namoradas continuam a concordar em ver os filmes da Marvel porque o Capitão América e o Thor são dois pedaços de homem que nos levam ao paraíso. Se a Mulher Maravilha tem esse efeito no público masculino, epá, não podemos evitar.

 

Porem, ela não utiliza o seu corpo ou imagem para sua vantagem – tal como nenhum deles faz. Se o fato podia não ser um corpete? Podia, mas não lhe acrescentaria nada.

 

O Batman começou a ser um vingador porque viu os pais morrer. Clark Kent está em constante preocupação com a mãe. Um herói não tem de desistir das suas emoções para ser forte ou determinado – tem de saber agir com elas.

 

Para mim, ver Mulher Maravilha foi ver uma figura feminina a, para variar, ter um tratamento semelhante ao dos seus companheiros homens. Ela não ficou presa a estereótipos emocionais, não fugiu ao papel de mulher, e assumiu-se com a mesma força e respeito que todas as mulheres devem ser.

 

Por isso, caro James Cameron, Mulher Maravilha não é apenas um bom filme. É um filme de viragem. É um filme que mostra que não interessa se tens pénis ou vagina, a perceção que deve existir dos valores e potencialidades de cada um vem do interior, não do sexo ou concepções de género dadas pela sociedade.

 

Agora acorda, começa a pensar nos teus filmes como deve ser, e deixa os dos outros em paz – ao menos ainda não fizeram rip-offs de filmes da Disney mascarados de histórias revolucionárias.

Victoria & Abdul (2017) – uma bela história de amizade

Sinopse: Quando o indiano Abdul (Ali Fazal) descobre que tem de ir a Inglaterra entregar um presente à Rainha Victória (Judi Dench) em honra do seu Jubileu, achava que tinha apenas a oportunidade de ver um novo mundo. Mas uma série de acontecimentos faz com que nasça entre os dois uma improvável amizade, que põe a família real em alvoroço.

 

 

Victoria & Abdul é precisamente aquilo que aparenta ser: uma história de amizade e algum conflito, simples e, acima de tudo, repleta de boa disposição.

 

Mais do que isso, leva-nos numa interessante viagem pela Índia e Inglaterra victorianas, numa época em que o encanto da família real se sobrepunha muitas vezes à forma como o povo vivia. Vemos de perto o comportamento da Corte, e como isso pode influenciar a vida de todos a que o rodeiam.

 

A história é baseada no livro de Shrabani Basu, uma jornalista indiana que achou curiosa a presença de retratos de um criado indiano numa das salas da Isle of White, onde a Rainha passava férias. A sua pesquisa levou-a a descobrir uma amizade que a família real tentou por tudo apagar da História, mas cujos diários de Abdul (entretanto descobertos) preservaram.

 

No filme, de uma forma muito simples e direta, vemos a forma como a sua relação cresce, e como a vida de Victória muda com a presença de Abdul – o que torna tudo tão mais interessante.

 

Nesse aspeto, o cunho de Stephen Frears (o realizador) está muito presente. O britânico tem-se dedicado a realizar histórias baseadas em factos reais (A Rainha, Filomena, Vencer a Qualquer Preço...), sempre com um lado muito humano.

 

Este Victória & Abdul não é exceção. Uma das perspetivas mais interessantes é vermos como a Rainha vivia em praticamente clausura, e como os seus momentos de lazer eram escassos. Nota-se perfeitamente a alteração no seu dia-a-dia que Abdul traz, e como passa a ver  a vida de outra forma.

 

 

O facto de Judi Dench já ter interpretado este papel só leva também a criarmos um universo e realismo mais interessantes. Dench foi Victória em Sua Majestade, Mrs Brown, em 1997. A história é semelhante: quando o princípe Alberto morre, a Rainha encontra em John Brown, um dos seus criados, um ombro amigo que a faz sair do estado de solidão em que se encontrava.

 

Os paralelismos são evidentes, e muitos consideram Victória & Abdul uma sequela do filme de 1997. Não o sendo oficialmente, é inegável que a sua influência existe, não só no nosso universo (em que a Rainha Victória se torna muito mais real com a presença de uma interpretação tão semelhante e cuidada), mas também na história. Porque os acontecimentos ainda a marcam, e ainda fazem parte da sua vida.

 

No fundo, Victória & Abdul é um filme muito agradável e com uma belíssima mensagem. Não há um único momento em que não nos deleciamos com a possibilidade de a amizade poder nascer entre qualquer pessoa, independentemente do seu estatuto social e origem.

 

Os momentos de humor são muito engraçados, e é impossível não ter um constante sorriso na cara enquanto vemos crescer esta relação tão genuína.

 

Vejam. Vejam naqueles dias cinzentos em que tudo parece estar a correr mal.Vejam e acreditem que a amizade e o amor ainda são das coisas mais bonitas do mundo.

 

***

Kingsman: O Círculo Dourado (2017) - continuem a regressar, por favor

Sinopse: Depois da morte de Harry e da sua entrada ao serviço dos Kingsman, Eggsy (Taron Egerton) assiste a algo que não julgava possível: a destruição da sede e todos os escritórios Kingsman. Sem saberem para onde se virar, os únicos membros vivos descobrem uma organização irmã nos Estados Unidos, e juntos são os únicos que podem parar uma nova ameaça sobre a população da Terra. 

