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Fui ao Cinema... E não comi pipocas!

As aventuras e desventuras de uma miúda que se alimenta de histórias cinematográficas.

Fui ao Cinema... E não comi pipocas!

Drive In #11 - 10 Coisas Que Odeio Em Ti

Lembram-se de 1999? A população mundial ultrapassou os seis milhões, a Barbie celebrou o seu quadragésimo aniversário, nasceu o Bluetooth e o MySpace, a primeira volta ao mundo em balão é finalmente bem sucedida e Lance Armstrong ganhou a sua primeira Tour de France. Tudo acontecimentos importantes, sem dúvida… mas nenhum deles bate o lançamento de um dos teen movies mais icónicos dos anos ‘90: 10 Coisas Que Odeio Em Ti.

 

 

 E, por acaso, faz 17 anos que esta obra, que marcou a nossa pré-adolescência, foi lançada nos Estados Unidos. É ou não é motivo para lhe dedicar um Drive In?

 

O filme foi livremente (e não digo isto à toa!) adaptado de uma peça de Shakespeare, The Taming of the Shrew. As referências ao velho Will estão por todo o lado: o apelido das manas Katherina e Bianca diz respeito a Startford-Upon-Avon, a cidade que viu o poeta nascer - e os seus nomes próprios correspondem aos da peça original. Já Padua, o liceu, é a cidade onde The Taming of the Shrew se desenrola. E Verona, o último nome do personagem de Ledger, é o local que viu o amor de Romeu e Julieta tornar-se imortal. Não dá para dizer que estas argumentistas não foram subtis.

 

E, por acaso, também foram espertas: inicialmente, o argumento era um pouco mórbido, com referências a tentativas de suicídio de uma personagem secundária mas, felizmente, deram a volta à coisa e decidiram por uma versão mais ligeira e com um moço jeitoso no papel principal.

 

Tanto Josh Harnett como Ashton Kutcher fizeram audições, mas foi Heath Ledger, com aquele cabelo ondulado e o sorriso sexy, que acabou por se tornar Patrick Verona (e a minha primeira crush cinematográfica a sério. Não consegui resistir ao swag tão típico de 1999). Patrick chega ao liceu de Padua com fama de bad boy - que, como toda a gente sabe, é simplesmente irresistível -, e rapidamente ganha a admiração de toda a gente...excepto Kat.

 

 

Kat Stratford - interpretada na perfeição por Julia Stiles - é finalista, uma miúda super independente, que diz o que pensa, não faz nada só porque os outros fazem, e não está minimamente interessada no sexo oposto. É o completo oposto da irmã mais nova, Bianca (Larisa Oleynik), que só quer sair debaixo do tecto opressor do pai, arranjar namorado e perder a virgindade no dia do baile de finalistas. Também um muito jovem Joseph Gordon-Levitt aparece nesta novela como Cameron, o nerd perdidamente apaixonado por Bianca, e que não tarda em pedir umas dicas sobre ninas a Patrick.

 

Eu sei que não preciso de vos contar o resto da história, porque qualquer filho dos ‘90 que se preze, viu este filme 10 vezes. Pelo menos! Mas não posso deixar de referir aquela cena que nos fez deitar uma lágrima: a leitura do poema.

 

 

Sabiam que só foi preciso um take? E que as lágrimas de Julia Stiles, que fizeram o nosso coraçãozinho de adolescentes ficar apertado com o sofrimento da piquena (e desejando ardentemente que alguém nos escrevesse um poema assim!), não foram planeadas? Aquilo é emoção pura! Não é disso que são feitos os bons filmes?

 

Já tivemos esta conversa: não é preciso ser de um realizador conhecido, ter o ator do momento ou ser a treta mais deep que vimos nos últimos tempos, para ser um filme bom e que nos marca. Este é daqueles que, mesmo depois de o ver meia dúzias de vezes na TV, gravar a minha VHS (era uma cena que se fazia no meu tempo, okay?), e gastá-la até a fita se autodestruir...ainda hoje me faz sorrir.

 

 

“How do I loathe thee? Let me count the ways.”

De Lorean

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Pontualidade no cinema? Isso é coisa de outros tempos…

O drama repete-se sempre que vamos ao cinema: se a sessão começa às 18h30, ele diz que podemos chegar às 18h40. Eu teimo em chegar cinco minutos antes da hora… E arrependo-me sempre (mas não lhe digam nada).

 

Eu sou do tempo em que o filme começava, quanto muito, cinco minutos depois da hora marcada. Víamos uns anúncios, alguns trailers, e rapidamente começavam os créditos do filme que efetivamente tínhamos pago para ver. Coitados daqueles que se atrasavam… Um pouco mais de fila para comprar pipocas, e arriscavam-se a perder uns 10 minutos de filme!

 

Lembro-me que me aconteceu em Cowboys e Aliens, no ido ano de 2011 (ou terá sido 2012?). Acho que não percebi o resto do filme à pala disso…

 

Hoje, chegar atrasado não é problema. Com 15 minutos de publicidade, e outros cinco com trailers, só perde o início do filme quem quer!