 

 

Não é segredo para ninguém que adoro comédias e filmes feitos para puro entretenimento. Sobretudo quando são tão irrealistas que quase se tornam reais, e têm um humor que roça o limite do aceitável, sem se tornar badalhoco. 

 

Em parte, juntamente com as suas cenas de ação super bem filmadas e uma aleatoriedade do caneco, isso foi o que me fez adorar Kingsman: Serviços Secretos. O filme de 2015 foi a primeira adaptação de uma banda desenhada britânica, que Matthew Vaughn escolheu escrever e realizar deixando de lado a possibilidade de ficar ao leme de um dos maiores blockbustes do mundo dos super-heróis: X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido. 

 

Tudo porque, na sua opinião e de Mark Millar (um dos autores da BD original), as histórias de espiões eram demasiado sérias. Faltava a James Bond e que tais o lado cómico e divertido que achavam que os espiões também tinham. 

 

E assim nasceu um dos mais interessantes filmes de espiões dos últimos tempos. 

 

Tal como o seu antecessor, O Círculo Dourado leva-nos numa viagem alucinante entre lutas, heróis, vilões e vítimas inocentes, sempre com um toque de charme de cavalheirismo britânicos. 

 

Só que desta vez com um toque country. Quando soube que iam replicar a fórmula de Kingsman a uma vertente norte-americana, fiquei com um pouco de receio. Mas depois de duas horas de pura comédia e entretenimento, tudo isso se tornou irrelevante. 

 

 

A comparação é inevitável: O Círculo Dourado é mais caótico do que o primeiro filme. Tem mais ação, mais cenas de luta alucinadas, mais barulho e explosões. Parece também ser mais disperso; quando que antes tínhamos um objetivo simples (uma história sobre um espião improvável que afinal salva o mundo), aqui parece que não existe um só foco. Temos uma história de amor por resolver, uma vilã para derrotar, uma memória para salvar… Tudo naquele espaço de tempo. 

 

O bom de Matthew Vaughn conhecer bem até onde quer levar a ação é que, de alguma forma, consegue que toda a confusão resulte. Mesmo que à primeira vista pareça mais desequilibrado e “desfocado”, não deixa de ser uma sequela que faz jus ao sucesso do antecessor. 

 

A forma como nos leva através da ação é icónica, e muito próxima do seu estilo. É um ritmo alucinante, a que se junta aquele humor tão negro, aleatório e rente aos limites perfeitos para um filme que não tem pretensões de ser mais do que aquilo que é: um divertido filme de espionagem. 

 

Sobretudo porque é muito baseado em todos os estereótipos que podemos imaginar. Desde o cavalheirismo britânico, ao hillbilly norte-americano, parece que põe o dedo em todas as feridas. 

 

O Círculo Dourado está cheio de surpresas dessas: pequenos pormenores que nos fazem rir sem percebermos bem porquê. É uma mistura entre humor fácil e inteligente que nos encanta, nem que seja porque conseguiram que Elton John protagonizasse alguns desses momentos. 

 

É um dos pontos altos do filme, juntamente com a vilã, Poppy. Julianne Moore faz uma vilã que, apesar de um pouco apagada (adorava que tivesse tido mais tempo de cena), faz as delícias de toda a gente. É genial a forma como nos engana com o seu sorriso inocente, enquanto manda matar alguém. Os seus argumentos até quase que parecem razoáveis!

 

 

Juntamente com o elenco a que já nos habituámos (e que continua spot on - sou fã do Taron Egerton!), a sua presença e dos novos personagens é muito interessante. Sem dúvida que os protagonistas continuam a ser os britânicos, mas Halle Berry, Channing Tatum, Pedro Pascal e até Jeff Bridges têm papéis muito interessantes na construção deste imaginário secreto americano. 

 

No fundo, Kingsman: O Círculo Dourado é tudo aquilo que esperávamos que fosse. Temos a comédia, a ação, o humanismo e os bons momentos que o primeiro nos deixou, com um twist diferente. Apesar de seguir a mesma fórmula e dos paralelismo que existem, continua a ser um bom exemplo de que a comédia de espiões, quando bem feita, é uma aposta ganha. 

 

Não vale a pena fazermos comparações, se ficou melhor ou pior do que o primeiro. É verdade que parte do prazer de assistir a O Círculo Dourado vem daquilo que já conhecemos, mas consegue viver por si só, levando-nos numa nova e alucinante viagem no seu táxi. 

 

E pelos vistos não vamos ficar por aqui. Vaughn diz que um terceiro filme é mais do que possível, e até quem sabe spinoffs e filmes dedicados à Statesman (a agência americana). Se é verdade ou não, ainda não sabemos, mas vamos ficar ansiosamente à espera.

 

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mother! (2017) - do odiar ao amar

Sinopse: Ela (Jennifer Lawrence) e Ele (Javier Bardem) são um casal isolado da sociedade, numa casa que ela quer que seja um paraíso. Mas a chegada de dois estranhos desencadeia uma série de eventos que põem em causa toda a sua felicidade. 

 

 

Podem acreditar em tudo o que leram: mother! não é um filme fácil de ver. E não é só porque Darren Aronofsky tem tendência para criar argumentos complexos e muito estranhos. 

 

mother! não é fácil de ver porque é visualmente complexo, confuso e cheio de cenas que são um murro no estômago. 