 

O abuso aconteceu na passada semana, quando achei boa ideia ir à sessão das 00h20 de Batman v Super-Homem: O Despertar da Justiça. Estamos a falar de um filme com duas horas e 31 minutos, e por isso contava chegar tarde a casa. Não contava era levar com cerca de meia hora de atraso.

 

Começamos com os anúncios habituais. Alguns sumos, festivais de verão, NOS aqui e acolá… O costume. Uma pessoa já está um pouco habituada. Seguem-se dois ou três trailers, para aguçar o apetite. E um pequeno anúncio ao sistema de som da sala, que promete ser fantástico.

 

E depois outro anúncio ao sistema de som.

 

E mais outro.

 

E como se ninguém tivesse percebido ainda que a sala estava equipada com tecnologia Dolby Atmos, eles voltaram a repetir.

 

Quatro vezes. De seguida. Houve exclamações de incredulidade, suspiros de tédio, um ou outro apupo de alguém que olhava para o relógio e pensava que só ia sair daquele buraco escuro cerca de três horas depois. Quando finalmente os créditos começaram, houve quem pensasse que era apenas uma piada, e que não passava de mais um anúncio à fantástica tecnologia.

 

Das duas, uma: acham que somos assim tão pouco pontuais para precisarmos de 20 minutos de atraso para que a sala esteja cheia na hora de começar o filme? Ou somos só idiotas e precisamos de ver quatro vezes o mesmo anúncio para perceber o que nos tem a dizer?

 

Gosto que a tecnologia tenha avançado, que a experiência cinematográfica tenha melhorado; gosto que os ganhos com a publicidade continuem a permitir a existência de salas de cinema de excelência… Mas há um limite para tudo nesta vida, e estamos a começar a atingi-lo.

Trailer da semana – Ela está de volta!

Eu podia falar de tantos trailers interessantes que surgiram esta semana... Temos The Nice Guys, com Ryan Gosling e Russel Crowe. Temos War Dogs, o novo filme do realizador da trilogia A Ressaca, com Jonah Hill e Miles Teller nos principais papéis. Podia até falar do novo trailer de X-Men Apocalypse. Mas não, nenhum desses trailers fez furor esta semana – foi o regresso de Bridget Jones que pôs as redes sociais em brasa!

 

Chama-se Bridget Jones’ Baby e, como tão bem o nome indica, põe a nossa solteirona preferida com um bebé nos braços... E muitas complicações!

 

Se bem se lembram, em o novo Diário de Bridget Jones, de 2004, Bridget (na pele de Renée Zellweger) finalmente acredita que encontrou o amor ao lado de Mark Darcy (Colin Firth). Eles casam, vão viver juntos, pensam no para sempre e...

 

...Separam-se. É aqui que começa o novo filme, em que a protagonista tem de voltar a aprender a ser solteira, e basicamente regressamos ao primeiro momento em que a conhecemos.

 

Uma vez que todos os filmes da saga são baseados nos livros de Helen Fielding, desde 2013 que esperávamos este lançamento: a escritora publicou uma nova aventura de Bridget e, por isso, um novo filme começou também a ser pensado. E a expectativa era grande.


Só que, em Bridget Jones’ Baby, Bridget vê-se grávida sem saber quem é o pai da criança. Será Darcy, que nunca esqueceu e com quem acaba por ter uma recaída? Ou será Jack Qwant, o homem interpretado por Patrick Dempsey, que faz Bridget acreditar de novo no amor?

 

 

A resposta só saberemos em setembro, altura em que o filme deve estrear nas salas de cinema.

 

Por cá, o entusiasmo podia ser maior... Não pertenço à geração que encontrou esperança na figura de Bridget Jones, mas é difícil não associar a cara de Renée (que agora está um bocadinho diferente, não acham?) à eterna solteira.

O dia em que o Padrinho lutou pelo direito dos indígenas

A 27 de Março de 1973, Hollywood acordou repleto de expectativa: nessa noite, teria lugar mais uma edição dos Óscares da Academia. Mas não seria uma noite como as outras: O Padrinho, uma das obras-primas de Francis Ford Coppola, liderava as nomeações e acabaria por se consagrar um dos vencedores da noite. E também um dos mais polémicos.

 

Não porque três dos seus atores estavam nomeados para Melhor Ator Secundário; não porque Coppola, depois de um dos trabalhos mais completos do Cinema, ter perdido a estatueta; e não por O Padrinho ter acabado por ganhar Melhor Filme… mas porque Marlon Brando, o eterno Don Corleone, recusou o prémio em defesa dos direitos dos nativo-americanos.

 

Quando Liv Ullmann e Roger Moore disseram o seu nome, todos esperavam ver a sua figura a levantar-se e subir ao palco, para o usual discurso de agradecimento. Mas não: Brando não estava presente (como tinha sido recorrente nas edições anteriores), e no seu lugar veio Sacheen Littlefeather, uma indígena norte-americana que muito rapidamente explicou que o ator não aceitava o prémio, devido à forma como os nativos eram destratados na indústria cinematográfica.

 

 

Houve boo’s. Houve críticas e palavras menos agradáveis para com Brando, sobretudo porque este foi o prémio que veio consagrar o ator. Não era o primeiro Óscar: Brando já tinha ganho em 1955 por Há Lodo no Cais, apenas cinco anos depois do início da sua carreira de relevo, e três depois da sua primeira nomeação (uma por cada ano).

 

No entanto, a sua carreira tinha entrado em declínio nos anos 60, com a participação em filmes que não foram bem recebidos pela crítica; Brando sofrera uma grande perda na sua vida, e começava a olhar para a indústria com desconfiança. O Padrinho mostrou-se como um novo fôlego, e a prova necessária para demonstrar que Brando continuava a ser um dos melhores atores da sua geração.

 

De sempre, diria eu. A primeira vez que me deparei com o seu semblante carregado foi precisamente em O Padrinho, e é impossível não associar a sua expressão a Corleone. É Brando que reconheço como o verdadeiro Jor-El, o pai do Super-Homem (Russell Crowe, adorei a tua tentativa, mas não há como suplantar o mestre), e é Brando que ainda oiço a gritar por Stella cheio de mágoa e desespero.

 

Com aquela voz característica e papéis que parecia levar mais a sério do que aqueles que o rodeavam (uma ironia, já que o ator nunca levou a profissão a sério), Brando pegava num guião e tornava-o seu. Ninguém nega que O Padrinho seja um dos filmes mais completos do século XX, nem que muito se deve ao trabalho de Coppola e dos seus atores. Mas a verdade é que, sem Vito, sem as suas bochechas e gesto criados por Brando, o Don não seria o Don.

 

A 27 de março de 1973, Marlon Brando recusou aceitar uma das provas daquilo que todos sabemos: a sua interpretação de Don Corleone foi das melhores de sempre, e uma das mais memoráveis. Muitos dizem que o terá feito por despeito, outros que Corleone lhe subiu à cabeça e não passou de um golpe publicitário para demonstrar superioridade.

 

Não quero acreditar em nenhuma delas. De facto, pouco me importa que tenha recusado. Se bem que este dia ficou para a História do Cinema devido à sua nega face à Academia, eu gosto de recordá-lo por aquilo que é: o dia em que Marlon Brando foi reconhecido como um ator de excelência, numa das melhores interpretações da sua carreira.

 

Ele diz que quis apoiar a visibilidade dos nativo-americanos. Muito bem, que seja. Para mim, foi o dia em que o Padrinho de todos nós mostrou mesmo que não estava à mercê de Hollywood. E ainda bem, porque anos depois trouxe-nos uma das personagens mais enigmáticas e estranhas do Cinema: Kurtz, em Apocalipse Now. Quem souber explicá-la, que ponha a mão no ar!

 

Marlon, onde quer que estejas, deixa lá o que dizem. Obrigada por me fazeres uma proposta que ainda hoje não consigo recusar.

Batman v Super-Homem (2016): ataque de titãs

Sinopse: quase dois anos depois da apresentação de Super-Homem ao mundo, e da descoberta de que não estamos sozinhos no Universo, que deixámos de ser os mesmos. Não estamos muito certos de que o Super-Homem é mesmo o herói de que todos precisamos… mas também temos as nossas dúvidas acerca de Batman, que fez sua missão acabar com o homem de aço. Mas uma ameaça inesperada faz com que tenham de se unir para nos salvar a todos.

 

Há três anos, Zack Snyder trouxe-nos uma nova versão de algo muito conhecido: o Super-Homem. Se ao início se pensou que fosse mais um filme de super-heróis, a verdade é que Homem de Aço mostrou-nos um Super-Homem mais negro, introspetivo, e que deixa de lado a verdade, justiça e o jeito americano para perguntar-se se as suas capacidades são, de facto, uma benção para a humanidade. 

 

Para alguém como eu - que tem edições de colecionador dos quatro filmes originais, algumas BD, bastante merchandising, e até vi a tentativa de Brian Singer de trazer o kryptoniano para os nossos dias -, foi uma ótima nova perspectiva sobre uma história que parecia que não podia trazer nada de novo.

 

Mas trouxe. Este novo Super-Homem (interpretado por Henry Cavill) não é o todo-poderoso que os outros pareciam ser; é mais humano, com as suas crises de identidade, os seus dilemas pessoais e profissionais, e uma família da qual tem de cuidar; é um homem com poderes, com um gosto duvidoso para a escolha de indumentária, mas que tenta ao máximo fazer o que está certo, sem saber se é, de facto, o melhor.

 

Da mesma forma, seria de esperar que o Batman que Snyder agora nos apresenta também não fosse muito diferente daquele que conhecemos: distante, calculista, atormentado pela morte dos pais, determinado a defender a cidade de Gotham. Na verdade, este Batman é mais do que isso: é também mais velho, com 20 anos de experiência como justiceiro, e numa fase da sua vida em que já questiona se aquilo que faz tem, mesmo, alguma importância para a cidade.

 

Por outras palavras, Batman v Super-Homem consegue pegar em duas personagens que achávamos que conhecíamos, para lhes dar uma nova roupagem.... E não falo apenas no upgrade dos fatos.