 

Mas não caiam no erro de achar que, só por isso, não merece o vosso esforço. Neste caso, não se fiem apenas na minha palavra, e vão ver o filme se sentem curiosidade. 

 

Porque eu gostei. Demorei algum tempo para perceber qual era a minha opinião, mas gostei. 

 

É que Aronofsky é daqueles realizadores que criam histórias e visuais que, quando batem, batem mesmo muito forte. 

 

mother! não é exceção. Concentrado na perspetiva dela (vamos chamar assim à personagem de Jennifer Lawrence, pois não existem nomes neste filme), a câmara segue-a de uma forma quase claustrofobia. Seguimos todos os seus passos, e percebemos sem qualquer dúvida que as grandes protagonistas são as suas emoções, revoltas e amores. 

 

 

Lawrence consegue na perfeição deitá-las cá para fora. Com uma expressão muito sua, dá-nos um pouco de tudo e de nada, enquanto a câmara faz o resto. 

 

Juntamente com isso, a casa onde vivem é o labirinto que percorremos. É uma personagem, e isso vamos percebendo à medida que somos introduzidos a cada momento. 

 

Sem qualquer recurso a banda sonora, Aronofsky conseguiu criar um clima de tensão constante, em que é a presença do som, sobre qualquer forma, que nos causa estranheza. No fundo, cria um ambiente que nos deixa conscientes da mudança. Tal como a protagonista, sinto-mo-la, e todas as emoções que a causam. 

 

E isso, para mim, foi um dos mais pontos mais fortes deste mother! - a proximidade quase colada a Ela. 

 

Todas as personagens têm o seu papel, mas é complicado desvendar a sua importância ou performance sem revelar um pouco da história - coisa que não gostava de fazer. 

 

 

Numa entrevista, Lawrence afirmou que, na sua opinião, saber a base do argumento pode ser uma ajuda para ver o filme de uma outra perspetiva logo de início. 

 

Concordo. Sabendo, ultrapassamos a sensação de estranheza e “onde é que me meti” que temos assim que o filme começa. 

 

Porém, acho que parte da experiência é tentar compreender onde é que isto vai chegar. Faz parte da experiência perceber quem é Ele, quem é o casal mistério (interpretados na perfeição por Michelle Pfeiffer e Ed Harris), porque é que tudo aquilo acontece. Acho que, no final, é fácil de compreender. 

 

Até porque Aronofsky quer que se perceba. Criou o ambiente e personagens que nos são próximas, e eventos mundanos para originar uma história além da humanidade. 

 

É claro que sempre com uma ajuda do caraças: a cinematografia é incrível, e não há um ator que não esteja irrepreensível (há alguma coisa que Pfeiffer não faça bem?). 

 

No geral, é verdade: mother! não é um filme fácil, nem para toda a gente. É estranho, complexo, tem o seu quê de confuso e é completamente WTF. Mas é uma experiência. 

 

E uma experiência do caraças.

 

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O Cinema também pode ensinar

Uma das coisas que sempre gostei no Cinema, nesta arte de contar histórias em filmes, é a sua capacidade de nos ajudar a aprender.

 

Lembro com uma certa nostalgia entrar na sala de aula, ainda na escola, e ver uma televisão em frente ao quadro. Mais do que uma aula em que a professora não ia falar muito, era um momento em que sabia que o filme ia ser o professor.

 

Vi sempre como mais do que uma ferramenta de entretenimento. Sobretudo alguns filmes próprios, como os de época, ajudam-nos a conhecer melhor alguns hábitos e tempos diferentes do nosso, de uma forma que dificilmente conseguiriamos utilizando outro recurso. Os livros e as fotografias podem funcionar muito bem, mas um filme é movimento, é pessoas a falar e a andar, a sonhar e a viver.

 

No fundo, passa por nós tentar perceber como é que a realidade molda a ficção, e esse descortinar sempre me fascinou.

 

Foi por isso com muito prazer que aceitei o convite da STW e da NOS Audiovisuais para assistir à antestreia de Victória & Abdul, o novo filme de Stephen Frears.

 

 

O filme conta a história da amizade entre a Rainha Victória e Abdul Karim, um criado indiano que chega a Inglaterra com o próposito de homenagear a rainha, e fica como um dos seus amigos mais próximos.

 

Os mais atentos podem ver em Victória & Abdul um paralelo com Sua Majestade, Mrs Brown, o filme de 1997 protagonizado por Judi Dench. Não é erro de memória: de facto, o filme deste ano não só traz de volta Dench no papel da monarca britânica, como faz referência a Brown. Se no primeiro, Victória chorava a morte do marido e encontrou em Brown um ombro amigo, em Victória & Abdul a rainha vê-se num reinado sem fim, controlada por toda a casa, e Karim é o único que a faz sorrir.

 

É claro que parte de nós ter o olhar crítico necessário para perceber o que é realidade, e o que o que pode ser ficcionado. Sobretudo num filme que se diz baseados em eventos que aconteceram mesmo, devemos ter atenção que o Cinema é uma arte, que pretende passar uma mensagem.

 

Porém, é impossível não ver um filme destes sem ficarmos espantados com todas as diferenças que existem entre o ontem e o hoje. Há hábitos diferentes, comportamentos inaceitáveis que hoje são normais, ideiais e crenças muito distintas.

 

Há também as conclusões habituais de que a tecnologia nos veio fazer um favor. Se no século XIX a Rainha de Inglaterra não sabia o que era uma manga e não sabia nada sobre a Índia, hoje temos uma fonte inesgotável de conhecimento na ponta dos dedos – e mangas em todos os supermercados.

 

Mais do que um filme que entretem, é impossível não olhar para Victória & Abdul com o olho de quem pergunta “será que era mesmo tudo assim, tão diferente e rígido”?

 

Olho para filmes como este com a ideia de que são ótimas ferramentas para ficarmos curiosos sobre a forma como antes se vivia. Mesmo que nem todos sejam o mais próximo da realidade possível, a verdade é que nos dão a curiosidade e o bichinho necessários para investigar mais e aprender mais sobre o que verdadeiramente aconteceu.

 

Foi o que aconteceu, por exemplo, com Dunkirk, em que quis assimilar o máximo de conhecimento sobre essa batalha depois de ver o filme.

 

São introduções a novas matérias e ideias, e é disso que precisamos. Por isso, não me venham dizer que o Cinema não nos ensina nada!

 

Victória & Abdul estreia a 28 de setembro nas salas de cinema.

It (2017) - um susto de filme

Sinopse: em Derry, nos Estados Unidos, uma série de desaparecimentos de crianças deixa a cidade assustada - mas os únicos que parecem reparar são 7 adolescentes, vítimas e bullying e todos com os seus problemas. É quando se juntam que se apercebem que alguma coisa de errada existe na cidade, e essa coisa tem a forma de um palhaço que regressa a cada 27 anos… Serão os únicos a conseguir derrotá-lo?

 

 

Começo com uma confissão: escrever sobre este It não é fácil. A expectativa era imensa, depois de um trailer intenso e de uma maratona de leitura de mais de 1300 páginas. Ler o It de Stephen King foi mesmo uma maratona daquelas complicadas, mas o livro tornou-se um dos meus favoritos do ano. O filme seria um complemento visual dessa obra. 

 

Esperava eu.

 

O filme, realizado por Andy Muschietti, é levemente inspirado pelos eventos do livro. E vamos dizer “levemente inspirado” para que nos consigamos abstrair de que, de facto, que poucos são os eventos de um que vemos no outro. 

 

É que fora isso, It é um filme de terror daqueles que vale a pena ver, e que quer tocar num ponto interessante.

 

Porque não é um filme de terror convencional. Fugindo das cores escuras e dos momentos de suspense demasiado dramáticos, It leva-nos numa viagem a Derry com tudo aquilo que isso implica: um cidade em pleno verão, luminosa e quente, com miúdos que andam de bicicleta, riem e divertem-se com os seus amigos.

 

Podia ser mais um filme sobre crianças a crescer numa cidade. Mas não é, porque estas crianças veem um palhaço assustador a cada esquina. E quando digo que é em cada esquina, é quem cada esquina. Além disso, mais do que um palhaço ou um monstro assustador, veem personificações dos seus traumas de infância, daquilo que realmente os assusta no seu âmago.

 

Muschietti brinca com a câmara com uma leveza extraordinária para nos assustar. É aquilo que nos mostra, e como nos mostra, que nos mete medo. É o crescendo de música que nos avisa que, muito provavelmente, daqui a pouco tempo vamos dar um salto da cadeira. É o ângulo que nos faz sentir pequenos quando It decide dar um ar de sua graça. É o apagar e acender de luzes que nos mostra um monstro terrível no ecrã.

 

 

De facto, é da responsabilidade de Muschietti o facto de It ser um filme visualmente assustador. No fundo, o que nos assusta na história de King é a invulnerabilidade das crianças, a imprevisibilidade, e o conhecimento de que existe um mostro que sabe perfeitamente como nos assustar.

 

Porém, aqui conseguimos que essa imprevisibilidade nos atinja como um bom filme de terror consegue: com olhos em sítios escuros - parafraseando. 

 

It consegue ser um filme excelente porque não existe dúvida que tem um equilíbrio perfeito entre o humor, a relação de amizade e o medo que Pennywise nos transmite. 

 

Além disso, tem um Pennywise que deixaria Tim Curry (que interpretou o palhaço na mini-série de 1990) mais do que orgulhoso. Bill Skarsgård foi uma escolha incrível para o papel. O seu olhar e o sorriso atravessado tornam-o mais assustador do que qualquer maquilhagem, e toda a interpretação está próxima daquilo que imaginava. Rouba totalmente o show. 

 

O mesmo acontece com o Losers’ Club. Apesar de personalidades ligeiramente distintas do que tinha na minha cabeça, conseguiram desempenhar o seu papel e dar-nos momentos de humor mais do que interessantes. 

 

 

Saí da sala com uma certeza: adorei o filme. Todas as peças se juntavam e faziam sentido, e não há dúvida de que Muschietti sabe bem o que faz. É a sua direção e visão, em conjunto com a interpretação de Skarsgård, que para mim tornam It tão icónico.

 

Tenho pena que a adaptação do livro de King não tenha sido mais fiel. É verdade que adaptar um livro com mais de 1300 páginas não é tarefa fácil - sobretudo um filme como It, cheio de pormenores, contexto e muita informação. 

 

Mesmo assim, existem eventos e momentos que podiam ser muito mais fiéis ao livro do que aquilo que são na verdade. 