 

Nesse aspeto, este filme é uma surpresa. Pela primeira vez temos dois dos mais adorados super-heróis da banda desenhada frente a frente no grande ecrã, e mais do que uma tentativa para ganhar dinheiro com isso, é uma ótima e bem construída obra de ação. E mais: toca num ponto da história da DC Comics e do Super-Homem que não esperava ver no cinema tão cedo, bem como em algumas das suas raízes.

 

Snyder consegue manter um ambiente negro e misterioso ao longo de todo o filme, bem como toda a ação que vemos a desenrolar-se à nossa frente. Passamos de Metropolis para Gotham, do Daily Planet para a Batcave, sem perdermos um fio à meada do que está a acontecer - o que significa que Snyder sabe bem para onde quer ir com a história, e conhece-a bem. A acompanhá-lo está um argumento detalhado q.b. e muito bem construído, que nos leva por entre as cidades, e uma banda sonora ritmada e certeira em cada momento (Hans Zimmer colaborou com Junkie XL, e ainda bem, porque se ele nunca faz nada mal, só melhorou).

 

É claro que nada disto era possível se as personagens não o permitissem. Já conhecemos Clark Kent e Bruce Wayne (que, mesmo com mais 20 anos em cima, é o mesmo garanhão de sempre), mas existe também um delicioso Jeremy Irons na pele do sábio (e muito humorístico) Alfred, uma Amy Adams competente como Lois Lane, e uma pequena referência para Holly Hunter como Senadora Finch.

 

Mas a vénia fica para fazer a Jesse Einsenberg e ao seu lunático Lex Luthor. Tive receio quando o ator foi escolhido para o papel, porque temi que mantivesse aquele semblante poker face que nos tem mostrado. Estava enganada: ele pega no agitado Lex de Gene Hackman, dá-lhe uma pitada da loucura de Kevin Spacey (no malfadado Super-Homem: O Regresso, de 2006), e presenteia-nos com um Luthor que há muito queria ver no cinema, louco como só ele pode ser.

 

Lê-se nos sites internacionais que a crítica não está a receber bem este Batman v Super-Homem: O Despertar da Justiça. Dizem que é demasiado sério, que o Super-Homem não é tão bom e humorístico como na BD, que a história está confusa e não nos leva a lado nenhum, e que Snyder gosta é de explosões e de destruir cidades.

 

Dou-lhes de barato a última afirmação, porque menos edifícios a ir pelo ar não era nada mal pensado. Mas discordo das restantes. A verdade é que o espírito das bandas desenhadas originais pode parecer perdido, mas nem tudo tem de ser exatamente igual. A Warner Bros quer apostar num público diferente, em heróis mais humanos e negros. Isso é mau? Não me parece. Para filmes repletos de humor e ironia, temos os Vingadores; não precisamos que o Super-Homem e o Batman se enfrentem como o Capitão América e o Homem de Ferro – é por isso que não existe um VS no título.

 

Eu posso gostar muito do Super-Homem e Batman originais, mas gosto de ver este lado diferente. Não preciso que os filmes sejam todos flores e corações; o drama existe, pode e deve ser utilizado no cinema. Continuo a assistir aos filmes com Christopher Reeve com prazer, tenho em Christian Bale e Michael Keaton os meus morcegos preferidos. Mas Cavill e Affleck dão-lhes outra roupagem, e é isso que importa numa Hollywood que parece já não saber o que fazer com as histórias que continua a contar.

 

No final, o que importa é que este filme nos apresentou uma das personagens que mais curiosidade tenho de ver no cinema: a Mulher Maravilha. Com tanto mistério entre a sua presença e o próximo Liga da Justiça (o véu foi levantado, e não precisámos de créditos finais – TEAM DC), ainda há muito para conhecer. E eu vou querer ver tudo!


De 0 a O Ben Affleck parece um bicho, leva: O Ben Affleck está graaande!

A Lista de Schindler - 22 anos depois do Óscar

Por DeLorean

 

Há 22 anos atrás, a 21 de Março de 1994, A Lista de Schindler levava para casa o Óscar de Melhor Filme. Realizado por Steven Spielberg, esta obra prima do cinema conta a história verídica de Oskar Schindler, um membro do partido Nazi que usou a sua influência para salvar mais de mil judeus, ao empregá-los na fábrica de que era dono.

 

Oskar Schindler

 

Mas há alguns factos sobre o filme que nunca viram a luz do dia, e o site Mental Floss decidiu investigar melhor. A verdade é que, apesar de ser uma das mais importantes do Holocausto, esta história ficou por contar durante muitos anos. E tudo começou com uma casa de peles em Los Angeles.

 

Não, não estou a brincar: o dono, Leopold Page (nascido Poldek Pfefferberg), tinha o hábito de fazer emboscadas a quem quer que ele achasse que podia levar aquilo que ele sabia para a grande tela: a história de como ele próprio, a mulher e centenas de outros judeus tinham sido salvos da morte certa por Oskar Schindler.