 

Porém, as diferentes fases de produção, e a visão de Muschietti, trouxeram uma perspetiva diferente à história, não necessariamente má. A verdade é que Pennywise vai além da figura do palhaço que ficou tão celebrizada - ele é a representação dos nossos medos. Se King utilizou figuras polémicas da época para assustar as crianças (lobisomens, pássaros gigantes, monstros), o novo argumento opta por ir mais longe, à alma e verdadeiros receios de cada um. Nesse aspeto, é uma história mais negra, mais assustadora, porque mostra perfeitamente que Pennywise conhece demasiado bem os miúdos que quer assustar. 

 

São duas obras diferentes, com a mesma base. O espírito continua bem presente, e fico muito curiosa por saber o que vão fazer no capítulo 2 - sim, vai haver uma “sequela”.

 

Isto tudo para dizer: vão ver. Vão ver, assustem-se e tenham pesadelos com palhaços durante semanas. Vai valer a pena.

 

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Sorte à Logan (2017) – uma sorte não ter sido um azar

Sinopse: Jimmy Logan (Channing Tatum) tem um plano para dar uma volta à sua vida depois de perder o emprego: assaltar uma pista de automobilismo em dia de corrida. Para isso vai precisar da ajuda do irmão Clyde (Adam Driver) e de um perito em abrir cofres, Joe Bang (Daniel Craig). Mas uma série de eventos faz com que o assalto tenha de acontecer durante uma das mais importantes corridas de NASCAR.

 

 

Lembram-se de dizer que estava muito entusiasmada com este filme? O regresso de Steven Soderbergh ao grande ecrã avizinhava-se algo muito bom, ou pelo menos foi a ideia que tive do trailer. Porém, fugiu um pouco aquilo que estava à espera.

 

De uma forma geral, Sorte à Logan é um filme interessante, com uma premissa que não é nova e uma ação que temos visto repetida desde a estreia de Ocean’s 11, em 2001. No fundo, é mostrar-nos como é que um assalto aparentemente impossível pode, ou não, resultar, e as suas consequências.

 

Com bons twists e um fim que deixa muita coisa em aberto, Sorte á Logan é quase como um passo em frente depois da trilogia original de Soderbergh. Não lhe quero chamar um Ocean’s 2.0 (se bem que essa piada é feita no próprio filme). Mas a verdade é que parece que, de alguma forma, o realizador elevou a fasquia neste caso.

 

Só que a trilogia Ocean tinha um ritmo e uma ação muito bem definidas. Era acelerado, com a câmara sempre em movimento, com a ação muito bem cronometrada, o que fazia com que os filmes não se tornassem secantes. Também fazia com que nos sentissemos sempre em paralelo com o grupo de assaltantes, e com as suas ações; mais do que meros espectadores.

 

 

Em Sorte à Logan, senti falta disso mesmo: de uma ação que me fizesse querer estar sempre atenta. Não sei se foi porque este filme tinha claramente um ambiente mais hillbilly (e, esteriotipicamente, mais “lento”), ou por ter um argumento algo longo. A verdade é que pareceu que nunca mais acabava, e que o assalto nunca mais era feito.

 

Mas a sorte de Sorte à Logan (ou a mestria de Soderbergh) é que nunca nos faz ansiar pelo final. A interação entre as personagens é tão natural, e existem tantos momentos de bom humor, que continuamos a ver sem pensar em mais nada.

 

A escolha do elenco foi acertada em todos os papéis. Dos mais importantes aos que fazem apenas uma pequena participação (como Seth Macfarlane ou Hilary Swank), cada um dos atores faz todo o sentido para aquele papel. Até o sotaque americano de Daniel Craig está acertado – sobretudo quando estamos habituados a vê-lo cheio de classe e glamour em 007.

 

Podemos dizer que Soderbergh regressou com todas as suas forças. Apesar de se ter mantido afastado do grande ecrã nos últimos anos (Por Detrás do Candelabro foi o último filme que realizou, em 2013, e foi lançado diretamente na TV), não lhe perdeu o jeito. Apesar de Sorte à Logan estar longe de ser um filme perfeito, não deixa de ser um belo exercício de cinema.

 

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Especial It: o filme de terror mais esperado do ano

Pelo menos, é um dos filmes que mais expectativa tem gerado. Mas já falta pouco para dissiparmos todas as dúvidas, porque é a 14 de setembro que finalmente It chega às salas de cinema portuguesas!

 

Desde que o primeiro trailer foi lançado, em março deste ano, já foi visto mais de 30 milhões de vezes, e passou a ser considerado  o filme de terror que todos temos de ver em 2017.

 

Eu fui uma daquelas que ficou de boca aberta com aquilo que vi. Como já disse por aqui, adoro filmes de terror, sobretudo quando mexem com a mente e natureza humana. Pouco sabia sobre It até então, mas adorei a ideia de um palhaço assassino. Também conhecia por alto a figura de Tim Curry no papel de Pennywise (sim, o palhaço) na mini-série que foi lançada em 1990, mas o meu conhecimento acabava aí.

 

 

Então descobri que se tratava de uma adaptação de um livro de Stephen King, e tomei a empreitada (após uma ótima sugestão) de ler as suas mais de 1300 páginas. E foi um dos melhores livros que li este ano.

 

Por isso, e porque estou muito, muito, muito entusiasmada com este filme (e as reações têm sido ótimas), começa hoje um especial sobre It, que vai contar com a review ao filme, uma comparação com a mini-série e... qualquer sugestão que gostassem de ver aqui no blog sobre esta peça de arte!

 

 

O filme

 

A premissa parece muito simples: no verão de 1957, uma série de misteriosos desaparecimentos e assassinatos de crianças começam a acontecer em Derry, uma pequena cidade dos Estados Unidos. Quando toda a cidade parece estar adormecida para a sua importância, um grupo de sete jovens vitimas de bullying percebe que há qualquer coisa à solta pela cidade. E são eles que vão tentar descobrir, e destruí-lo.

 

Escusado será dizer que essa qualquer coisa é um monstro sem forma que gosta de assumir a figura de um palhaço para atrair crianças.

 

Se ficaram assustados por saber que o livro original teria mais de 1300 páginas, nada temam: o livro conta esta história, mas também tudo o que aconteceu depois. É que o It tem a mania de aparecer de 27 em 27 anos, e no livro conhecemos ainda o que acontecem 27 anos depois destes eventos.

 

O Loser's Club (como se auto-intitulam) em 1957. 

 

A produção do filme decidiu basear-se apenas nos acontecimentos de 1957. Porém, uma sequela já está a ser preparada para adaptar o resto da história, e dar-nos um pouco mais sobre as origens de Pennywise, o aterrador palhaço.

 

Aliás, o palhaço é a melhor referência para este It.

 

Desde a mini-série de 1990, e da maravilhosa interpretação de Tim Curry, que vive no imaginário e pesadelos de quem o conhece. Apesar de assumir várias formas ao longo da história, é como palhaço que nos atrai – e o pior é que esse é sempre o seu objetivo.

 

A figura de Pennywise é tão marcante, que o filme de It está a ser pensado desde 1990.

 

 A interpretação de Tim Curry, em 1990, deixou muitos com pesadelos marcantes.

 

Foi Cary Fukunaga quem originalmente começou a pegar no projeto, e durante vários anos foi o realizador escolhido para a trama. Mas em 2015, devido a diferenças de opinião com o estúdio, foi substituído por Andy Muschetti.

 

A sua presença ao leme do projeto deu-lhe um novo alento, até porque Muschetti foi o responsável por Mamã. O filme de 2013, protagonizado por Jessica Chastain e Nikolaj Coster-Waldau (o Jaime Lanister de A Guerra dos Tronos), recebeu vários elogios. Existe uma grande curiosidade para saber como pegou nesta história.

 

Alguns já puderam saciar essa curiosidade, pois It já estreou em vários países. A critica tem sido muito favorável, e o público tem estado ao rubro. Multiplicam-se as notícias de palhaços no desemprego!

 

Por cá, a estreia foi adiada para dia 14 de setembro – o que significa que está mesmo quase!

 

Quem é que vai assistir?

Estreias da semana – o que podem ver no cinema

Mais uma quinta-feira, mais uns quantos filmes a estrear nas salas de cinema.

 

É já um ritual semanal esperar pelas quintas-feiras para descobrir qual é o filme, ou filmes, que me vão fazer querer gastar tudo o que tenho na carteira (que isto de ir ao cinema não é barato) – e quase sou obrigada a fazer uma seleção criteriosa.

 

Por isso, se me acompanham nesta demanda de tentar perceber quais são os filmes que vão valer a pena ver no cinema, fiquem com alguns daqueles que chegam esta semana.

 

 

150 Miligramas

 

 

O filme francês lançado em 2016 (!) chega finalmente a Portugal. Conta a história verídica de Irène Frachon, uma médica especialista em doenças pulmonares que começa a relacionar uma série de mortes misteriosas com a toma de um certo medicamento. Sozinha, tenta lutar contra a indústria farmacêutica, num caso que se torna mediático.

 

Pelo trailer parece um simples filme “baseado em factos reais” (cá vamos nós outra vez...), mas com uma história poderosa. Poderá ser interessante para o fãs do género, e que não resistem a uma boa luta contra o sistema.

 

 

9/11

 

 

Um grupo de pessoas vê-se presa num dos elevadores da Torre Norte do World Trade Center no momento em que o avião derruba a torre. Também inspirado em factos verídicos, conta a sua história e o que viveram para sobreviver às horas que se seguiram.

 

Confesso que os filmes sobre o 11 de setembro já não são a minha praia. Os norte-americanos têm o hábito de os tornar demasiado dramáticos e pesados, mártires e sensaborões – o que eu compreendo, é um evento que ainda hoje tem um grande peso na sua memória.

 

Pessoalmente, costumo evitar estes filmes. Porém, 9/11 parece ter uma carga e produção interessantes, e traz de volta uma Whoopi Goldberg da qual já tinha saudades.

 

 

Uma Viagem a Espanha

 

 

Steve Coogan e Rob Brydon estão de volta para mais uma viagem. Este é o terceiro filme de uma série que conta as viagens dos dois britânicos a vários pontos do globo, enquanto se entretem a comer em restaurantes locais. Desta vez o destino é Espanha.

 

Mea culpa: há muito que oiço falar desta série, e nunca cheguei a ver nenhum dos antecessores. Quando comecei a ler sobre A Viagem a Espanha, adorei a ideia de ter versões semi-ficcionadas dos dois personagens, num filme que vive sobretudo da sua relação. Sou fã do Steve Coogan há vários anos, e o humor britânico é algo que acho irresistível.