 

51100122.jpgLeopold Page

 

A primeira vez que teve sucesso com a sua empreitada foi por volta de 1960, quando a esposa de Marvin Gosch, um produtor influente da MGM, entrou na sua loja para fazer compras...e saiu com a história. A senhora não tardou a contá-la ao marido, que concordou em fazer um filme e contratou o co-argumentista de Casablanca, Howard Koch, para ser também o autor deste argumento. Gosch e Koch começaram a entrevistar outros sobreviventes, e até o próprio Schindler, mas o projeto caiu por terra.

 

20 anos depois, em Outubro de 1980, Page encontrou finalmente quem prestasse atenção ao que tinha para contar: o escritor australiano Thomas Keneally. Tendo acabado nos dias antes uma book tour e uma presença num festival de cinema (em que viu estrear um filme baseado em um dos seus livros), Keneally entrou na loja sem esperar sair de lá com algo mais que um cinto.

 

Mas Page tinha outros planos, e contou-lhe a sua história, entregando-lhe ainda dezenas de documentos - discursos, testemunhos e uma das listas verdadeiras de Schindler com os nomes de quem devia ser salvo. O australiano saiu da loja inspirado, e acabou por passar tudo para o papel. O resultado final chamou-se Schindler's Ark, e foi publicado em 1982.

 

91Di38c3nrL.jpgCapa original (à esquerda) e capa atual (à direita) de Schindler's Ark

 

Nessa altura, o presidente da produtora e distribuidora MCA/Universal era Sid Sheinberg, mentor de Steven Spielberg. Foi ele quem mostrou o livro ao realizador que, alegadamente, respondeu "isto dava uma história do caraças. É verdadeira?". Não demorou, por isso, que o estúdio comprasse os direitos da obra. Page, o impulsionador de tudo isto, acabou por se encontrar com o realizador para discutir a história, e foi aí que Spielberg fez uma promessa: completar a adaptação cinematográfica num espaço de 10 anos.

 

Surgiram, contudo, grandes hesitações: Spielberg estava relutante em assumir a responsabilidade de uma história tão séria e importante e tentou até que outros realizadores aceitassem o trabalho. Roman Polanski foi a primeira escolha, principalmente pelo próprio ser um sobrevivente do Holocausto e ter visto a mãe morrer em Auschwitz. Polanski não aceitou mas, uma década mais tarde, em 2003, trouxe-nos a obra prima O Pianista, que lhe valeu o Óscar de Melhor Realizador.


Seguiu-se Sydney Pollack e mais uma recusa. Mas à terceira é de vez, e Martin Scorsese aceitou. Já estava tudo preparado para levar o filme para a frente quando Spielberg, durante a produção de Hook (com Robin Williams no papel principal) teve uma epifania: ele, e só ele, podia realizar A Lista de Schindler! Depois de um acordo amigável e uma troca de direitos com Scorsese, o realizador começou finalmente a cumprir a palavra que dera a Leopold Page.

 

Nelson with Spielberg(RGB).jpgSteven Spielberg com Ben Kingsley (em cima, à esquerda), com a pequena atriz 
Oliwia Dabrowska (em cima, à direita), com Liam Neeson (em baixo à esquerda) e 
na sala de edição com os editores Andy Nelson, Steve Pederson, 
Michael Kahn e Scott Millan (em baixo, à direita)

 

Mas agora os estúdios estavam desconfiados, e sem grande vontade de gastar muito dinheiro com o filme. Spielberg teve direito a um orçamento relativamente pequeno de 23 milhões, já que o filme era um enorme risco: a preto e branco, sobre o tema do Holocausto e com quase três horas de duração. Portanto, e para terem algo em que se apoiarem caso o projeto desse para o torto, a MCA/Universal pediu ao realizador para, antes de começar, colocar primeiro em marcha um filmezinho nada conhecido que a produtora já andava a querer fazer há algum tempo: Jurassic Park. 

 

A fortuna de Spielberg, que já não era pequena, ficou ainda mais choruda com o que se viria a tornar um dos franchises mais rentáveis de sempre. Mas quanto à A Lista de Schindler, o realizador não foi ganancioso, e achou que uma história tão importante como a de Oskar Schindler não merecia compensação monetária - pelo menos, não para ele próprio, chamando-lhe até de "blood money". Na verdade, Spielberg utilizou os lucros do filme para fundar a Shoah Foundation, estabelecida para honrar e relembrar os sobreviventes do Holocausto.

 

Spielberg também não foi ganancioso com o elenco - aliás, fez questão de que Oskar Schindler não fosse interpretado por uma das grandes estrelas de Hollywood dos anos 90. Tanto Kevin Costner, Warren Beatty e Mel Gibson (conseguem imaginar!?) fizeram audições para o papel, mas foi Liam Neeson, na altura relativamente desconhecido, que recebeu a enorme responsabilidade.

 

E no final de contas, qual foi o resultado? Uma obra prima do cinema; um clássico que, se não vos emociona, é porque são verdadeiros robôs; um filme multi galardoado, levando para casa seis Óscares: Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Argumento Adaptado, Melhor Direção Artística, Melhor Edição e Melhor Banda Sonora Original - sendo ainda que tanto Liam Neeson como Ralph Fiennes foram nomeados para Melhor Ator e Melhor Ator Secundário, respetivamente.