 

Por isso, mesmo que não seja em sala, este vai ser um daqueles que não quero mesmo perder!

 

 

Os Crimes de Limehouse

 

 

Uma série de assassinatos da Londres de 1880 assusta a população. Joh Kildare (Bill Nighy) fica responsável pela investigação, que aponta sempre para o Golem de Limehouse, uma criatura lendária do passado.

 

Bill Nighy estará sempre no meu coração, bem como estes filmes que jogam com o mistério, policial e imaginário/realidade. Apesar de não me ver a correr ao cinema para assistir, é um filme que me vejo a ver naqueles dias em que só nos apetece um filme interessante e sem expectativas.

 

 

Renegados

 

 

Um grupo de SEALs da Marinha norte-americana está em missão na Europa no momento em que descobrem um tesouro no fundo de um lago. Reza a lenda que esse tesouro seria ouro roubado pelos Nazis. Numa tentativa de ajudar a população local, a equipa decide ignorar as suas ordens e fazer de tudo para recuperar aquele ouro.

 

Se não fosse pelo facto de ter visto este trailer antes de assistir a O Assassino e o Gaurda-Costas, muto provavelmente ia passar-me ao lado. Não é o meu tipo de cena, e a verdade é que o trailer não me chama a atenção por aí além. Apesar de ter uma premissa interessante e até ligeiramente diferente do habitual no que toca a ação com exércitos, não deixa de ter aquele feeling de heróis da pátria ao qual tenho andado a fugir ultimamente. Mas quem sabe...

 

 

Sorte à Logan

 

 

Os irmãos Logan têm um plano: assaltar a rede de apostas de uma corrida automóvel. Numa série de eventos, descobrem que têm de o fazer durante uma das mais conhecidas corridas de Nascar. Com eles terão a ajuda de um demolidor, e a ameaça de uma investigadora do FBI.

 

Este sim, é um dos filmes que mais aguardo esta semana, e aquele que me vai fazer ir já ao cinema! Começa pelo elenco, que conta com Channing Tatum, Daniel Craig, Adam Driver, Seth Macfarlane, Hilary Swank, entre outros. Depois, é realizado por Steven Soderbergh, o homem perito em trazer-nos filmes com assaltos improváveis (não fosse ele o responsável pela trilogia Oceans’ 11, 12 e 13).

 

Tenho ótimas expectativas, e espero cumpri-las!

 

 

Una

 

Una (Rooney Mara) é uma jovem cheia de perguntas. Em busca de respostas, encontra o local de trabalho do homem com quem manteve uma relaçaõ sexual aos 13 anos, e que inesperadamente a abandonou.

 

A sinopse pode parecer simples, mas o trailer é muito mais intenso. Já tinha ouvido falar de Una, mas foi este artigo que me fez ver o trailer pela primeira vez. Escusado será dizer que fiquei curiosa.

 

Além de gostar de Rooney Mara e da particularidade que consegue dar a cada papel (quem esquece a sua Lisbeth?), é um drama ligeiramente tabu, mas interessante. Por isso, é possível que lhe dê uma hipótese no futuro.

 

E vocês, já escolheram que filme vão ver esta semana?

ZOOM-IN: são os filmes mesmo “baseados em histórias verídicas”?

Todos nós gostamos de um bom filme baseado numa história verídica. Quase sempre inspiracionais, com grandes heróis e histórias que nos tocam no coração, são comuns no mundo do cinema.

 

Sobretudo em Hollywood, em que cada filme é uma aposta no sentimento do público, estas histórias são cada vez mais recorrentes.Tornou-se comum vermos pelo menos um filme baseado na realidade nas salas de cinema por semana.

 

Não é de estranhar: sabermos que aquelas histórias aconteceram mesmo faz-nos torcer mais por cada personagem, e até nos identificamos mais facilmente.

 

Além disso, é como se a história ganhasse toda uma credibilidade que não teria se aquela frase não estivesse nos poster. Ou acham mesmo que iam acreditar que a criança foi curada milagrosamente se não soubessem que existiu e aconteceu?

 

 A Evocação, de 2013, é baseado em factos verídicos. A história é baseada nos diários de Ed e Lorraine Warren, investigadores paranormais. Os eventos também já tinham sido contados em livro por uma das habitantes da casa, e testemunha dos eventos.

 

Desde o início do Cinema para as massas que é comum utilizar eventos verídicos como base de enredos e argumentos. A necessidade de levar pessoas às salas, de fazer com que se lembrem dos filmes, ou apenas o querer contar uma história inspiradora são formas de fazer do Cinema uma arte lucrativa.

 

Mas então, é tudo uma jogada?

 

Da psicologia ao marketing

Não necessariamente. Seria errado da minha parte dizer que todos os filmes baseados em factos verídicos foram produzidos com o intuito de vender. É natural que bons profissionais queiram criar boas histórias, e não há melhor inspiração do que a realidade.

 

Porém, é falácia acharmos que a frase “baseado em factos reais” não joga no nosso inconsciente de forma a levar-nos a gostarmos mais de um filme em deterimento de outro puramente imaginado.

 

Ou pelo menos, é errado pensarmos que a sua presença no início do trailer, ou nos posters que encontramos na rua, esteja lá apenas para informar.