 

Mas, na minha opinião, a curiosidade mais interessante sobre A Lista de Schindler é o facto de, tecnicamente, ter sido feito por um estudante: Spielberg, tendo desistido da faculdade 33 anos antes do lançamento deste filme, voltou a inscrever-se em segredo e conseguiu finalmente graduar-se...entregando A Lista de Schindler como projeto final de curso!

Steven Spielberg aperta a mão de Robert Maxson, Presidente da Cal State 
University Long Beach, ao receber o canudo, em Maio de 2002 

 

E acho que vencer seis Óscares lhe deu todas as equivalências que precisava.

Combater zombies com boysbands. Hum?

Acham que leram mal? Não acreditam que boysbands, aquelas bandas muito famosas nos idos anos 90, possam ser capazes de salvar o mundo da ameaça dos zombies? Meus caros, a Maria Juana está cá para isto mesmo: dar-vos a conhecer as novidades deste planeta, mesmo as mais improváveis. Por isso, fiquem a saber que sim, existe um filme sobre zombies e bandas pop.

 

Chama-se Dead 7, e, espantem-se, é dos mesmos senhores que nos trouxeram Sharknado (uma das obras-primas do cinema idiota mais recentes, e das minhas prediletas). Mas não só: a história foi conceptualizada pelo próprio Nick Carter, membro dos famosíssimos Backstreet Boys.

 

O conceito pode parecer igual a tantos outros filmes de zombies, mas não: em Dead 7, um western pós-apocalíptico, a salvação do mundo está nas mãos de antigos membros de boysband norte-americanas, que tiveram o seu pico de sucesso nos anos 90.

 

 

Que levante a mão alguém que não conheça, pelo menos, uma música de Backstreet Boys! Atire-se contra a parede aquele que não se lembra de um Justin Timberlake com caracóis. Bem, Timberlake pode não aparecer em Dead 7, mas dois dos seus companheiros dos N’Sync marcam presença.

 

Esta grande obra cinematográfica pode não ir para a sala de cinema, mas se fosse, eu estaria na primeira fila! Nick Carter de pistola em riste a combater contra mortos-vivos? Howie e A.J. a correr para nos salvar? Sim, eu vou querer ver isto.

 

E quando vir, vou adorar cada segundo! Zombies e Backstreet Boys? Consegue ser melhor do que tubarões em tornados, e podem ter a certeza que eu gosto de um bom tubarão no meio da tempestade!

 

Só vamos conseguir assistir a esta obra algures em abril. A estreia nos Estados Unidos, no canal SyFy (haveria lugar melhor?), vai acontecer dia 1 de abril. É bom que não seja mentira!

 

Drive In #10 - Beastly

You’re never too old for fairytales. Não sei quem disse, mas sempre acreditei nisto. As histórias que nos fascinavam, enquanto crianças, faziam-no com o seu condão de magia, situações deliciosamente fantásticas e impossíveis, vilões do piorio e heróis estóicos, lições para levar para a vida…e acima de tudo, finais felizes.

 

Portanto, e com isso em mente, o Drive In desta semana coloca o holofote num filme baseado num conto de fada que todos conhecemos muito bem, e que, por acaso, é o meu favorito: A Bela e o Monstro.

 

Imortalizado pela Walt Disney em 1991 (o meu ano de nascimento – coincidência? I think not!), a história do amor improvável, mas puro, entre Bela e o seu Monstro, marcou o imaginário de toda a gente que tinha acesso a um leitor de VHS. Por isso, não é de estranhar que alguém tenha tido vontade de pegar nesta lenda e fazê-la passar do mundo da animação para algo mais real. E, assim, como que por um feitiço que correu muito mal, nasce Beastly.

 

 

Baseado no livro de Alex Finn com o mesmo nome, o realizador Daniel Branz (Phoebe in Wonderland) tentou imitar o sucesso de filmes como Twilight e trazer para a grande tela a história de Kyle Kingson (Alex Pettyfer), um adolescente rico, bem-parecido e popular, que fez de um liceu de Manhattan o seu reino. Um dos seus lemas é “embrace the suck” – ou, por outras palavras: gente feia, gorda e ranhosa em geral, tem de se resignar ao destino de trolls, e compreender que nunca serão alguém ou farão algo com a sua na vida, porque pessoas como Kyle vão sempre passar-lhes a perna apenas por serem bonitos. E embora aprecie a honestidade com que ele diz o que pensa, o moço é um anormal.

 

Quem também pensa assim é Kendra (Mary-Kate Olsen), a bruxa residente do liceu. Para o fazer perceber que a beleza está no interior, lança-lhe um feitiço, desfigurando-o completamente e deixando-o um autêntico ogre – com o toque especial de lhe tatuar sobrancelhas que diziam “embrace the suck”. Não lhe deu um gato das botas ou um burro como sidekicks, mas fixou um prazo e uma condição: Kyle tem de encontrar alguém que lhe diga que o ame num espaço de um ano, ou ficará feioso para sempre.

 

 

Wow. Realmente, a pior coisa que podia acontecer a alguém, ficar feio. Muito pior que cancro. Ou a morte. Or worse, expelled. Como dira Ron Weasley, he needs to sort out his priorities.

 

O pai de Kyle, ao ver a besta em que o filho se tornou – e uma besta-quadrada ele próprio -, fecha-o numa vivenda, longe do mundo, para ninguém ter que lidar com aquela feiura. Mas 4 meses passados, o nosso Shrek cansa-se de estar fechado em casa e vai ter com a única pessoa que, mesmo sabendo que ele era um anormal, lhe tinha mostrado simpatia: Lindy (Vanessa Hudgens).

 

Segue-se uma amálgama de acontecimentos, muitos claramente forçados para fazer o filme parecer-se com o original da Disney. Kyle encontra o pai de Lindy a matar o seu dealer (suponho que é o equivalente a um inventor do século XIX…) e faz com ele um acordo: Lindy vai viver com ele, para a protegerem de represálias. Essa convivência vai passar de irritação a aceitação, de aceitação a amizade e, como seria de esperar, a um romance fofinho.

 

 

A partir daqui, passamos o resto de filme a sentir muita vergonha alheia: a sucessão de acontecimentos, os diálogos, o romance cliché…até dá para perceber que os atores não estavam para fazer o esforço. A minha cena favorita é quando, depois de levar a rapariga até um chalé lindo, à beira de um lago, e de terem um momento em que quase se beijam, Kyle está à espera de um "amo-te"...mas leva a maior tampa de que há memória.

 

 Friendzone level 9000!

 

O argumento é mau, e a realização também não é melhor: aparentemente, Branz gosta muito de filmar paisagens…pena que, por vezes, dê para notar que os cenários canadenses não são mesmo Nova Iorque.

 

Vá, não é tudo horrível: nos momentos em que Beastly não tenta ser uma cópia de A Bela e o Monstro – como a cena romântica no zoo -, até parece um filme de jeito. Além disso, não podemos negar que o casting ajuda: é impossível não gostar de Vanessa Hudgens, Neil Patrick Harris é, enfim, ele próprio, e até Alex Pettyfer (apesar dos números fraquinhos de I Am Number Four, lançado pouco tempo antes) tem momentos que são dignos de ver.

 

Mas sabem qual é mesmo a melhor coisa acerca deste filme? Só tem 86 minutos.

 

Pretty gruesome, huh? I've seen worse.

DeLorean

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Drive In #9 - Feliz Aniversário, Chuck Norris!

Sim, eu sei: a semana passada não houve Drive In. A verdade é que a DeLorean teve de passar uns dias na oficina a fazer a revisão e a mudar o filtro do óleo. Não se preocupem, estava tudo bem e passei na inspeção! Vim de lá com o motor a ronronar mais suavemente e novas pastilhas nos travões. Mas tenho de admitir que, por momentos, foi como se o Marty McFly me tivesse levado de volta a ‘91 e vi a minha vida passar-me diante os olhos *insert dramatic music here*.

 

Foi nessa altura que o instinto de sobrevivência kicked in e me lembrei de um dos maiores badasses da história: o incontornável, inesquecível e inconfundível Chuck Norris. Canalizei aquela calma e classe que só ele tem e saí da oficina com a buzina a tocar o genérico de Walker, O Ranger do Texas.

 

 *and the eyes of the ranger are upon you...*. Nunca nada foi tão assustadoramente awesome.

 

Pensei logo em dedicar-lhe um Drive In, e qual não foi o meu espanto ao descobrir que hoje é o aniversário desse ícone americano: Carlos Ray Norris nasceu neste dia de Março, há 75 gloriosos anos.

 

Chuck nasceu no estado do Oklahoma, rodeado de yeehawws e botas de cowboy. Como um verdadeiro americano, alistou-se na força aérea, que o levou a voar pelo mundo, acabando ali para os lados da Coreia. Foi por lá que se começou a interessar por artes marciais e, claro, não tardou para que conseguisse o primeiro dos seus 6 (sim, 6, e todos com os graus mais altos!) cinturões negros. Hoje, faz parte do Hall of Fame do Museu de Artes Marciais….e do coração de todos nós.

 

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De volta à pátria, a carreira de ator do eterno Ranger começou em 1968, com o filme A Arma Secreta Contra Matt Helm (tradução fantástica de The Wrecking Crew, no original). Por esta altura, ninguém tinha ideia de que podia falecer com apenas um piscar de olhos de Chuck, e por isso nem se deram ao trabalho de colocar o nome dele no poster oficial do filme. Amadores.

 

Quatro anos mais tarde, em 1972, conheceu Bruce Lee, e foi como se almas gémeas se cruzassem depois de uma longa busca. Juntos, protagonizaram O Vôo do Dragão (basta clicarem para verem esta obra prima completa no YouTube), o único filme alguma vez realizado por Lee, e que catapultou Norris para a fama.

 

20 anos e vários filmes de sucesso depois, eis que chega às nossas televisões a série que nunca esqueceremos - não só porque, para a altura, era qualquer coisa de extraordinário, mas também porque temos medo de represálias se alguma vez nos atrevermos. Walker, O Ranger do Texas durou 8 anos, sempre transmitindo os seus valores conservadores do bem, da abstenção de álcool e drogas, do product placement das pickups Dodge, e de que a melhor forma de acabar com os mauzões era dar-lhes um enxerto de porrada à antiga.