 

É natural que saber que algo que aconteceu mesmo nos impressione mais do que a pura imaginação. A imaginação pode fazer-nos elogiar a forma magnífica como está criada, a produção por detrás – vejamos o exemplo de A Origem, de Christopher Nolan.

 

Por outro lado, quando sabemos que aconteceu pensamos sempre primeiro na própria história, os feitos de quem a viveu, e como é que a adaptação pode estar feita. Emocionalmente ficamos mais próximos da ação, chega-nos mais ao coração e vai além do “bolas, isto está muita bem contado!”

 

Mas um filme baseado em factos verídicos não é um documentário, e cabe-nos a nós sabermos onde acaba a fantasia, e começa a realidade.

 

A realidade e a ficção

Dunkirk, o mais recente filme de Christopher Nolan, conseguiu jogar bem com essa dualidade entre realidade e ficção.

 

Nolan construiu um filme assumiadamente baseado no que aconteceu em Dunquerque durante a Segunda Guerra Mundial. Usou os dados que temos todos disponíveis, e as informações conhecidas, para nos dar a história dos sobreviventes, soldados e civis, que fizeram parte da história. Não deu nomes reais às personagens, nem se centrou em eventos que podem ter acontecido.

 

Em vez disso, criou uma ação baseada em personagens-tipo neste contexto, com eventos que algumas testemunhas possam ter vivido. Apesar de não darmos um nome real, as imagens que vemos são representativas do que aconteceu.

 

 Diz-se que O Resgate do Soldado Ryan é inspirado na vida de quatro irmãos que foram destacados para a guerra. Quando três deles perderam a vida, o quarto voltou para casa. 

 

Em entrevista, Nolan afirma que o fez de propósito. Na sua perspetiva, explicar de forma ficionada o que aconteceu em Dunkirk ajuda a que o pública consiga concentrar-se mais emocionalmente nesses eventos, do que se contasse apenas os factos.

 

Em histórias como as de Dunkirk ou O Resgate de Soldado Ryan, de Steven Spielberg, consegue-se jogar melhor com esta dualidade. São formas diferentes de nos dizer que são baseados em factos verídicos, sem perdermos a noção de que se trata mesmo de um evento que aconteceu.

 

Quando falamos em ações ou relações entre pessoas, esta perspetiva pode mudar.

 

Nesse caso, está tudo nas personagens. São elas, as suas ações e palavras, que nos vão convencer de que tudo aquilo é verdadeiro. Sobretudo quando são figuras bem conhecidas, ou das quais temos uma certa perspetiva, é importante sabermos bem como contar o que queremos. Se se dá o caso de não estar bem contada, mais tarde ou mais cedo se saberá.

 

Na minha opinião, é o grande mal de filmes que tentam contar a verdade: nunca sabemos onde acaba a realidade e começa a ficção.

 

Há quem consiga dar-lhe a volta de forma inteligente – como em Victoria e Abdul, o filme de Stephen Frears que estreia no final de setembro.

 

O filme tem suscitado alguma curiosidade precisamente por se tratar de uma relação verídica. A história é baseada no livro com o mesmo nome de Shrabani Basu, que conta a relação entre a Rainha Victoria e Abdul Karim, um jovem indiano que a serviu e acompanhou nos últimos anos de reinado. A relação suscitou críticas e algum constrangimento no seio da família real, e tentou ser apagada até agora.

 

 Pouco se sabia sobre a relação da Rainha Victoria com Abdul, mas isso vai mudar com o filme. Estreia no final de Setembro, e é realizado pelo homem que nos trouxe A Rainha e Philomena.

 

O mais interessante nesta história é que vai ao encontro do que já conhecemos da Rainha Victoria. Judi Dench, que interpreta a monarca, vai repetir o papel que interpretou em Sua Majestade Mrs Brown, de 1997. A história era semelhante: depois da morte do marido, é Mr. Brown, um dos seus criados, que consegue que a rainha recupere a vitalidade.

 

O bom de Victoria e Abdul é que vai conseguir dar-nos os dois lados da moeda: conta-nos uma história real, enquanto mantem viva a consistência e semblante que já associamos à rainha. De uma forma diferente de Dunkirk, joga com a realidade (as relações da Rainha Victoria) e ficção (a interpretação de Judi Dench) sem que uma invalide a outra.

 

Como praticamente toda a gente, gosto de uma bom filme que me conte a realidade. Porém, ao longo dos anos, tenho ficado um pouco desiludida com esta constante necessidade de utilizar a expressão “baseado em factos reais” mais como bandeira de promoção, do que vontade de criar uma boa história. Além disso, contam-se pelos dedos das mãos aquelas que são verdadeiramente reais, e cuja liberdade criativa tem-se em demasiada boa conta.

 

Tenho vindo a gostar mais destes mistos entre realidade e ficção, assumidos mixes. Aconteceu-me com Dunkirk e Moonlight (que foi inspirado pela vida do realizador e argumentista), e penso que me vai acontecer com Victoria e Abdul. Neste último caso, não tanto por achar que a história é ficcionada (apesar de ser apenas baseada nos diários de Abdul), mas mais por achar interessante manter a identidade de Judi Dench enquanto Victoria.

 

E vocês: preferem uma história imaginada, ou aquelas que nos contam a realidade?

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