 

 

Portanto, quem é que nós somos? Fãs! E o que é que queremos? Uma nova temporada da série para celebrar os 15 anos desde que esta maravilha disse adeus à televisão! E o que é que temos de fazer? Rezar, esperar talvez por outro cameo num Expendables 6 e, para já, desejar um feliz aniversário a este ícone!

 

Ou, melhor dizendo, desejar um feliz Chuck Norris ao dia 10 de Março.

 

 

    DeLorean

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Quarto (2015), uma ode ao Cinema, e à liberdade

Sinopse: Joy (Brie Larson) tinha 17 anos quando foi raptada por um homem a que chama Old Nick (Sean Bridgers), ficando fechada num pequeno quarto, onde a única ligação com o exterior é uma clarabóia. Aos 19, Joy dá à luz Jack (Jacob Tremblay), cuja única coisa que conhece é aquele espaço, e a história que a mãe lhe conta: aquilo é todo o mundo. Até que têm oportunidade de escapar, e Jack tem de aprender que, afinal, o mundo é muito mais do que aquelas quatro paredes.

 

 

Começo este texto com um aviso: até ao momento em que vi Quarto, achei justa a vitória de O Caso Spotlight na última edição dos Óscares da Academia. Essa crença mudou quando passaram os 118 minutos deste filme.

 

Quando comecei a escrever este texto (que deu várias voltas e voltas num documento Word), quis responsabilizar alguém pela minha mudança de opinião. Comecei pelo argumento, depois pela realização, passei pela interpretação da dupla de protagonistas… Mas a verdade é que ainda não sei bem.

 

O que sei é que os 118 minutos de filme me arrebataram. De início não; adorei, bati palmas a todos os envolvidos, dei graças pelo Cinema independente. Mas conforme pensava sobre Quarto, e tentava escrever sobre ele, fui percebendo que me tocou de forma mais profunda do que pensava.

 

 

É claro que a história tem grande parte da “culpa”. Não nos passa pela cabeça (a nós, comuns cidadãos) o que é viver em cativeiro durante sete anos, sendo abusada sexualmente e obrigada a criar um filho dentro de quatro paredes, protegendo-o das privações que poderia sofrer e de possíveis maus-tratos. A mim, que não tenho filhos, tocou-me os esforços que esta mãe fez, e a forma peculiar (mas eficaz) que criou para que o seu filho fosse feliz: o mundo era apenas aquilo que encontrava no Quarto.

 

Mais do que uma história de esperança e sacrifício, Quarto mexeu comigo porque me permitiu relativizar a liberdade (que damos como adquirida), e o mundo que nos rodeia. A perspetiva de Jack, que nos conta a sua história na primeira pessoa, fez-me ver que o mundo é de facto um lugar imenso, cheio de coisas maravilhosas para descobrir, pessoas e locais - e que parte de nós a responsabilidade de o fazer.

 

É talvez aqui que surja a parte mais técnica do filme. Se bem que o argumento contribuiu para esta creio que a realização feita por Lenny Abrahamson foi crucial para que consigamos passar de uma sensação de clausura (que apenas sentimos no final), para a liberdade imensa. De close-ups e planos fechados, em que o Quarto nos parece gigante, passamos para panorâmicos e filmagens alargadas no momento em que Jack se consegue libertar, mostrando-nos através da lente aquilo que sentia aquela criança de cinco anos.

 

 

O melhor é que não nos sentimos sufocados no Quarto até vermos o quão gigante é o mundo, da mesma forma que Jack achava que dentro daquela cabana tinha tudo o que precisava para ser feliz, e mais tarde encontra a verdade.

 

É aqui que dou o merecido louvor a Jacob Tremblay. Com nove anos apenas, o jovem ator (já merece a distinção) consegue simultaneamente manter-se inocente, como logo de seguida cresce e mostra-se dono do mundo. Tomara vários adultos conseguirem o mesmo.

 

Tomara também alguns atores e atrizes consagrados manter o semblante de Brie Larson. Além da química inegável que existe entre a dupla (numa história tão poderosa entre mãe e filho, era quase obrigatório), Larson é tudo: é mãe, é menina, é filha, é a cativa que mantém a esperança e depois a perde, para mais tarde voltar a ganhar forças. Em 118 minutos de filme, a atriz dá-nos de tudo um pouco, e é impossível não existir compaixão e relação com a mesma.

 

 

No fundo, Quarto é uma obra-prima. Enquanto filme, tem tudo o que esperamos de uma película do género, com elementos técnicos bem conseguidos e pensados - mas é mais do que isso: é um hino à liberdade, maternidade e humanidade; é ode ao Cinema, cumprindo a missão que todos os filmes devem tentar responder, ao nos transmitir uma mensagem e nos fazer sentir algo.

 

Eu senti, e continuo a sentir. Quero descobrir o mundo, procurar novos lugares e encontrar os meus limites. Se é que eles existem…

 

De 0 a Não há palavras que o descrevam, recebe um honroso Ainda estou à procura das palavras certas.

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